Gravadora: Odd Future Records
Data de Lançamento: 13 de abril de 2015

Lógico que Tyler the Creator faria um rap saturado. Enérgico nos palavrões, satírico em suas análises sociais e errático em suas alfinetadas, no quarto disco o rapper está afiado.

Cherry Bomb segue uma linha ainda mais fragmentária que Wolf (2013) em seus novos achados musicais, mas pelo menos não cai na infantilidade de achar que a força de um ‘foda-se’ vale mais que o conteúdo.

“Deathcamp” recorre às distorções de guitarra para iniciar o disco como um bombardeio. Não é uma arena estranha a Tyler; com o Odd Future, o cantor já obteve suporte inúmeras vezes da banda de hardcore Trash Talk. Essa experiência é válida, porque o levou à sábia decisão de ofuscar seus vocais com o que mais sujo há no rock. (Taí uma canção para poder chamar de sludge-rap.)

Pretensiosamente mais barulhento, Cherry Bomb é o álbum de melhor apuro das influências do rapper. E elas vão além da testosterona rítmica de sludge, trap e gangsta rap

“Buffalo” e “Find Your Wings” remontam a duas celebradas escolas do hip hop anos 1990: a primeira associa-se a 2Pac, enquanto a segunda tem alguns traços de Digable Planets.

É no trap-rap, porém, que a agressividade de Tyler encontra abrigo: “Pilot” e a faixa-título o mostram com baterias recarregadas para seguir adiante o ponto em que o Death Grips perdeu no meio do caminho. Tudo bem, a letra não é lá essas coisas (‘Negão, eu e você não somos os mesmos/Não temos paralelos‘), mas o certo é: não haveria alguém com currículo e personalidade melhor que Tyler para soar tão estrondoso. Que Yeezus, que nada.

Mesmo que pretensiosamente mais barulhento, Cherry Bomb é o álbum de melhor apuro das influências do rapper. E elas vão além da testosterona rítmica de sludge, trap e gangsta rap.

“2Seater” é o R&B que alguns achariam impensável tratando-se de Tyler. Não que ele queira dar um passo à lá Frank Ocean; insultos e palavrões permanecem, mas naquele tom ‘leve-me a sério, não tô falando merda’.

Falar, na verdade, é o que Tyler menos faz em Cherry Bomb. Se não fossem vistas como experimentos, takes como “Blowmyload” e “The Brownstains” bem que poderiam ser rascunhos de um artista que descobriu há pouco tempo que música, mais que expressão, é a arte de catalisar referências e criar de acordo com a sua visão de mundo.

Agora Tyler está percebendo isso.

ERRATA:
Cherry Bomb é o quarto disco de Tyler the Creator, e não o terceiro, como estava anteriormente.