Gravadora: Atlantic
Data de Lançamento: 6 de abril de 2018

Disco da Semana: Cardi B, Invasion of Privacy

Muitos conheceram Cardi B por conta de seu hit avassalador “Bodak Yellow”, que colocou uma rapper no topo das paradas Billboard após uma ausência de 19 anos (a última havia sido Lauryn Hill).

Antes disso, porém, ela não apenas já tinha assinatura com uma gravadora gigante (Atlantic), com duas mixtapes lançadas; Cardi também acumulava entre 6 e 7 milhões de seguidores no Instagram, por sua personalidade divertida ao mostrar perrengues de strippers (afinal, ela é ex-stripper) e, principalmente, pela participação no reality show Love & Hip-Hop, em 2016.

De qualquer forma, não dá pra dizer que era previsível que uma canção que brincava com as características de um rapper do circuito mainstream – mas não assim tão foda fora do circuito norte-americano (no caso, Kodak Black) – se tornaria o guia de renovação do rap, um som tão explosivo que colocaria, em pouco tempo, Cardi B em um pedestal próximo à já experiente Nicki Minaj.

Tecnicamente, Cardi B não chega ao páreo da cantora de “Starship”. Porque, bem, seu disco de estreia e, suponho logo, sua própria construção de carreira não tem lá a pretensão de competir com Nicki. (O single “MotorSport”, de Migos, tratou de reunir as duas cantoras exatamente para dissipar esse clima de competição que se especulou.)

Invasion of Privacy: rap em predominância

Logo na primeira música de Invasion of Privacy, “Get Up 10”, ela relembra as histórias de quando era stripper e tinha que acordar cedo e passar por vários perrengues, criando um tipo de enredo edificante que começa com uma produção seca e ganha contornos épicos, como se ela fosse do lixo ao luxo em pouco menos de 4 minutos.

Em “Drip”, segunda faixa do disco, ela já assimila o sucesso de uma rapper bem-sucedida. E faz questionamentos, do tipo: quem o público pensa que ela é para julgá-la, por exemplo, por ter recebido uma joia cara de seu namorado Offset, do Migos – grupo que, por sinal, participa da canção?

As colaborações, inclusive, são um appeal à parte de Invasion of Privacy. O também novato talentoso Chance The Rapper traz um pouco de serenidade para o disco em “Best Life”, embora isso ponha o tom reclamão de Cardi B em outra perspectiva, apenas.

Somente ao lado da cantora Kehlani, em “Ring”, vislumbramos uma Cardi B mais puxada para o R&B, falando em um tom mais cadente de sentimentos: ‘O que é uma boa garota? Veja eu me tornando uma diva‘, destila.

Ao lado de SZA, em “I Do”, ela segue uma linha mais criativa do subgênero. Os efeitos eletrônicos do interlúdio incomodam, mas uma segunda, terceira audição mostram que elas potencializaram uma característica difícil das cantoras de R&B e hip hop: tornar as canções provocativas, a ponto de pedirem mais audições. Logo, o que parecia esquisito se torna viciante.

Efeito Cardi B

Uma coisa é certa: Invasion of Privacy veio para sedimentar de uma vez por todas o lugar de Cardi B na ponta de lança do rap. Por isso, comparações com Nicki, SZA, Lauryn não cabem muito bem a essa moça nascida e criada no Bronx.

Em tempos em que se rasgam os manuais de como se tornar um bom influenciador, Cardi B usou a dura experiência de vida que teve de forma divertida e identificável.

Isso não só tornou seus raps mais interessantes. Dessa forma, ela também se inseriu nesse boom de novidades estéticas no gênero, estabelecendo um link entre as histórias de superação e as produções criativas de caras como J. White Did It, DJ Mustard, Boi-1da e uma penca de outros.

Nessa onda crescente de popularidade, surgiu o que ficou conhecido como “efeito Cardi B”, que significa (via NPR):

Um poder de marca enraizado numa autenticidade específica, criada e permeada pela rapper Cardi B. Comportamentos associados ao Efeito Cardi B incluem honestidade contundente, rap, riso, twerk de leve a moderado, línguas enroladas, beijo de dentes, topo das paradas e gírias esquisitas de garotas do Bronx“.

Leia também: Crítica de Culture II (2018), do trio de rappers Migos

Outros lançamentos relevantes:

Cordel do Fogo Encantado: Viagem ao Coração do Sol (Independente)
Dr. Octagon: Moosebumps: An Exploration Into Modern Day Horripilation
Jean Grae & Quelle Chris: Everything’s Fine
Goat Girl: Goat Girl (Rough Trade)