Gravadora: Pomm_elo
Data de Lançamento: 16 de setembro de 2016

A representatividade é uma coisa delicada, tão delicada, que quando ela está em crise nem todos captam.

Desde a revolução que o Secos & Molhados instituiu nos anos 1970 até o começo dos 90, após a morte de Cazuza, quando foi que você ouviu falar de algum artista ou de uma cena musical cujo mote desse abertura à homossexualidade ou a temas LGBT?

Justamente a falta dessa abertura deixa a sociedade impávida quando se trata de temas caros ao público LGBT. Pouco se sabe, muito se imagina. Então, o que se propaga é uma enxurrada de senso comum que faz com que muitas pessoas acabem soando preconceituosas e homofóbicas sem nem ao menos suspeitar.

Nesse contexto, apenas a existência de um artista como Liniker é de importância imensurável. O jovem negro de 21 anos “pobre e gay”, como já se autodescreveu, causou furor no ano passado com o EP Cru, com três faixas (“Zero”, “Louise du Brésil” e “Caeu”).

Ele mesmo já havia anunciado que essas músicas eram um preview do álbum que estava pra sair – e saiu! – Remonta.

Suas 13 músicas reforçam a forte característica personalista já denotada no EP anterior. Em vez de duras críticas sociais que incorporassem a comunidade LGBT como um todo, Liniker preferiu voltar-se para dentro e focar em composições que mostram sua relação com o amor, com seus próprios sentimentos e com a forma com que encara relacionamentos.

“Um dos meus maiores desejos como artista é: bote para fora quem você é, não tem problema”, disse o músico ao El País. Remonta é esse trabalho ‘pra fora’, após um longo exame ‘pra dentro’.

Liniker já afirmou que o samba-rock tem grande influência em sua carreira, por conta de sua mãe, que frequentava os bailes em Araraquara (SP). No disco, o gênero é um dos muitos temperos estéticos. Em “Prendedor de Varal”, por exemplo, o samba-rock entra na cadência do baixo funky de Rafael Barone. A música cita “Chocolate”, de Tim Maia, mas mira mesmo na corrente Wilson Simonal.

“Um dos meus maiores desejos como artista é: bote para fora quem você é, não tem problema”, disse Liniker em entrevista

“Lina X” expande suas influências para o campo internacional. De início, trata-se de um space-funk que se dissolve na soul-music. Na canção, Liniker fala de uma ‘personalidade um tanto dividida‘; portanto, a transição de gêneros musicais responde à letra, que até gera uma confusão no ouvinte. Primeiro, ele cita a ‘casualidade’ desse perfil ‘múltiplo’ dela. Depois, volta à primeira pessoa: ‘E mais de mim/Tem mais aqui/Uuh uuh’. Ele é ela, ou ela seria outro sujeito?

Essa distinção, porém, é bem latente nas duas canções com Tássia Reis. Em “Tua”, a cuidadosa produção de Marcio Arantes tem aquele som fogoso dos cabarés. Liniker dedicou a música a uma amiga, Suzane Rossan, com quem tinha uma identificação ideológica bem próxima.

A outra com Tássia é “BoxOkê”, que surgiu após conversas pelo Facebook sobre processo criativo de composição. “Lembro que falava muito pra ela como eu tava me sentindo com todo o lançamento rápido que a gente teve, esse estouro rápido”, contou Liniker ao RedBull, que lhe cedeu o estúdio para gravar o disco. “E em uma dessas conversas a gente começou a falar de processo criativo das nossas letras, as duas compositoras falando da relação que têm com a água e a questão do empoderamento, a questão de afirmar a nossa negritude cada vez mais, falar da resistência das mulheres negras, das bichas pretas, das travestis, das trans, de todas as minorias”.

O resultado é uma música que ressalta o empoderamento trans: ‘Ei jão/Vou passar três batons/Pra você não me ensaboar’. Isso em arranjos do instigante funk-rock fornecido pela banda Aeromoças e Tenistas Russas.

Outra participação bastante notável é “Ralador de Pia”, com Tulipa Ruiz. Nela, Liniker se deleita ao prazer, como se estivesse em um solo dramático de teatro. Além da cantora paulista, Raquel Virgínia e Assucena Assucena (As Bahias e a Cozinha Mineira) ajudam a fortalecer a presença transgênero em um álbum que, espera-se, tem todos os elementos necessários para trazer a discussão da representatividade trans para a esfera mainstream.

Outros lançamentos relevantes:

Robert Glasper: ArtScience (Blue Note)
Against Me!: Shape Shift with Me (Total Treble)
Kool Keith: Feature Magnetic (Mello Music Group)
Matt Berry: The Small Hours (Acid Jazz)

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