Gravadora: Todo Mundo/Nonesuch
Data de Lançamento: 9 de março de 2018

Disco da Semana: David Byrne, American Utopia

Pop demais para um ato avant-garde e estranho demais para o pop, David Byrne mantém a imagem de estranhão inteligente que sabe como captar os sons ao redor. Tal abrangência musical faz com que sua música escape de rótulos, mesmo quando termos como América e utopia, que ganham contornos irônicos após a eleição de Donald Trump, formam o título de um novo trabalho.

Ainda associado aos Talking Heads – inativo desde 1991 – o único take do álbum que realmente remete à importante banda dos anos 1980 é “Everybody’s Coming to My House”, por seu trabalho percussivo e por repetir a parceria com o produtor Brian Eno.

Quando lançou este single, Byrne prometeu uma performance tão impactante quanto Stop Making Sense (1984), um marco técnico de shows que capturou a ansiedade de tempos em que se falava de arrocho econômico. (Show que, inclusive, vai passar pelo Brasil no final de março. Ele disse que músicas dos Talking Heads estarão no setlist, com exceção de “Psycho Killer”.)

David Byrne e suas letras estranhas

De Byrne nem se espera algo com a nomenclatura ‘conceitual’, porque ele já é a personificação disso, unindo características que parecem inconcebíveis, como ‘caricatural’ e, ao mesmo tempo, ‘cerebral’. A faixa que abre o disco, “I Dance Like This”, reúne esses aspectos com misturas de um som industrial, pianos de música clássica e um certo revezamento entre pacífico e agressivo.

Isto é o melhor que posso fazer‘, diz Byrne na música, como se estivesse impedido a reagir de forma diferente das massas. ‘Dançamos todos assim/Porque soa tão bem‘.

David Byrne é um dos poucos compositores que pincela cores contrastantes para falar sobre assuntos tão cinzentos, como conformismo – tema que muitos já devem ter sacado já pelo título.

Para fazer isso, ele se põe em primeira pessoa e se traveste de um personagem que às vezes força a barra para ser simplório. São os enredos, porém, que dão pistas do que parece ser uma técnica enigmática. Em “Every Day is a Miracle”, parece que estamos diante de um fiel religioso, até que o compositor fala de ‘pau de um jumento‘ e um ‘frango que raciocina de maneira misteriosa‘.

A apropriação de animais domésticos como simbologia também faz parte de “Dog’s Mind”, onde ele assume o papel de narrador numa realidade que parece verossímil – com uma descrição velada da era Trump nos EUA – até que ele foca nos sonhos de um animal estático, que talvez não saiba bem o que fazer, como se estivesse naturalmente imobilizado. Não sei se qualquer semelhança com a realidade seria bem uma coincidência neste caso.

American Utopia: nada a ver com política

De qualquer forma, Byrne afirmou à Billboard que não mirou as eleições norte-americanas. “Muitas das letras foram escritas há dois anos – foi o período em que comecei a gravar – então não posso dizer que elas refletem as eleições recentes”.

A única exceção é a música “Gasoline and Dirty Sheets”, que clama abertamente pela inclusão dos refugiados num rock que divide com batidas eletrônicas sua pulsão, com um refrão com fragmentos de guitarras funk.

Vem da eletrônica, também, a gênese do segundo single divulgado de American Utopia, “This is That”, com colaboração dos pianos fugidios de Oneohtrix Point Never.

Explorando uma já esperada versatilidade sonora, David Byrne faz uma conexão da era pré e pós-Trump ao focar em comportamentos que parecem estranhos, mas ajudam a montar o quebra-cabeças de um momento politicamente confuso em todos os cantos do mundo.

Da espera pelos amigos ao decifrar de ações animais, os detalhes ao nosso redor podem ser a fuga ou a resposta às muitas perguntas que não saem de nossas cacholas.

Outros lançamentos relevantes:

August Greene: August Greene (Independente)
Almir Sater & Renato Teixeira: AR (Universal)
Huey: Ma (Sinewave)
Hieroglyphic Being: The Red Notes (Soul Jazz)
Brad Mehldau: After Bach (Nonesuch)