30. Coleção Nacional

Instituto

Ano: 2002
Gravadora: YB/Instituto
Gênero: Vários

Este disco do Instituto teve como função formar uma trilha sonora do que acontecia de melhor na música brasileira em gêneros como rap, dub, afro-beat, samba, manguebit e psicodelia. Coleção Nacional funciona como um imaginário coletivo querendo penetrar na mente dos ouvintes para desorientá-los, fazê-los perceber que a arte é uma viagem e a idolatria, uma bobagem. Formado por Rica Amabis, Daniel Ganjaman e Tejo Damasceno, o selo Instituto nasceu com o propósito de fazer música em conjunto, mas em moldes transfigurativos. Sabotage canta em “Cabeça de Nego” e “Dama Tereza” num clima de terreiro de candomblé; Fernandinho Beat Box abre o disco reprocessando a influência samba/rap trabalhada com Marcelo D2; Otto e BNegão quebram tudo em “O Dia Seguinte”, uma espécie de ‘afro-beatcore’ que mistura Planet Hemp com Paêbirú. M. Takara e Flu, do Hurtmold, contribuem com suas experimentações flutuantes, mais ou menos como aquelas trilhas imaginárias que pairam na cabeça quando se pega o último metrô da madrugada.

Faixa: “Dama Tereza” (part. Sabotage)

29. Punx

Guizado

Ano: 2008
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: Experimental

Quando vi a capa do disco pela primeira vez, lembrei na hora do disco On the Corner (1972), um clássico da fase elétrica de Miles Davis. Ouvi e, por mais que percebesse algumas semelhanças, percebi que ali havia uma anarquia sonora ainda mais híbrida, já que a procura de Guizado é totalmente diferente de Miles. Ali tem hip hop, gameboy, cuban-jazz, acid rock e – claro – muita produção eletrônica. (Ah, e tem bossa-nova também, como é o caso de “Areias”.) A liberdade do trompetista é tão intensa, que seria um grande reducionismo classificá-lo. “Der Golem” é quase uma viagem de ácido, se aproximando da produção de M. Takara, que participa do disco. “Vermelha” é trabalhada no tempo do P-Funk e “Maya” forja batidas de funk carioca, mas envereda por uma trilha obscura, quase estapafúrdia, que se transforma em techno. Por mais esquizofrênico que possa parecer, Punx é um disco que te obriga abrir a cabeça.

Faixa: “Vermelho”

28. Deixa a Vida Me Levar

Zeca Pagodinho

Ano: 2002
Gravadora: Universal
Gênero: Samba

O Brasil sempre foi um país desigual. Há séculos isso motivou artistas e músicos a apontarem esse câncer incurável através da arte. Essa coisa de apontar teorias e identificar soluções, por ser um tema complexo, acaba sendo restrito à ala culta, literata ou, como é o nosso caso, restrito aos ‘abastados’ que tiveram uma educação mínima. Isso gera uma separação: gente que tem dinheiro e o mínimo de educação intelectual versus gente que não tem porra nenhuma e é analfabeto. Onde aparece a autoestima dos desfavorecidos? Sorte que temos o rap e o samba, que conseguem desempenhar o seu papel com qualidade invejável em comparação a outros gêneros aqui no Brasil. Zeca Pagodinho é um ícone. Você come caviar? Ele torce o nariz e diz preferir ‘ovo frito, farofa e torresmo’. A vida é dura? ‘Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu’. Apego aos bens materiais? ‘Eu não tenho nada que alguém possa levar’. Muitos podem achar que é conformismo ou resignação, mas você não pode deixar a vida passar – ela é curta demais.

Faixa: “Caviar”

27. Jogos de Armar: Faça Você Mesmo

Tom Zé

Ano: 2000
Gravadora: Trama
Gênero: Experimental

Graças a David Byrne (Talking Heads) e ao New York Times, podemos saldar uma dívida com Tom Zé. Após participar ativamente do movimento tropicalista no final da década de 1960, Tom Zé entrou em uma ebulição criativa que poucos conseguiram acompanhar. Nos final dos anos 1980, conheceu Byrne e continuou lançando bons discos lá fora, com destaque para The Hips of Tradition (1992) e Com Defeito de Fabricação (1998), eleito um dos 10 melhores discos do ano pelo grandioso jornal nova-iorquino. Jogos de Armar foi o primeiro lançamento da ‘volta’ de Tom Zé ao Brasil e, aqui, ele desconstruiu qualquer noção de baião, tropicalismo ou a própria canção. Com instrumentos como serreteria e buzinório, feitos a partir de eletrodomésticos, Tom Zé ainda assim conseguiu dar uma cadência dançante e até criou um ritmo em “Chamegá”, com a autoridade de quem já se aprofundou para distorcer a cultura popular. Para voltar com força para o país que o rejeitou artisticamente, Tom Zé surpreendeu com versões de “Pisa na Fulô” e “Asa Branca”, hinos do Nordeste. Obviamente, em versões nada convencionais.

Faixa: “Chamegá”

26. Iê Iê Iê

Arnaldo Antunes

Ano: 2009
Gravadora: Rosa Celeste/Microservice
Gênero: Pop Rock

Iê Iê Iê é pop, dançante e com letras fáceis e inteligentes. Estamos falando de Arnaldo Antunes, uma das mentes mais criativas do rock nacional desde os anos 80. Logo na faixa-título, que abre o disco, uma alegria circense estampa o interesse de Arnaldo pelo que é popular – ainda que em nossos tempos sejam os ‘bailes funk’, FMs e TVs, instituições que parecem não ter entendido o recado. Da capa à última faixa, o que não falta é simbologia pop: tem Beatles, auditório, música de baile, guitarras distorcidas, baladas. Talvez uma das incursões pop mais artisticamente bem-sucedidas na música brasileira nos últimos anos. O trabalho com os Titãs e Tribalistas é relembrado em faixas como “Luz Acesa” e “Vem Cá”. Para dar suporte a Arnaldo, uma banda primorosa: Fernando Catatau na produção e nas guitarras, Betão Aguiar no baixo, Chico Salem (violão/guitarra), Edgard Scandurra (guitarras), Marcelo Jeneci (teclados) e Curumin (bateria).

Faixa: “A Casa é Sua”

25. São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe…

Rodrigo Campos

Ano: 2009
Gravadora: Ambulante Discos
Gênero: Samba/MPB

Aqui, o cavaquinho traz a proximidade com o samba, a forma de composição é MPB e os personagens periféricos caberiam no contexto do rap. Logo no primeiro disco, Rodrigo Campos já mostrou que é um dos melhores letristas de nossa geração. Para falar sobre o bairro da zona leste de São Paulo, ele teve que se distanciar – depois de viver por lá mais de 20 anos. Mas aqui não tem só São Mateus; a Vila Sônia ganhou uma bela canção na voz de Luísa Maita e o Metrô Carrão é um dos destinos de “Fim da Cidade”, composta para o irmão de Rodrigo. Mas nem só de bairros, ruas e metrôs se sustenta o disco. A simplicidade do cotidiano ganha nuances poéticos, quase mágicos na música de Rodrigo Campos. Dá pra se emocionar com a curta história de “Lúcia”, que fala brevemente de uma professora batalhadora. “Isac”, que não é ‘um amigo assim tão bom’, de certa forma se assemelha com qualquer um de nós. Além de Luísa, também participam do disco Gui Amabis, Curumin, Ubaldo Versolato e mais.

Leia também: Entrevista exclusiva com Rodrigo Campos

Faixa: “Cavaquinho”

24. Toda Vez que Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar

Siba e a Fuloresta

Ano: 2007
Gravadora: Ambulante Discos
Gênero: Coco/Frevo/Maracatu

Siba, a linha de frente do grupo Mestre Ambrósio, teve que excursionar pela Europa e morar por mais de cinco anos em São Paulo para voltar às origens sonoras de sua terra – mais especificamente, a Zona da Mata de Pernambuco. Só o fato de resgatar tais raízes como coco, ciranda, frevo e maracatu rural já seriam dignos de menções honrosas, mas Siba consegue, com um grupo estupendo, intercalar esses ritmos tradicionais com composições atuais e, claro, dançantes. A faixa-título pode-se referir tanto ao passo de um bêbado, como aos passos ininterruptos da tecnologia e como ela afeta o homem. “Será” bate na tecla de um dos maiores problemas em nosso país: aumento da carga tributária. “Meu Time” poderia servir como trilha para aquele futebol de domingão e “12 Linhas”, que parece seguir caminhos psicodélicos, logo entra nos eixos com uma composição geográfica que pode ser aplicada tanto na megalópole, como à cidade mais ribeirinha da região. Bom que o Brasil redescubra e valorize mais suas tradições musicais.

Faixa: “Será”

23. Babylon By Gus Vol. 1: O Ano do Macaco

Black Alien

Ano: 2004
Gravadora: Deckdisc
Gênero: Rap/Ragga

Simplesmente o melhor registro de um ex-membro do Planet Hemp. Gustavo Black Alien demorou bastante para concluí-lo, mas o resultado, de imediato, impressiona. Com introdução digna de um faroeste, “Mister Niterói” une western spaghetti, dub e hip hop numa mistura instigante. “Caminhos do Destino” é levada no tempo do ragga, reflexo de influências que vem de Sizzla e Ini Kamoze – apesar de, nesta faixa, citar Chico Buarque, Van Gogh, Francisco França (nome de Chico Science) e Robert De Niro. As rimas de Black Alien são de um tato raro: ‘a justiça do Brasil perdeu o ônibus’ em “Babylon By Gus”, ‘eu te amo além da matéria’ em “Como Eu Te Quero” ou ‘sexy, delícia, solicitou ao perito a perícia’ em “Perícia na Delícia” são alguns dos muitos exemplos. O rapper ainda não lançou o aguardadíssimo sucessor desse discaço. Qual é Black Alien, estamos ansiosos, pô!

Faixa: “Umaextrapunkprumextrafunk”

22. Vagarosa

Céu

Ano: 2009
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: MPB

Dá vontade de espreguiçar: uaaaaahhhh! Tão bom fazer isso, não é? Por mais que os scratches de DJ Marco deem cutucadas necessárias no segundo disco de Maria do Céu, escutar Vagarosa é uma experiência contemplativa por suas camadas sonoras complexas – coisas da produção dos mestres Beto Villares e Gustavo Lenza. “Cangote” é tão misteriosa quanto nossos sentidos no momento em que estamos próximos daquela pessoa que temos tesão. As cantoras Thalma de Freitas e Anelis Assumpção entram no rocksteady de “Bubuia”, uma das mais bonitas do disco. “Grains de Beaute”, que se tornou indispensável em suas apresentações, mostra o como a artista se encontrou rapidamente. Junto com o Los Sebozos Postizos, Céu bagunçou nosso imaginário com uma versão dub de “Rosa, Menina Rosa”, de Jorge Ben. E que bela bagunça, viu!

Faixa: “Bubuia” (com Anelis e Thalma de Freitas)

21. Ventura

Los Hermanos

Ano: 2003
Gravadora: BMG
Gênero: Rock

Nem tudo que se diz sobre os Los Hermanos vem com senso de justiça. Por isso, vamos ater a um questionamento importante: como uma banda pré-fabricada pelo pop-rock com uma letra horripilantemente pegajosa conseguiu se reinventar a ponto de mudar o cenário da música brasileira? Foi tudo uma transição. O primeiro disco os colocaram em cena, Bloco do Eu Sozinho causou a entropia nos velhos fãs e agregou novos e Ventura foi a consolidação da capacidade dos hermanos de recriar o rock nacional. Já começa pelo canto aproximado de Marcelo Camelo, que toca no âmago. Lógico que, suas composições nada óbvias são parte do caldo, com letras que vão da estética artística de “Samba a Dois” à crônica de um rapaz comum em “Cara Estranho”, que se tornou hit pelo tempero das guitarras. Ventura também foi o disco que trouxe dois talentos de peso para nossa música: o próprio Camelo, claro, e Rodrigo Amarante, que tornou-se um membro mais ativo na frente dos palcos com composições complexas e ardorosas, como as belas “Último Romance”, “Do Sétimo Andar” e “O Velho e o Moço”.

Faixa: “Cara Estranho”