Gravadora: Parlophone
Data de Lançamento: 28 de abril de 2017
Avaliação: 7,5/10

Não é raro encontrar artigos que endossam o poder das playlists dos sites de streaming. Elas podem ser feitas por qualquer um, compilar diversos gêneros e ser compartilhadas a rodo – tanto que tem artistas que elevam sua popularidade por meio delas, como aconteceu recentemente com Starley Hope, conforme reportou a Wired.

Faixas organizadas dessa forma passaram a ser tão preponderantes que até mesmo Drake, um artista de alta popularidade, disse ter lançado um disco no formato playlist: é o caso do recém-lançado More Life.

O que Gorillaz tem a ver com playlists

Digo isso porque ouvir o disco novo do Gorillaz é como reproduzir uma playlist. É uma canção em potencial atrás da outra: “Ascension” se beneficia do repente de Vince Staples usando e abusando da trap-music. “Strobelite” é funk anos 1970 encontrando-se com house na voz de Peven Everett (que, espero, aumente bastante a popularidade depois da participação no disco).

Segue o reverenciado Popcaan em “Saturnz Barz”, dando mais uma prova de que é o exemplo mais vigoroso do dancehall a nível mundial. E “Momentz” é mais um encontro bem-sucedido do Gorillaz com o De La Soul (com potencial pop semelhante a “Feel Good Inc”).

Mas, justiça seja feita a favor do Gorillaz: muito antes das playlists lotarem o armazenamento de smartphones, o grupo já tinha essa proposta.

O primeiro disco homônimo, de 2001, alimentou o mistério daqueles cartoons com uma sucessão de músicas diferentes entre si.

Mais de 7 anos depois de Plastic Beach (2010), a mensagem oculta de Humanz é: assim que faz discos nos dias de hoje. Porque trata-se de um disco de hits, e isso é bom e ruim ao mesmo.

Bom porque, ora bolas, agrada os ouvintes com músicas de qualidade, todas elas com participações de artistas de alto calibre – da parceria entre R&B e rap de Kelela e Danny Brown, em “Submission”, ao soul misturado com acid-house de “The Apprentice” (com Rag’n Bone Man, Zebra Katz e RAY BLK), o Gorillaz afiou sua versatilidade e ajustou-a conforme os múltiplos atos que soam como possíveis ramificações de sua obra.

Ruim porque, se esse for o modelo a seguir, a criatividade dos artistas tende a minar. Não no caso do Gorillaz, um grupo no Brasil talvez mais querido que o Blur, primeira banda do líder Damon Albarn.

Humanz não tem nada a ver com os hábitos de pessoas que consomem música pela internet, mas certamente se beneficiou disso.

Pense bem se, em pleno 2017, um trabalho como Demon Days (2005) fosse lançado. Por mais que tivesse o peso do nome Gorillaz, não se adaptaria ao que os ouvintes querem escutar, uma vez que o salto de gênero para gênero (do glitch ao rap) tinha uma conotação mais experimental do que palatável.

Sem Demon Days, o Gorillaz jamais chegaria a Humanz – só que naquele momento mal se falava de fundir e convergir gêneros, prática mais associada aos tempos em que boas playlists têm mais a ver com estado de humor do que focar na carreira ou em um subgênero.

Disco ou curadoria?

Há uma soma de elementos favoráveis a Humanz, e elas vão além das músicas, embora o disco dê uma caída nas 4 últimas canções (algo que nem é tão digno de nota, visto que se trata de uma obra de 26 músicas na versão deluxe!). Muitos jornalistas e marqueteiros têm se fascinado com o poder que uma playlist tem de fortalecer um artista, mas sejamos sinceros: é apenas uma forma diferente de fazer curadoria.

Nos discos anteriores, o Gorillaz não estava muito em busca disso; o ideal era virar a chavinha mental dos ouvintes com novas abordagens estéticas.

Humanz tem, sim, um senso de ‘escolha a dedo’. O grande casting de artistas aqui, que incluem Grace Jones e Mavis Staples em meio a uma enxurrada de novos artistas, impressiona como se o Gorillaz tivesse mandando uma carteirada no ouvinte: ‘olha como nosso som faz um tráfego distante de gêneros’. E eles têm peito pra isso, afinal, entregam uma bomba atrás da outra! Mas existe a preocupação de deixar o ouvinte antenado para o decorrer das faixas, em detrimento dos testes fora da cachola – deve ser essa a linha de raciocínio dos pouquíssimos e invejáveis profissionais que ganham pra criar playlists.