Gravadora: eOne
Data de Lançamento: 13 de outubro de 2017
Avaliação: 3/10
Infelizmente, o Wu-Tang Clan voltou. E esse retorno tem piorado com o passar dos anos.
Se A Better Tomorrow (2014) não convenceu ao resgatar o legado do grupo mais instigante de rap da história, The Saga Continues joga mais pá de areia no legado do grupo comandado por RZA.
Primeiramente, nem é RZA quem assegura a produção. Ela ficou por parte de DJ Mathematics, produtor importante ligado ao grupo que inventou o símbolo clássico do Wu-Tang.
O problema é que ele soa desnecessariamente nostálgico, reprocessando efeitos de samurai, dilapidando a crueza do baixo, evitando contrapontos estrondosos… Na melhor das hipóteses, soaria como um disco de vários lados B do grupo. Na pior – ou seja, na maioria – das hipóteses, soa uma mimetização descabida de clássicos como Enter The 36 Chambers (1993) ou Wu-Tang Forever (1997).
Ainda assim, a culpa por The Saga Continues não é bem de Mathematics. Ele fez o que um bom funcionário faria se o chefe pedisse que ele comandasse algo. O grande pecado do disco está na fragmentação do grupo.
Com poucas exceções, num compêndio de 18 músicas geralmente dois ou três MCs dividem os mics. GZA, um dos maiores talentos do clã, por exemplo, só aparece com alguns versos numa música só (“If What You Say Is True”). E não há uma rima sequer de U-God.
Falta integração
“Leasson Learn’d” aborda a maturidade, e embora não seja muito diferente da estrutura do Wu enquanto música – com vocalistas assumindo cada estrofe da música – traz um dos melhores versos de Redman, que diz: ‘Na minha idade é tudo sobre pães/Tente ser legal aos 40‘.
Para um tema de um filme de ação como Velozes e Furiosos, “Fast and Furious” soa lenta demais e pouco instigante, algo que não combina muito com as rimas intrincadas de Hue Hef. Mesmo quando Raekwon entra em cena no que parece um eterno embate (contrastado por um baixo cíclico, algo indissociável de RZA), ela ainda não consegue empolgar.
Os dois vocalistas que melhor envelheceram, pelo menos dentro da ótica do disco, são Method Man e Ghostface Killah. Em “If Time is Money (Fly Navigation)”, Method doma a canção com a mesma imposição mostrada em The Meth Lab (2015).
Ele se ajusta melhor dentro dos parâmetros que se espera do Wu em “Frozen”, um dos poucos exemplos daquelas parcerias construídas com naturalidade dentro do disco, com o nevrálgico Killah Priest e o insistente refrão de Chris Rivers.
Ghostface brilha em “My Only One”, ao lado de RZA e com marcante refrão de Steven Latorre – mas quem prevalece mesmo, verdade seja dita, é Cappadonna, que soa mais enérgico e mais entregue ao tema que os comparsas.
Quando dois dos principais nomes se reúnem, em “Pearl Harbor”, Ghostface entrega um refrão rebarbativo, Method Man não impressiona e RZA exibe um verso meio estranho, em que diz ‘converter Lady Gaga/De volta à heterossexualidade’. Lembrando que a cantora pop não é gay e que, bem, se isso não for algo misógino, não sei bem descrever do que se trata.
Diante de um ponto baixo desses, o chefão do Wu tenta compensar com rimas mais agressivas contra a horda de preconceito nos EUA em “Why Why Why”: ‘Depois de lutar em guerras, ainda lutamos por nossos direitos civis/Para ser cidadãos com oportunidades iguais’, diz, dentro daquele esquema musical que ele tanto preza desde o início do coletivo: o baixo persistente, vocais soul ao fundo (de Swnkah) e a aura clássica do rap anos 1990.
Looping nocivo
Quanto à abordagem mais ‘clássica’ do rap, não dá pra dizer se seria Mathematics querendo manter a essência do grupo ou ordem expressa de RZA.
O fato é que isso dificulta a idoneidade do trabalho com o seu tempo.
Mas, ao ouvir “G’d” ou “People Say”, uma das poucas que reúne boa parte do clã, parece que estamos diante de um looping nostálgico. E esse looping é ainda mais nocivo quando se põe The Saga Continues em perspectiva.
Trabalhos assim levantam tristes questionamentos: será que o Wu-Tang ainda é relevante para o rap? Se levarmos em consideração os projetos solos de cada integrante, talvez ainda dê para responder com uma afirmação.
