Gravadora: Blues Babe/Atlantic
Data de Lançamento: 24 de julho de 2015

Em tempos de ebulição do R&B, se tem algo que permanece indissociável ao gênero é a emoção. Há quem goste de dizer que elas costumavam ser mais intensas nos anos 1960 e 70, mas o fato é que a forma com que os sentimentos são expressados não pode determinar o quão inovador o artista é.

Peguemos, por exemplo, Charles Bradley: com 66 anos de experiência (de vida), imagina-se que a sua emoção tenha mais intensidade que de outros músicos – ainda mais quando se sabe que o sucesso de sua carreira veio de forma tardia.

Medir a intensidade musical a partir da emoção do artista é algo injusto – mas acaba vindo à tona quando se analisa o soul/R&B, porque a vida e a experiência dos intérpretes parecem mais atreladas à técnica vocal e à musicalidade construída.

Compreendendo o universo de símbolos que constitui a artista – ser mãe, ter uma carreira, uma habilidade a lapidar e a imprensa para dialogar – Woman soa um disco ainda mais enriquecedor

Parecem; nem sempre é assim.

Se isso estava mais evidente no soul/R&B dos anos 60 e 70, então podemos dizer que Jill Scott é uma cantora das antigas. “A única coisa que passou pela minha mente é fazer histórias que você possa sentir”, disse a cantora em entrevista à Rolling Stone. “Eu permito que minhas emoções sejam sentidas”, contou, noutro momento, à revista Essence.

Essas emoções são perpassadas ao ouvinte a partir do acento vocal de Jill. No single “Fool’s Gold”, o fato de estar ‘vivendo um sonho’ é transmitido com arranjos flutuantes, como se ela tivesse surfando num desejo distante.

Mais simpatia com o ouvinte ela consegue em “Closure”, em que as batidas doo-wop relembram um caso em que ‘fizemos amor, e foi tão bom’. Realidade da cantora: ela se divorciou em 2013 e disse que não “estava apressada” em ter outro homem.

Foi isso, então, que fez de Jill Scott uma mulher com ‘m’ maiúsculo, como transpareceu no título do disco? Isso tampouco entra em equação, pois nem só de relacionamentos é a vida. Ora, ela também é mãe, tem carreira, uma habilidade a lapidar, a imprensa para dialogar. Compreendendo esse universo de símbolos que constitui a pessoa e o artista, Woman soa um disco ainda mais enriquecedor.

A cativante “You Don’t Know” pode se aplicar a tantas situações de nossas vidas que seria herege prendê-la a um relacionamento. Os primeiros versos de “Prepared” falam claramente de melhor alimentação (‘estou comendo mais comida verde/Para ter um corpo alcalino’), mas o que Jill mostra é que está num estado espiritual elevado, mesmo sabendo que ainda não passou por tudo.

Jill Scott é, também, uma cantora versátil: vai de algo próximo ao neo-soul, em “Lighthouse”, ao funk instigante, de “Coming to You”

Não é de um amado que ela está atrás quando canta, em “Can’t Wait”: ‘não posso esperar ser amado por você’. Pode ser a audiência, pode ser a família e pode ser o filho dela. Quanto ao pequeno Jet, de 6 anos, a cantora dedicou a quase gospel “Back Together”, uma de suas composições mais confessionais até o momento: ‘Não importa, não importa o quão duro eu tenha dado/Então, olho nos seus olhos/E tudo parece voltar a ficar bem’.

Woman mostra, também, uma Jill Scott musicalmente versátil. “Run Run Run” é puro músculo da Stax e, ao mesmo tempo, moderna como a parceria de Bruno Mars e Mark Ronson. “Lighthouse” se aproxima do neo-soul de Erykah Badu, com levada lenta, quase psicodélica, enquanto “Closure” exige que Jill Scott intercale degraus de tonalidade vocal difícil de encontrar no gênero hoje em dia (semelhante a Mavis Staples, mas sem seus extremos graves).

“Coming To You” é um funk instigante, remontando aos melhores anos de Diana Ross, enquanto a estranheza de “Cruisin” pega o ouvinte de jeito ao deixar que prevaleça a sensualidade – conduzida, de novo, pela voz de Jill Scott: ‘Estou cruzando a brisa da tarde/Para espairecer minha mente, ter meu tempo e então respirar’.

Inevitável que a tentativa de fazer uma leitura do que Jill Scott sente seja mais atraente que pontuar as nuances estéticas de sua música. Isso faz com que Woman soe um disco mais potente do que se teoriza.