De Cuba à Macedônia tem chão, muito chão. E, claro, muita versatilidade, uma das premissas da coluna Groovin’ Jazz em pouco mais de dois anos de existência.
Brasil, claro, tá no meio desse balaio todo, representado pelo som lúdico-experimental do Dentaduro, com uma estrutura sonora rara em nossas terras: vibrafone, baixo e bateria. O resultado está em 5218, que descrevemos abaixo.
O saxofonista David Murray continua excelente como sempre em disco que marca parceria com Saul Williams, em homenagem ao poeta Amiri Baraka.
O também experiente Joachim Kühn soou mais melancólico no disco com seu novo trio, enquanto Sameer Gupta foi ainda mais a fundo em suas raízes da música indiana.
As cantoras Charlotte Illinger e Sarah Buechi trouxeram novas perspectivas ao avant-garde. Mas, quem gosta de música criativa junto a histórias emocionantes, bom, precisa ouvir Rousilvo, de Dina Doneff.
Confira os 10 destaques de jazz de fevereiro. No final do post, tem a playlist Groovin’ Jazz 2018 atualizada:

The Little Dream
Alfredo Rodriguez
Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 23 de fevereiro de 2018
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O pianista cubano Alfredo Rodriguez mora nos Estados Unidos desde 2009. Por mais que respire a música de seu país, a mudança permitiu que ele tivesse outra perspectiva do cuban-jazz. Parte dessa perspectiva pode ser apreciada em seu novo disco, The Little Dream, uma bela epopeia em que glissandos e solos dividem os holofotes com baixos funkeados e irresistível ar folk. Alfredo conta com a coprodução do experiente Quincy Jones e um time de instrumentistas que gostam de um bom balanço: Munir Hossn na guitarra e no baixo elétrico e Michael Olivera na bateria e nas percussões (Alfredo toca piano, Rhodes e brinca com vocais).
A limpidez sonora do disco lembra os trabalhos de Antonio Adolfo. Assim como o brasileiro, Alfredo sabe como fazer com que o virtuosismo funcione como uma espécie de porta-voz do naturalismo. Suas notas são paisagísticas e evocam o pacifismo com notável beleza. Na faixa-título, imaginamos a evocação da pureza: ao compô-la, Alfredo se inspirou nas crianças de hoje, que têm tudo para construir um futuro melhor. Com poucas notas, ele faz de “Dance Like a Child” um oportuno momento para se aproveitar a dois, enquanto “Bésame Mucho” tem o appeal da bossa nova. Quando opta por desacelerar, Alfredo sabe como encaixar as notas nos lugares certos, vide a bonita balada “World of Colors”. É praxe associar o jazz cubano a um tipo de swing envolvente, mesclando-se às raízes populares da música caribenha. Em seu 4º disco, Alfredo prova que as interconexões dão ainda mais riqueza à estética musical de seu país de origem.

But Beautiful
Charlotte Illinger
Gravadora: Double Moon
Data de Lançamento: 9 de fevereiro de 2018
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A jovem cantora Charlotte Illinger é alemã e está terminando um curso master de improvisação. Talvez estejamos diante de uma cantora que tem muito a evoluir. Mas, vale a pena se encantar com o que há no ínterim – no caso, o álbum But Beautiful, com referências mais tradicionais do canto jazzístico, tipo Cécile McLórin Salvant ou a primeira fase de Esperanza Spalding. A faixa-título, por exemplo, foi eternizada na voz de Billie Holiday, mas ganhou uma tonalidade mais azulada, com toda a limpidez das produções modernas. “You Got to My Head” talvez esteja mais próxima de mostrar a unicidade da cantora. O apoio do piano de Jerry Lu favorece a entrada de scats, algo que ela até poderia ter trabalhado com mais originalidade na canção – o que implicaria correr um risco que comprometeria a beleza do tema.
O jazz é o gênero que melhor permite transfigurar clássicos, ao mesmo tempo em que permite dar-lhes novas perspectivas. But Beautiful segue mais o segundo caminho, porque Charlotte tem a preocupação de implicar sua voz, fazer com que ela seja captada. Em “Old Devil Moon”, ela faz questão de preservar o ar cool-jazz da época em que Miles Davis refez o tema de Burton Lane, mas com maior leveza, um ar de inocência até. Três músicas do disco são do repertório de Charlotte: “The Way of Time”, que abre o disco com proposta rítmica meio angular; a balada “At Night”, com aquela vontade de ter vivido os anos 1950; e a melhor de todas, “Furniture”, com louvável acompanhamento do saxofonista Paul Heller.

Blues for Memo
David Murray & Saul Williams
Gravadora: Motema
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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Ao lado de Steve Coleman, David Murray talvez seja o maior saxofonista de nossos tempos e, assim como tem acontecido com frequência no jazz, ele também se deu ao luxo de cruzar seu estilo sonoro com gêneros mais populares, como hip hop e soul-music. Injete mais um tanto da poesia de Amiri Baraka, e você terá como resultado o ótimo Blues for Memo. Foi no funeral de Baraka, em 2014, que Murray se impressionou com o também poeta Saul Williams recitando seu trabalho. “As palavras dele eram violentas, e Baraka usava termos violentos também”, explicou Murray. Certamente há algo de Gil Scott-Heron e Last Poets na forma com que Williams entoa versos, e isso já é evidente de cara, em “Kush”, introduzido por um cool-jazz, e o intenso bop de “A Mirror of Youth”.
Há outra homenagem no disco: ao empresário turco Mehmet Uluğ, conhecido como Memo. Para se ter uma ideia de sua importância, foi graças a ele que a Turquia conheceu o avant-garde de caras como Pharoah Sanders, Sun Ra, além do próprio Murray. Em busca de nova expressividade, Murray prefere impressionar com entradas impactantes, em vez de desenvolver longos solos criativos (algo que faz com maestria desde os anos 1980). As influências ultrapassam o terreno anglo-saxão: na faixa-título, o lamento blueseiro ganha contornos da música popular turca, enquanto “Music of Mind” mostra o poder de Murray de criar lindas baladas. Para Blues for Memo, um álbum de celebrações, Murray conta com time de peso de instrumentistas, incluindo o talentoso pianista Orrin Evans, o baterista Nasheet Waits e o badalado pianista Jason Moran, que toca Rhodes em “Positive Messages”.

5218
Dentaduro
Gravadora: Fábrica de Sonhos
Data de Lançamento: 27 de fevereiro de 2018
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Poucos instrumentos têm o poder de evocar o lúdico com uma nota só como o vibrafone, por isso faz sentido que o Dentaduro, trio pouco usual na seara brasileira de vibrafone (de Victor Vieira-Branco), baixo (Bernardo Pacheco) e bateria (Pedro Silva), esteja sob o guarda-chuva de um selo chamado Fábrica de Sonhos. Mais improvável ainda é entender como um disco como 5218 estaria associado ao avant-garde, mas vá lá: o grupo se preocupa num esquema que considero ‘repetições de não-repetições’.
Funciona da seguinte forma: Bernardo mantém a consistência dos riffs, que Victor faz questão de multidimensionar com os efeitos de seu instrumento (vide, principalmente, “Amiga”). A despreocupação rítmica faz com que o disco seja herdeiro direto de experimentadores como Cornelius Cardew ou mesmo John Cage. Portanto, os aspectos técnicos carecem de atenção, mesmo que provoquem sentimentos como ânsia (“Déspota Esclarecido”) ou pavor (“Sus(surro)”). “Dez Dálmatas” até poderia ser encaixada em uma trilha de animação P&B de poucos traços, principalmente se o enredo estiver associado a descobertas improváveis.

Rousilvo
Dine Doneff
Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018
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O pano de fundo parece enredo do filme 300. Durante a Guerra Civil na Grécia (1946-9), muitos homens foram recrutados para defender o antigo território da Macedônia, no que ficou conhecido como um processo de ‘helenização à força’ pelo povo grego. Rousilvo é o nome eslavo para a Xantogeia, que fica na região nordeste da Grécia, e dá pra se ter uma ideia da quantidade de mulheres que ficaram sozinhas, se virando em uma inevitável recessão. A solidão, a maturidade e a responsabilidade de seguir em frente com os filhos inspirou a sonoridade melancólica do álbum, que, além de trazer vocais e lamentos de mulheres que vivenciaram tudo isso, também reúne um septeto vocal que ajuda a contextualizar as muitas histórias de superação.
Além de protagonizar os cantos dramáticos numa tonalidade percussiva, Dine Doneff (que, na verdade, é seu nome macedônio; como cidadã grega, ela se chama Kostas Theodorou) assume baixo, guitarra e tabla em temas que trazem a essência do jazz oriental – vide “Mirka” – e a densidade de uma atmosfera vazia, preenchida por uma solidão materializada pelos lamentos no piano de Takis Farazis e as lúgubres entradas dos metais em “Requiem” – especialmente o trompete de Pantelis Stoikos e o sax-alto de Dimos Dimitriadis. O início do disco, com “Narratives”, dá a entender que se trata de uma obra puramente vocal – quando, na verdade, as vozes servem justamente para contextualizar o poder de emoção de um jazz que absorve estéticas dos quatro cantos. Tem que ouvir para entender o termo que a ECM usou para descrevê-lo: ópera-folk-jazz-balcânico.

Eleven
Igor Lumpert & Innertextures
Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: de fevereiro de 2018
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O sax-tenorista Igor Lumpert fez do seu antigo trio Innertextures um quarteto, agora com Greg Ward (sax-alto), Chris Tordini (baixo) e Kenny Grohowski (bateria). Neste que já é o terceiro disco do esloveno, há grandes ecos do free-jazz querendo ser hard-bop – ou mais ou menos o resultado de um disco de Henry Threadgill inspirado pelos Jazz Messengers. Entretanto, deve-se prestar atenção no aspecto técnico: a soltura das cordas e dos metais operam em sentidos inversos, fazendo com que os temas evitem uma conjuntura e se abram.
As ramificações parecem ideias jogadas no ar que precisam da participação do ouvinte para captá-las. Na faixa-título, por exemplo, até mesmo a bateria de Grohowski entra nessa dinâmica de arremessar insights sonoros (o tema tem participação do trompetista Jonathan Finlayson). “Poseidon”, também com colaboração de Finlayson, alia as referências do folk escandinavo a um groove que parece semelhante ao latin-jazz, mas se revela mais rígido, em alguns momentos quase chegando a ser estático. “13th of August” adequa a parte estrutural mencionada a um blues silencioso, enquanto “Paha” prova que o quarteto sabe como trabalhar de forma integralista. Aqui, os solos de Lumpert atravessam os de Ward com a destreza de um avant-garde cheio de fluidez. Eis a prova da exuberância técnica de um quarteto que deve ser mais longevo.

Love & Peace
Joachim Kühn New Trio
Gravadora: ACT Music
Data de Lançamento: 28 de janeiro de 2018
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O segundo disco do ‘novo trio’ de Joachim Kühn, experiente pianista alemão de 73 anos considerado um dos melhores de seu instrumento, segue em direção de novos encontros. Mais próximo dos encontros entre jazz e música clássica que uma exploração do avant-garde, algo predominante em sua carreira, Love & Peace mostra um trio ainda mais alinhado. O baixista Chris Jennings e o baterista Eric Shaeffer, cada um deles pelo menos 30 anos mais novo que Joachim, soam ritmicamente mais independentes que o antecessor – o também ótimo Beauty & Truth (2016).
Mais uma vez o trio escolhe um tema do The Doors: permeado por sutileza, “The Crystal Ship” revela uma beleza diferente da canção do primeiro disco da banda de Jim Morrison. Outro músico celebrado é Ornette Coleman. Aqui, o bandleader optou por um tema em que colaborou para que Ornette o apresentasse nos palcos – trata-se de “Night Plans”, do álbum ao vivo Colors (1997), tocado em Leipzig, com Joachim no piano. Neste disco, ela soa ainda mais reflexiva, evidenciando a característica modular de sua técnica, onde harmonia e sobreposição se confundem com arcos sonoros. É um disco bem concentrado, seja na fluidez da técnica individualista de Joachim em “Mustang” ou no exercício sublime de entrecortar ritmos em “But Strokes of Folk”. Shaeffer é o autor da melancólica “Lied Ohne Worte No 2”, enquanto a seguinte, “Casbah Radio”, de Jennings, é mais um resultado bem-sucedido de encontros e desencontros rítmicos.

Vista
Julian Siegel Quartet
Gravadora: Whirlwind
Data de Lançamento: 2 de fevereiro de 2018
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Já são 9 anos de trabalho em conjunto com o quarteto formado pelo pianista Liam Noble, baixista Oli Hayhurst e o baterista Gene Calderazzo. Desde seu último disco, Urban Theme Park (2011), Julian Siegel, tão bom no sax-soprano quanto no sax-tenor e no clarinete-baixo, tem colaborado com outros grupos. Isso permitiu que ele criasse uma forma mais bem contornada em Vista, em que desenvolve um hard-bop fluido e, ao mesmo tempo, meditativo. O álbum inicia propondo uma abertura sonora em “The Opener”, que de cara evidencia sua técnica apurada no sax-tenor. Em “Pastorale”, ele brinca com o clarinete-baixo, que vai se desdobrando no piano de Liam e impondo novos passeios rítmicos à cozinha baixo-bateria. Mais serena, a faixa-título parece o vislumbre de uma imagem de plano aberto que mostra a beleza natural, em que as riquezas são percebidas aos poucos, nos detalhes.
Apesar do título, Vista não se trata bem de um disco contemplativo. Julian interfere nas paisagens com contornos próprios, portanto, a acepção mais pessoal do termo dá uma breve ideia do que ele explora em seu quarteto. No tema “Idea”, por exemplo, ele assume o clarinete-baixo num duo com Gene que joga borrões e perpassa com austeridade onde haveria uma folha em branco, uma paisagem sem interferência. Talvez seja em busca de explorar essa natureza que ele compôs uma música chamada “I Want to Go to Brazil”, esta sim de proposta contemplativa. Dá pra imaginar Julian inspirando-se nas projeções de mares, florestas e rios tão invejáveis de nossas terras. Se ele soubesse o quanto não cuidamos delas…

A Circle Has No Beginning
Sameer Gupta
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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O título já gera questionamento: como é possível que algo não tenha início? O percussionista Sameer Gupta diz que, na música, isso resulta em uma “energia cíclica focada” que envolve não apenas os músicos, mas também a audiência. Isso também se aplica à vida – e seu novo disco, A Circle Has No Beginning, já inicia com um exercício diverso: ‘Diga às crianças quem odiar/E a grande roda vai girando e girando’, na faixa “Little Wheel Spin and Spin”, trecho extraído do poeta indiano Buffy Saint-Marie e interpretado por Morley Kamen. Nos demais temas do disco, a energia circula de modo premente, de modo que é possível sentir as vibrações da cultura indiana e a originalidade na construção dos fraseados, herança africana que moldou o jazz desde o início. Gupta, que assume o kit de baterias e a tabla, é acompanhado por Marc Cary (wurlitzer, sintetizadores e FX), Jay Gandhi (flauta bansuri), Arun Ramamurthy (violino), Marika Hughes (violoncelo), Trina Basu (violino) e Rashaan Carter (baixo e FX).
Os arcos sonoros das cordas são acompanhados pela eletrificação de instrumentos como baixo e wurlitzer, resultando num tipo de world-music que assimila fusion, progressivo e free-funk. Em “Innocence in Harlem”, por exemplo, o grupo cria a jornada de um indivíduo comum, permeado por surpresas espalhadas em elementos que julgamos corriqueiros. O valor que eles dão ao que seria um simples aspecto musical ganha contornos de grandiosidade – algo que eles também exploram em “Tyagaraja Dreams in Brooklyn”, que inicia tensa como um thriller, mas se desenvolve na confluência de cordas, sopros e percussões, como se fossem parte de um uníssono. “Hoje em dia, perdemos essas conexões e a nossa própria história”, disse Gupta no encarte. “Mas, como mentes criativas, precisamos conhecer nossas bases e ajudar o círculo da evolução a retornar com uma perspectiva elevada e iluminada”. Missão cumprida.

Contradiction of Happiness
Sarah Buechi
Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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Pelo menos três distintas escolas jazzísticas estão no campo do saber da vocalista Sarah Buechi. Ela estudou avant-garde com Steve Coleman, aprendeu conceitos africanos com o professor ganês Bernard Woma e revelou profundas conexões com a música da Índia em seu segundo disco: Flying Letters (2014). Ah, e o fato de ser uma jazzista suíça invariavelmente indica uma 4ª influência forte em seu trabalho. Seu novo disco, Contradiction of Happiness, amarra todas essas frentes em um estilo mais sofisticado. Aqui, ela encontra inspirações mais serenas para sua voz, adornada por um intenso trabalho de cordas que confunde clássico e avant-garde ao propor reflexões, apreensões, tensões, enfim, uma gama de sentimentos. Em “Fahamore (Paradise)”, sonhos se perdem em cenários e cenas vagas, numa linda confluência entre o cello de Sara Oswald e o piano de Stefan Aeby.
As referências que saltitam de cara ao ouvir Sarah vêm de Esperanza Spalding e Jen Shyu, mas essas similaridades se destilam com a evolução dos arranjos e as reações inesperadas da cantora após longas pausas – momentos em que ela hipnotiza e traz o ouvinte para suas paisagens sonoras, como em “Child of Our Times”, ou detrata de forma sutil nossas propensões ao erro, na belíssima “Wheel of Temptation”, com passagens marcantes do violino de Estelle Beiner, sem esquecer as emocionantes modulações vocais de Sarah. Desde seu 3º disco, Shadow Garden (2015), Sarah tem sido associada à “música da mente e do espírito”. Em Contradiction of Happiness, ao versar sobre diferentes aspectos da psiqué humana, ela concluiu mais uma difícil jornada aventureira no que podemos chamar de metafísica da música.
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