Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy
[rating:5]

Hoje foi lançado oficialmente o álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy, do Kanye West. Como já previa o vídeo Runaway de 35 minutos, sonoridades variadas como o rock, soul, hip hop, blues e R&B se misturam de forma surpreendente, tão limpo como o arco-íris que enfeita o céu depois da chuva.

Mas, como todo céu úmido de regiões trópicas, a vida de Kanye West é uma tempestade. Ele é o tipo errado de cara errado. Já foi insultado (não sem motivos) por dois presidentes norte-americanos e divide opiniões graças ao seu temperamento meio truncado, o jeito imprevisível de ser, suas ideias vãs e abstratas. Tudo isso pode afetar a carreira de West como um todo, mas sua genialidade musical é irrefutável: após 4 álbuns de platina, 14 Grammys e muitas outras premiações, o rapper acaba de lançar o trabalho derradeiro, a ponta de lança que o coloca na frente de uma geração inteira de músicos.

Referências não podiam faltar, obviamente, e ele faz questão de deixar isso claro em “All of The Lights”: “Something wrong/I hold my head/MJ gone, our nigga dead” (“Algo errado/seguro minha cabeça/MJ se foi, nosso negro morreu”). O tributo à Michael Jackson é antecipado por uma marcha de trumpetes e uma bateria acelerada, como se tivesse fazendo uma releitura do funeral de Michael, honrando seu posto de rei da música.

Quando concebeu o vídeo Runaway, a intenção de West era lançar um trabalho à altura de “Thriller”, mas sem ousar copiá-lo, como muitos tentam fazer (vide Usher e Chris Brown). Não há semelhanças entre os dois artistas, e West separa isso muito bem. É o cuidado com a obra, a repaginação dos ritmos e até mesmo os demônios interiores de cada um que aproximam Mr. West do Rei do Pop.

E, se Kanye West ainda não se tornou rei, Fantasy é o atalho mais curto e rápido para lhe garantir tal façanha. As principais publicações de música deram nota máxima ao álbum. Rolling Stone, The Independent e até mesmo o seletivo Pitchfork renderam elogios ao rapper, citando o sucesso impecável de sua fórmula.

Ao contrário de seu trabalho anterior, 808 & Heartbreak, Kanye não investiu tanto nas rimas. A busca pelo lirismo já dava seus primeiros passos, mas é em Fantasy que ele ganha o devido corpo, com pianos e guitarras R&B que beiram o psicodelismo. “Gorgeous” pega emprestado o ritmo ameno de “You Showed Me”, dos Turtles, com uma guitarra melódica que deixa as rimas de KiD CuDi, Raekwon e West como planos secundários diante do instrumento.

Gravado no Haiti por um custo estimado em US$3 milhões, Fantasy pode ser um trabalho considerado pop, mas não é tão acessível quanto a black music comercial que escutamos nas rádios. “Runaway” começa com leves toques de piano erudito, como se fosse o interlúdio de um concerto de dança, e logo entra os vocais de Pusha T dando a prévia para o espetáculo de West, em uma de suas melhores músicas.

“Lost in The World” também realça o lado mais soft de Kanye West com bases dos pesos-pesados Gil Scott-Heron e Manu Dibango. A pegada tem um quê de drum’n bass e eletro-house com vocais distorcidos, trazendo a ideia de perdição mesmo na escolha dos elementos musicais da canção.

Na rede há um bom tempo, “Power” firma-se na esquizofrenia sonora de “21st Century Schizoid Man”, do King Crimson; “Blame Game” acentua a voz inconfundível de John Legend e tem um piano clássico de fundo; e “Devil In a New Dress” dá profundidade à voz de Rick Ross, com a base da linda canção “Will You Still Love Me Tomorrow”, de Smokey Robinson.

O rapper foi bem criterioso em Fantasy. Os ritmos e arranjos são trabalhados em conjunto, dando mais ênfase às mensagens disparadas. “Hell Of A Life” é um grande exemplo: relata um momento de insanidade do artista em casar-se com uma prostituta no banheiro e lamentando-se (“No more drugs for me” [“Não quero mais drogas”]), com barulhos de fundo similares a uma decadente transa de madrugada.

Kanye West já havia divulgado anteriormente que estava trabalhando em um álbum com Jay-Z, e os titãs aproveitaram para gravar “Monster” e “So Appalled”, duas das faixas mais próximas da essência do hip hop. Com a diferença de que a agressividade dá lugar ao tom mais ameno (em comparação com outros artistas do gênero), talvez até maduro, de West.

Não há sequer um momento ruim de My Beautiful Dark Twisted Fantasy: todas as canções são ótimas e revelam que o artista tem potencial para sustentar seu grande ego como um dos maiores artistas do momento – ou, quem sabe, de todos os tempos.

O rapper lidera uma geração inteira não apenas no âmbito do hip hop, mas na música pop em geral. Será que, após a morte de Michael Jackson, temos alguém à altura para ocupar o trono? Se considerarmos que Fantasy faz parte de uma trajetória contínua do rapper, podemos chegar a uma conclusão precoce.

Ouça abaixo My Beautiful Dark Twisted Fantasy, do Kanye West, na íntegra:

Confira as bases que o músico colocou no álbum. Elas estão disponíveis para download aqui:

01 Mike Oldfield – “In High Places” (“Dark Fantasy”) 02 The Turtles – “You Showed Me” (“Gorgeous”) 03 Cold Grits – “It’s Your Thing” (“Power”) 04 King Crimson – “21st Century Schizoid Man” (“Power”) 05 Continent No. 6 – “Afromerica” (“Power”) 06 Manfred Mann’s Earth Band – “You” (“So Appalled”) 07 Smokey Robinson – ‘Will You Still Love Me Tomorrow” (“Devil In A New Dress”) 08 Pete Rock & C.L. Smooth – “The Basment” (“Runaway”) 09 The Mojo Men – “She’s My Baby” (“Hell Of A Life”) 10 Black Sabbath – “Iron Man” (“Hell Of A Life”) 11 Aphex Twin – “Avril 14th” (“Blame Game”) 12 Bon Iver – “Woods” (“Lost In The World”) 13 Manu Dibango – “Soul Makossa” (“Lost In The World”) 14 Lyn Collins – “Think” (“Lost In The World”) 15 Gil-Scott Heron – “Comment #1″ (“Lost In The World”) 16 Backyard Heavies – “Expo ’83″ (“Runaway”)

17 Tony Joe White – “Stud-Spider” (“Hell Of A Life”)