
10. “Erotic Heat”
Jlin
Disco: Black Energy
Data de Lançamento: 23 de março de 2015
O glitch pulsou forte na música pop em 2015. A despeito das contribuições de Clams Casino e Prefuse 73, as produções com colagens não precisaram destoar tanto da estrutura repetitiva que o insere às margens das andanças da música eletrônica. Black Energy, de Jlin, faz com que essa simbiose seja fácil, mas preste atenção na atmosfera que ele consegue criar. “Erotic Heat” realmente parece com aquele momento que procede o esporro, apesar de parecer uma forma de ridicularizá-lo. Pense como quebra de expectativas, ainda que o senso de ‘esperar por algo’ seja mantido com os vocais baixinhos em contraste ao ritmo extasiante dos loopings. Está não é uma música para aquele momento – mas é uma nova perspectiva sobre o que pode ser aquele momento, ou, melhor, o que representou aquele momento.

9. “Wool”
Earl Sweatshirt part. Vince Staples
Disco: I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside
Data de Lançamento: 23 de março de 2015
Com Summertime ’06, Vince Staples estreou mostrando ambição, mas sem a desenvoltura que tanto se esperava. Tudo bem, ele é jovem, tem 22 anos. Talvez ele tenha que aprender algumas coisinhas com o parceiro Earl Sweatshirt, mais desprendido e mais talentoso que ele. Nenhuma canção de autoria de Vince Staples bate esta participação estrondosa, que encerra com chave de ouro I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside.

8. “Rage”
Le1f
Disco: Riot Boi
Data de Lançamento: 9 de outubro de 2015
Le1f está bem com ele mesmo, e é importante que ele diga isso. Um dos grandes nomes do queer-rap no momento, ele condensa toda sua fúria contra comportamentos e mensagens odiosas sobre seu jeito de ser. ‘Sou uma puta má porque eu me ponho em risco‘, reflete. A produção com sintetizadores 8-bits que explodem no refrão é assinada por Balam Acab, que fornece o cenário perfeito para Le1f dominar – dominar sendo ele mesmo.

7. “Shut Up”
Stormzy
Disco: Single
Data de Lançamento: 11 de setembro de 2015
De um lado teve “Hotline Bling”, do Drake. De outro, Stormzy e o grime ascendendo graus de excelência como não se ouvia desde Dizzee Rascal. “Shut Up” é daquelas grandiosas canções que nasceu do freestyle: ele chamou o DJ XTC com a base de “Function On the Low“, beat que criou em 2012. A junção deu tão certo, que desde então Stormzy tem sido encarado como o maior nome do grime no momento (que está efervescente como nunca): ele ganhou um programa no Beats 1 e campanha de fãs para colocar o single na 1ª posição na semana do Natal. Nenhuma estrela ascendeu tão rápido assim por conta de uma canção. Pode crer, é bem melhor que a de Drake.

6. “Dreams”
Beck
Disco: Single
Data de Lançamento: 15 de junho de 2015
Morning Phase (2014) é um disco que fica melhor a cada audição. Sua veia melancólica parece Sea Change (2002), mas é mais maduro que Sea Change porque Beck soou verossímil à sua própria maturidade. “Dreams”, por outro lado, é o retorno às experimentações com psicodelia e funk, algo que o músico tem dominado melhor depois de trabalhar bastante com produtor (inclusive em The Road From Memphis, o melhor disco de 2011, lembra?). Pode-se até dizer que a herança venha de Odelay (1996) ou Midnite Vultures (1999), mas a real é que Beck, não importa o que faça, faz bem, obrigado.

5. “Alright”
Kendrick Lamar
Disco: To Pimp a Butterfly
Data de Lançamento: 16 de março de 2015
Entre faixas muito boas como “For Free? (Interlude)”, “King Kunta” e “The Blacker The Berry”, “Alright” se destaca por endossar a representatividade de To Pimp a Butterfly. É ela que sintetiza o discurso pacífico ante uma sociedade que segrega. Ela fornece acalanto. Sim, as rimas de Kendrick Lamar são duras quando dizem ‘Filho da puta, você pode viver no shopping/Eu posso ver o diabo, posso te dizer, sei que é ilegal‘. A conscientização é sobreposta e o ritmo jazzístico, com a produção de Pharrell e Sounwave, são propícias para que a mensagem seja absorvida com eficácia.

4. “Baltimore”
Prince part. Eryn Allen Kane
Disco: Single
Data de Lançamento: 21 de julho de 2015
Prince lançou dois álbuns em parceria com o serviço de streaming Tidal, mas nenhum deles tem uma música com o potencial de “Baltimore”, single lançado como suporte às manifestações contra o preconceito racial entre policiais e cidadãos negros, que esquentou bastante em 2015. Seu show na principal cidade de Maryland (EUA) foi um dos grandes acontecimentos do ano, e esta canção é a grande prova de que é possível ser criativo, respeitoso e compor grandes canções pacíficas sobre momentos tão tensos. A colaboração de Eryn Allen Kane (que também trabalhou em Surf, de Donnie Trumpet and Social Experiment, um dos melhores álbuns internacionais de 2015) é mais um acerto nesta belíssima canção de protesto.

3. “Half Life Crisis”
Jim O’Rourke
Disco: Simple Songs
Data de Lançamento: 19 de maio de 2015
Adquirir pelo site da Drag City
O ritmo imposto pelo piano lembra algum take perdido de Judy Garland dos anos 1950. A levada acústica do violão tem um quê de indie à lá Wilco, mas é na composição, que o guitarrista Jim O’Rourke celebra em mais um disco ‘característico’ pela Drag City, que reside a força: ela encara o interlocutor como um ser derrotista ‘não tão alto quanto antes‘. É a crise da meia idade, meu caro, e ‘pessoas indo e vindo em sua frente/É isso que você acredita ser uma vida radical‘. Que balde de água fria, hã?

2. “Re Run Home”
Kamasi Washington
Disco: The Epic
Data de Lançamento: 5 de maio de 2015
Nenhuma música de 2015 foi tão fluída e swingante quanto este take fabuloso de The Epic. O funk é regurgitante, embora os teóricos se confundam se a real fonte de inspiração vem da Prime Time, de Ornette Coleman, ou da fase Black Byrd (1973), de Donald Byrd. Os melhores 14 minutos do disco deste saxofonista são reflexos dos novos tempos, em que a outrora convergência já é parte de uma assimilação característica do jazz. O baixo de Thundercat é a grande essência, mas quando Kamasi Washington encontra o ethos espiritual de seu sax-alto… Vixe, segura!

1. “Sticky Drama”
Oneohtrix Point Never
Disco: Garden of Delete
Data de Lançamento: 13 de novembro de 2015
Quando M83 lançou Hurry Up, We’re Dreaming (2011), sugeriu que os pesadelos de criança ainda mantém um resquício lúdico do que nós, adultos, imaginamos de quando éramos criança. Em algum momento de A Caminho de Swann, primeiro livro de Marcel Proust da saga Em Busca do Tempo Perdido, o personagem narra momentos sofríveis de quando não tinha sua mãe para beijá-lo todas as noites – e como as negativas do pai em relação a esse afeto o tornaram ainda mais sensível. Foi horrível pra ele – e Proust nem precisou recorrer a uma linguagem pesada para refletir isso.
O que Daniel Lopatin e o Oneohtrix Point Never têm a ver com isso?
Lopatin afirmou que Garden of Delete foi a materialização de pesadelos ainda vivazes da infância. “Sticky Drama” é a narração abstrata de uma série de eventos horrendos. A sensibilidade de anos foi mantida: percebemos o medo por trás daqueles reverbs, os sintetizadores receosos de uma entrada monstruosa que vem, sim, aterradora, explodindo, estourando os tímpanos e arrebentando as veias.
O OPN soa extremamente o oposto do M83 porque não acredita que o elemento lúdico seja intrínseco à infância ou adolescência. O ser naquele momento, muito bem proseado por Proust, também compreende as vicissitudes que nós, adultos, tanto tememos. Não é porque crescemos que nos tornamos mais realistas. A passagem do tempo é avassaladora, mas os sentimentos fortes permanecem, e continuam sendo lembrados. Foda-se o lúdico.
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