Se os ouvintes tivessem percebido a atmosfera de Uprising no momento em que foi lançado, em 1980, também iriam prever que Bob Marley corria contra o tempo para não partir antes de concluir seu legado. O que dizer de um disco que inicia com uma faixa de nome “Comming in From The Cold”? Apesar da letra falar essencialmente sobre positividade com indagações como ‘quando uma porta se fecha/sabia que muitas outras se abrem?’, o título sombrio da música introduz o álbum mais soturno da carreira do rei do reggae.
Até aí tudo bem. Vemos que Bob adotou um discurso mais maduro, mas em seguida chega “Real Situation” supondo que a única solução é a ‘total destruição’, citando exemplos como nações disputando territórios contra outras nações, e capturando homens e crianças apenas por efeméride. Meio que aquele estigma: ‘nada pessoal’, sempre tendo como norte as agruras do imperialismo.
Bob Marley já tinha nas mãos diversos singles a serem gravados. Durante as sessões, em momentos em que o nervosismo batia, ele chegava a suplicar a presença dos músicos. Aquele pouco tempo que tinha não podia ser desperdiçado.
Ele aproveitou para explorar minimamente outros ritmos musicais que fossem além do reggae. E aqui vemos bastante a presença do funk, como em “Work”, com guitarras desprendidas dos riffs e mais soltas para explorar novas notas. Mas Bob não penetrou demais no ritmo: nesta canção, por exemplo, não há uma forte presença dos metais, algo característico do gênero popularizado por James Brown. Mas o baixo cria uma dinâmica dançante quando se alia à percussão. É como se fosse um funk em velocidade reduzida, um funk lesado pelas fumaças do cannabis.
O interessante de “Work” é que ela serviu como espécie de presságio da morte do cantor com o trecho: ‘cinco dias para partir, trabalhando para o próximo dia…’. Essa foi a penúltima canção registrada em seu último show em Pittsburgh, gravado em 23 de setembro de 1980 e lançado em fevereiro deste ano. (A última canção tocada, ou pelo menos registrada no disco, foi “Get Up Stand Up”, servindo como um ‘tapa nas costas’ dos fãs para superarem antecipadamente seu lúgubre adeus.)
O groove foi bastante explorado em Uprising. Uma das mais agitadas, “Could You Be Loved”, criou a ponte necessária entre o ska, o funk de James Brown e o reggae jamaicano com seus compassos rápidos e vigorosos.
Mas o grande mistério do disco inteiro está na última faixa, “Redemption Song”. Bob Marley pega emprestada a essência poética de Bob Dylan e dá o conselho derradeiro àqueles que se entregaram de corpo e alma à ideologia rastafari. A canção foi gravada após a decepção do músico com o legado de Selassie I na Etiópia. ‘Por quanto tempo eles irão aniquilar nossa profecia?/Por que ficamos do lado de fora e apenas olhamos?’ é o trecho que mostra a indignação do músico diante dos homens que forjaram a fé alheia como caminho possível para suprir desejos individuais.
Por mais que soe profundo demais, Uprising é mais um amontoado de bons singles do músico do que um álbum fechado como conceito. Aqui, Bob mostrou que estava interessado em outras vertentes musicais além do reggae, mas talvez resolvesse disparar tudo de uma vez antes que fosse tarde demais.
Alguns singles ficaram de fora, como “Jungle Fever” e “Pray For Me” (lançados posteriormente), mas ainda assim mantém viva a magia de ser o último resquício fonográfico de um dos maiores músicos do século passado.
