Quando o Fita Bruta anunciou em fevereiro que Guilherme Arantes estaria de volta com disco novo e uma trupe danada, logo imaginei que o produto seria mais uma fonografia nostálgica do que algo representativo.
Bom, logo na primeira faixa de Condição Humana, lançado pelo seu próprio selo Coaxo do Sapo, vemos que Guilherme Arantes não pretende fugir daquilo que foi e sempre é: um cantor que remete a momentos reflexivos, coisa que faz com maestria desde os anos 1980.
Ele fala de sua visão de mundo, da fragilidade e ilusão de uma realidade que ainda não é interferida “pelo caos, vida inteligente (…) mil revelações para preencher o nosso vazio” – como canta na faixa-título.
“Eu precisava vomitar um disco que viesse sanguinolento, com ‘guts’, com ‘culhões’ de quem tem o que dizer e está pouco se lixando se o mundo vai aceitar ou não”, confessou o músico no reformulado site oficial.
“As letras deste disco, deste ano, não podiam excluir essa sensação de náusea. Náusea com a corrupção mundial, os ratos dos governos invariavelmente por trás de toda a perversidade e sacanagem do mundo. Náusea com o mercadejar da fé, nesse tempo de tantos apelos ao plano ‘sobrenatural’, tão ridículo e podre quanto os poderes terrenos. Náusea porque o ‘politicamente correto’ inclui um ‘respeito’ à mentira e à empulhação. Indignação porque todo dia o noticiário traz novas desilusões, o dinheiro correndo solto na impunidade geral. Náusea porque o mundo caminha claramente para o colapso, porque as corporações não estão nem aí e vão até o fim, até a curva populacional explodir, já que nem curva é mais, e sim um elevador vertical rumo a um formigueiro boçal onde a ignorância e a grosseria são parte da ‘atitude’. O importante é ter ‘atitude’. O importante não é o que somos, mas o que está na rede. O que não está na Rede, não está no mundo”.
Resultado de um período que me pareceu traumático de ‘pressão de disco de inéditas’, Condição Humana é o 22º álbum do compositor paulista.
Na banda, além do próprio Arantes: Luiz Sergio Carlini (guitarras, violões), Willy Verdaguer (baixo), Alexandre Blanc (guitarras e violões) e Gabriel “Frejat” Martini (baterias, percussões).
A seguir, ouça Condição Humana na íntegra. Já surpreende na primeira audição:
