
Anelis Assumpção lançou o álbum Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa em junho pela Scubidu Records
Demorou, mas saiu. Não que Anelis Assumpção fosse uma perfeccionista psicótica a ponto de adiar ao máximo o lançamento físico de seu primeiro álbum como compositora solo. Desde o início da década passada, a filha de Itamar Assumpção, um dos grandes ícones da vanguarda paulista, já se apresentava ao lado de Thalma de Freitas e Céu com o Negresko Sis.
É que ela havia se comprometido para lançar a tão aguardada Caixa Preta (que saiu no final de 2010), que reúne toda a discografia de Itamar Assumpção, além de materiais inéditos. Mais que um item de colecionador e de fãs, a Caixa Preta mostra a discografia de um dos artistas mais obscuros (e interessantes) da música brasileira.
Anelis assume sua feminilidade através do legado Assumpção – que ela faz questão de enfatizar nas dedicatórias de Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa
De acordo com uma reportagem da Folha Ilustrada, antes de Itamar falecer em 2003, ele havia proposto um ‘acordo’ com Anelis: ela ficaria encarregada de cuidar de toda a produção dessa compilação, enquanto ele cuidaria de bancar o seu álbum. “Não consegui terminar nada meu enquanto não concluí a Caixa Preta”, disse a cantora ao jornalista Marcus Preto, da ‘Folha’.
E foi com as vendas da Caixa Preta que Anelis conseguiu investir no seu debut Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa, além de ações como pré-vendas de shows e outros recursos.
Logo na primeira faixa, Anelis quita o débito com Itamar em “Mulher Segundo Meu Pai”: a frase ‘Suspira pelo que quer/a mulher/mania tem de sangrar’ é entoada numa doçura que vai dando ares à percussão e adquirindo um tom orquestral graças ao trombone de Bocato. É Anelis assumindo a sua feminilidade através do legado Assumpção – que ela faz questão de enfatizar nas dedicatórias do álbum.
“Mulher Segundo Meu Pai”
O que impera em Sou Suspeita são as múltiplas referências individuais de uma artista que quis se jogar ao mundo logo no primeiro disco. Aqui, vemos o reggae e dub (“Bola com os Amigos”), a poeticidade de Paulo Leminski em “Amor Sustentável”, músicas em inglês (“Secret”, com Céu e Thalma, e “One Day”, com Cris Scabello) e, marcadamente, o peso do afro-beat que vem influenciando bastante a MPB atualmente.
De Fela Kuti, Anelis pega emprestada em “Sonhando” os samplers da faixa “Mr. Grammarticalogylisationalism Is the Boss”, do disco Monkey Banana (essa canção também é sampler de “I Will Not Apologize”, do The Roots). Só que ela adiciona à canção as vozes de Karina Buhr e Flávia Maia, juntamente com o baixo acompanhante de Mau, para dar um tom abrasileirado da nossa cozinha musical. “Me deixe só/eu sou mais eu”, impõe Anelis.
Interessante dizer que Anelis preferiu deixar de fora o sobrenome Assumpção no disco. Talvez para se encontrar ou para se desvencilhar do legado do pai, esta foi a melhor opção para começar uma carreira artística. Afinal, Anelis carrega consigo o sangue musical e pode muito bem traçar novos rumos daqui pra frente. E é exatamente isso que já está acontecendo depois do lançamento de Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa.
