Gravadora: Boogie Naipe
Data de Lançamento: 25 de novembro de 2014
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Desde Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002) obviamente as coisas iriam mudar. Para os Racionais MCs, no entanto, pouca coisa mudou. Cores & Valores não sintetiza mudança no direcionamento sonoro; as batidas pesadas, influenciadas pelo trap e pela produção saturada que também se percebe em discos como Yeezus (2013) e Flockaveli (2010), situam o grupo em um novo contexto do hip hop enquanto tendência mundial. Acima de tudo, o álbum é contemporâneo.
Portanto, a mudança é reflexo do tempo, mesmo quando se observa as fugas das rotas que o grupo tomara desde que surgiu, há 25 anos atrás.
A duração do álbum é uma delas: com pouco mais de 30 minutos, Cores & Valores têm poucas faixas que excedem 4 minutos. É adornado por vinhetas e revela, em contrapartida, uma urgência que ninguém esperaria – afinal, são 12 anos de longa espera.
Ainda assim, nada mudou, principalmente no que diz respeito à postura do grupo. As letras são beligerantes e o discurso é inflamado: do fluxo de um rolê na quebrada às lembranças de infância, os Racionais continuam marrentos e rígidos, evocando a linguagem das ruas com discrepância de moleque ligeiro e inteligência que vem das ruas. Ora, ninguém rima como os Racionais, o que justifica sua posição intacta como protagonista de toda a cena do rap nacional.
Se se esperava mudança nas composições do grupo paulista, Cores & Valores soa decepcionante. Os Racionais combatem o sistema de frente, pela força bruta, a partir da condição de quem viveu no submundo das periferias. As armas utilizadas não são as palavras; são letais como um assalto ao banco e desafiadoras como a improvável situação em que um negro tem poder de compra.
Nesse sentido, Cores & Valores traça melhor diálogo com o que de fato acontece na periferia. Os Racionais evocam desejos reprimidos, por conta da opressão do sistema. Isso faz sentido, principalmente quando se tem em conta que todo o raio X do que acontece nas favelas já fora traçado anteriormente – com a mesma crueza de cada batida que compõe este álbum.
Com o passar dos anos, o rap foi penetrando novas esferas de público. Os Racionais foram importantes nesse processo, mas estão cientes que, se um dia a periferia tinha como trilha sonora “Homem na Estrada” e “O Trem”, hoje a realidade é totalmente diferente. Funk ostentação e forró rala-bucho são predominantes nos botecos sujos e alto-falantes automotivos das quebradas. Criolo, Projota e Emicida não formam a sonoridade do gueto, como imaginaria um teórico que analisasse o rap nacional de vinte anos pra cá. O rap atingiu outros nichos e, nesse processo, foi se distanciando das periferias.
Um rápido exame desse novo cenário sugere que temas de conscientização social são bem menos interessantes hoje em dia no outrora considerado habitat natural do rap. O poder de compra das classes mais baixas é mais favorável nos dias de hoje, assim, os jovens se sentem mais representados por quem compartilha os mesmos desejos de ascensão, que por discursos revoltosos.
Quando se fala em música diante desse novo cenário, a curtição é mais desejável que a reflexão. É assim que se vira o pobre de ontem/consumidor de hoje: sabendo que tem poder aquisitivo, usa o dinheiro para adquirir aquilo que os mais abastados regozijam desde sempre (roupas e tênis de marca). O preconceito ainda é latente, como sintetiza Ice Blue em “Eu Compro”: ‘Os nego quer algo mais que um barraco pra dormir/Os nego quer não só viver de aparência/Quer ter roupa, quer ter joia e se instruir/Quer ter euro, quer ter dólar e usufruir’.
Há 20 anos seria inconcebível imaginar que os Racionais estivessem conectados a algum padrão de consumo. O sucesso de Sobrevivendo No Inferno (1997) os colocaram diante desse paradigma, respondido à altura com Nada Como Um Dia… Cores & Valores está imbuído de outras características que o grupo assimilou durante estes últimos anos, incluindo melhor lapidação musical, experiência de palco e, claro, maturidade. Então, surge a verdadeira contravenção: diante de avalanches de acontecimentos e discussões, como os Racionais não incorporaram tais acontecimentos à sua música?
A grande verdade é que Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, por mais que não admitam, estão cada vez mais encurralados na proposta que acompanha os Racionais desde o início. Como é de se esperar do ser humano, cada um dos integrantes têm diferentes perspectivas sociais, musicais e filosóficas – por isso a importância do projeto solo de cada um.
Isso não quer dizer que Cores & Valores tenha sido um erro. Muito longe disso; como protagonista de uma importante cena musical, o grupo tem que lutar de frente contra os impasses que se levantam dentro do gênero como um todo. Tais perguntas são plausíveis: será que o rap deve obrigatoriamente simbolizar a luta de classes? O rap indiscutivelmente tem que problematizar a situação de um país? É possível versar com a mesma agressividade num longo período de tempo sobre problemas aparentemente insolúveis – como a distribuição de renda, por exemplo? A que ponto a situação financeira de um grupo musical interfere na veracidade de seu discurso?
Cores & Valores gera tais indagações porque o nome Racionais carrega um peso indelével na cultura musical. Não importa se menciona marcas gringas com a velocidade de um carro esportivo, se não esconde o desejo de ter muita grana bolso e ir pra night gastar ou se permite entregar à nostalgia de tempos passados. A relevância dos Racionais só faz aumentar e, neste sentido, Cores & Valores, mais que uma obra musical, é lembrete de que as discussões sobre rap, periferia, consumo e consciência social são mais complexas que qualquer especulação que se faça sobre qualidade ou decadência deste ou de qualquer outro disco. Os Racionais continuam intrigantes. Eis um axioma a perdurar.
