Gravadora: The Leaf
Data de Lançamento: 29 de abril de 2016

Por mais que o som tenha o peso de mamutes, os caras do Melt Yourself Down precisavam fazer uso da voz para cantar o apocalipse das cidades, a loucura que tomou os homens e as aparições indesejáveis de falsos profetas mais próximos da gente do que imaginávamos.

O primeiro disco do ensemble de punk-funk-jazz, homônimo, era composto de uma “série de visões noturnas ferventes extraídas do deserto sub-Saariano”, como bem explica o texto de divulgação.

O frontman Kushal Gaya e sua turma de expurgados sonoros visitaram a cidade, proclamando-se ‘executores’ em canções como ”The God of You” e “Communication”. Entre os dialetos africanos, as interjeições tribais e o inglês com sotaque, a mensagem verbal é apenas um complemento do punk-jazz nervoso instituído pelo combo híbrido do grupo.

Rock e avant-garde entram na bagagem da musicalidade impactante do Melt Yourself Down. Em “Bharat Mata”, o jazz balinês, a música iraquiana e o free-jazz são caldos diferentes de um mesmo tempero que certamente vai apimentar os sentidos do ouvinte.

Melt Yourself Down: crítica do melhor disco de 2013

Por mais que quase todos os adjetivos que lembrem destruição sejam sonorizados em instrumentos percussivos, saxofones e sintetizadores, o fio da meada de Last Evening on Earth vem de um simples trecho do livro de mesmo nome do autor chileno Roberto Bolaño – no Brasil, conhecido como Chamadas Telefônicas.

Diz Bolaño: “Nunca vamos parar de ler, embora cada livro leve a um fim; da mesma forma que jamais vamos parar de viver, embora a morte seja certa”.

Diante disso, intensidade é a tônica provável deste álbum. Isso, por outro lado, enfatiza outra característica muito forte: uma pluralidade rara. Manifestações populares e multiculturais, gêneros em profusão, intersecção estética: o Melt Yourself Down deixa bem claro que é possível mostrar muita coisa em um disco, até mesmo uma música.

Os aprendizados com a imigração também são ejaculados no álbum. A crise europeia mostra o desafio que os países desenvolvidos ainda têm pra lidar com o que desconhecem, principalmente quando, nesse meandro, há a possibilidade de flertar com terrorismo e com o fanatismo religioso. “Nossa música é trans-internacional”, disse Gaya certa vez, e é possível absorver isso na arrebatadora “Body Parts” e na festança que já toma conta da primeira canção, “Dot to Dot”.

Por isso mesmo absorver Last Evening on Earth é tão chocante quanto ler pela primeira vez os capítulos do Livro do Apocalipse. A fé também envolve acreditar em coisas terríveis, mas não é bem esse o ensinamento do MYD. Se o fim está próximo, temos pelo menos que saber.

Talvez por isso a emergência recorrente do álbum: estamos cegos e não queremos nem ler, nem enxergar, nem ouvir.

Outros lançamentos relevantes:

Ellen Oléria: Afrofuturista (Independente)
Brian Eno: Ship (Opal/Warp)
Beyoncé: Lemonade (Columbia)
Batida/Konono No. 1: Konono No. 1 Meets Batida (Crammed Discs)

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