Gravadora: Quality Control Music/Motown/Capitol
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018
Avaliação: 7/10
No começo dos anos 2000, o rap gringo passou a ser bastante aceito no Brasil principalmente por sua despretensão. 50Cent, por exemplo, não fez sucesso pela profundidade por trás do termo Get Rich or Die Tryin’ (2003) – da mesma forma que Snoop Dogg passou a ser bem mais palatável após deixar o gangsta rap de Compton de lado para um rap mais festeiro e divertido.
Mais de 15 anos depois, as coisas não mudaram muito. O rap passou por inúmeras mudanças estéticas, mas o mainstream passou a dar um novo foco ao trap, subgênero que elevou ainda mais a força de Atlanta (EUA) no gênero.
Daí surgiram Lil’ Wayne, Gucci Mane, Fetty Wap, até chegarem ao grupo mais influente desse importante microcosmo desde Outkast: o trio Migos, formado por Quavo, Offset e Takeoff.
Culture II: repetições
Drake foi um importante divulgador da cultura Migos, quando participou do remix de “Versace”, em 2013. Cinco anos depois, o rapper canadense surge de volta em uma das canções mais pegajosas de Culture II: a repetitiva “Walk It Talk It”.
Repetição, no caso, é um elemento usado com inteligência pelo Migos. Qualquer termo parece entrar fácil nessa onda de reverberação que favorece o trio. Parece ridículo, mas não demora pro ouvinte ficar repetindo ‘bad bitches only’ (‘apenas vadias malvadas’) na faixa de mesmo nome com participação de 21 Savage – neste caso, vale a pena mencionar o pano de fundo que lembra uma festa jazzística de algum filme antigo; a produção é de Kanye West, DJ Durel, Buddah Bless e de Quavo.
Quando a repetição não é usada ostensivamente, o trio faz questão de desacelerar o esquema vocal. Isso torna as canções de Culture II facilmente assobiáveis, não importa se eles estejam falando de mulheres bonitas, carros importados ou de frango xadrez – vide o o divertido clipe de “Stir Fry”, mais uma das viciantes.
Migos: habilidade e boa produção
Por isso mesmo, 24 canções não chega a ser um número tão volumoso de faixas. Ouvidos grudados tendem a levar à fácil conclusão de que as músicas se parecem umas com as outras.
A sutileza da diferenciação está na fluidez da produção de Culture II: da bateria ácida por trás de “Narcos”, o grupo passa por panos de fundos sombrios (“Emoji a Chain”), música havaiana (“Gang Gang”) até chegar ao jazz sensual da calorosa “Too Playa”, com participações de 2 Chainz e do saxofonista Lee Buddle.
Ao lado de DJ Durel, Quavo é o grande responsável por alastrar as referências por trás dos divertidos versos do Migos.
Os outros membros, porém, não ficam muito atrás no quesito evolução, principalmente no encaixe dos versos.
Offset dá vida à primeira faixa, “Higher We Go – Intro”, deixa “Crown the Kings” mais interessante com o verso ‘O céu é o limite, e sou um enviado do paraíso’, além de ser citado pela namorada Cardi B em “MotorSport”: ‘Eu deixo Offset ligadão’.
Já Takeoff, com sua voz mais grave, se destaca em “Beast” na parte final da música, estendendo cada frase que finaliza os versos. É a repetição em cena, só que a favor de uma canção que fala de experiências ruins de sair com uma garota.
Donos do rap mainstream
É irônico que um disco chamado Culture II seja focado em temas tão superficiais.
O Migos pode ser um dos trios mais instigantes do rap no momento, mas estão bem distantes da relevância de um Aesop Rock ou Kendrick Lamar.
Não por falta de Q.I.; eles sabem que o mainstream reage melhor ao rap divertido e descompromissado.
Sabem, também, que a qualidade precisa estar bem afiada nas entrelinhas, para trollar de vez aqueles que consideram que apenas a repetição justifica o fato de um álbum de 24 faixas chegar ao topo das paradas Billboard.
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