10. The King of Limbs

Radiohead

Gravadora: XL
Gênero: Experimental

Foi um alarde danado quando Thom Yorke e cia. decidiu soltar o disco na rede sem mais nem menos, confundindo críticos de música, que esperavam tê-lo em mãos antes do público, e os próprios ouvintes.

The King of Limbs é uma selva de incertezas, que veio mais para confundir do que explicar. “Bloom” mostra as pedras no meio do caminho com batidas quebradiças, como se muitos cacos fossem obstáculo para uma beleza que está por vir. “Morning Mr. Magpie” é mais limpa e te chama para a dança, como se todo o sofrimento valesse a pena. É como se encontrássemos com um elfo que diz que o tal Magpie ‘roubou’ a sua melodia. Vamos atrás dela a partir de “Little by Little”, que é quase uma extensão de Amnesiac.

Os sentidos são dilacerados em “Feral”, entram numa estranha sinergia em “Lotus Flower” e vão ao relento em “Give Up the Ghost”. Se perder nessa selva é o grande barato. E, se você acha que acabou, Yorke até diz que está cansado em “Separator”, mas admite que muito ainda está por vir.

Faixa: “Morning Mr. Magpie”

9. Pull Up Some Dust and Sit Down

Ry Cooder

Gravadora: Nonesuch
Gênero: Folk/Country/Blues

O experiente músico Ry Cooder já trabalhou em diversas trilhas sonoras e é tido como um dos maiores guitarristas vivos graças às suas experimentações com o blues e a música texana. No campo do folk, por mais que já tenha explorado bastante nos seus mais de 40 anos de carreira, ele nunca foi reconhecido como grandioso. Talvez até agora.

Pull Up Some Dust and Sit Down exibe um Cooder sarcástico em relação à crise norte-americana, acusando os bancos de surrupiarem a nação enquanto todos dormem (“No Banker Left Behind”) e de não terem escrúpulos para sustentarem a propaganda bélica (“Baby Joined The Army”).

Aos 64 anos, com a naturalidade de cantar canções de protesto porque gosta, ele também reclama do mundo com a sordidez de já estar cansado em “Humpty Dumpty World”, mas mostra que também é tão descontraído como qualquer um de nós ao cogitar uma nação melhor com ‘bourbon, scotch e cerveja três vezes por dia pra ficar legal’ na ode “John Lee Hooker For President”.

Faixa: “John Lee Hooker For President”

8. Hurry Up, We’re Dreaming

M83

Gravadora: Mute
Gênero: Dreampop

Anthony Gonzalez, o único membro permanente do M83, conectou os sonhos de duas crianças, uma menina e um menino, para explorar a intensidade das viagens lúdicas. Afinal, elas têm liberdade para irem onde quiser através da imaginação sem ter que se sentirem presas a idiossincrasias e autoprivações.

Aos 30 anos, o músico francês diz sentir-se satisfeito por conseguir lançar, pela primeira vez, um disco duplo – inspirado pelo terceiro disco do Smashing Pumpkins, Mellon Collie and the Infinite Sadness. Cada disco tem 11 faixas, e cada track dialoga com outra, por mais abstrata que seja essa ligação.

“Midnight City” e “New Map”, por exemplo, são pesadas e podem muito bem servir de porta de entrada para ouvir o disco. A primeira mostra os desejos de um jovem de sair à noite, enquanto a segunda fala sobre superar o medo de conhecer o novo – ou seja, ambos falam de liberdade, de deixar-se levar. E, nisso, Gonzalez acaba compondo como se fosse uma criança, com poucos termos difíceis. Entretanto, a melodia e os arranjos são complexos exatamente para ambientar cada fragmento de devaneio dos pequenos sonhadores.

Faixa: “Midnight City”

7. David Comes to Life

Fucked Up

Gravadora: Matador
Gênero: Punk Rock/Hard Core

As 18 faixas deste disco são pesadíssimas, hard core mesmo pra ninguém botar defeito. Mas, pasmem, ao ouvir pancadas como “Queen of Hearts” e “Turn the Season”, você está acompanhando uma ópera-rock.

Isso é coisa de Hüsker Dü, é claro, mas você se sente bem mais conectado com o vigor de um Bad Brains ao fazer a trilha de um filme pós-Guerra Fria. O recomendado mesmo é você ouvir este disco de pelo menos duas formas: numa delas, curta bastante o peso sonoro de “Under My Nose”, “Running On Nothing”, “A Little Death”, enfim, todas; depois, tente catalisar e traçar um enredo que liga a história.

David Comes to Life fala sobre a vida de um rapaz metalúrgico que se apaixonou por uma garota chamada Veronica Boisson. Revoltado, ele a convence a montar uma bomba para destruir a fábrica. As 18 faixas nivelam as reviravoltas e impulsos do personagem. A partir da segunda metade do disco, a história é mais centrada nas descrições e opiniões da personagem Vivian, ex-namorada de David. Mas uma coisa liga tudo: o vocalista Damien Abraham grita em todas elas e a banda abusa das guitarras, pedais e baterias pesadas.

Faixa: “Under My Nose”

6. Kaputt

Destroyer

Gravadora: Merge
Gênero: Soft Rock

Imagine que você está descobrindo o novo, sozinho, andando por Chinatown, se deliciando com pequenos prazeres como uma Amélie Poulain ambulante que carrega o sentido aventureiro.

Deixe-se ser ingênuo, deixe-se olhar, deixe-se acreditar. Se Kaputt estiver rolando nos fones de ouvido neste momento, você provavelmente levará essa experiência mais a fundo ainda e, ao invés de se situar no espaço através de placas e estabelecimentos, pode ter um ensejo maior de contemplar a vista, o verde, o campo ou até o cinza.

Kaputt é um disco de sonhadores que injeta a fábula pop instrumental de um Steely Dan dentro do universo utópico indie. No nono trabalho do Destroyer, Daniel Bejar bem que poderia ter construído um disco conceitual para explorar esse contato com o mundo externo. E, se analisarmos bem, dá para encontrar uma amarra em “Chinatown” e “Savage Night at the Opera”, como se o vocalista estivesse compartilhando suas experiências da forma mais poética possível – e da forma menos meticulosa. Um resumo? Kaputt supera qualquer definição existente de beleza.

Faixa: “Chinatown”

5. Black Up

Shabazz Palaces

Gravadora: Sub Pop
Gênero: Hip Hop/Lo-Fi/Experimental

Palaceer Lazaro, uma das metades do Shabazz Palaces, sempre esteve um passo a frente no hip hop. Nos anos 90, quando os grupos vinham com a agressividade em bases pesadas de funk sampleando James Brown, ele estava no Digable Planets fazendo intersecções com o jazz em batidas mais suaves, mas que ainda assim traziam o gingado junto ao gênero. (Naquela época, ele era conhecido como ‘Butterfly’.)

Agora, quando o rap tenta uma proximidade maior com o rock e o dubstep, ele vem com o Shabazz Palaces invertendo a lógica e reciclando todos os formatos possíveis de contato com o rap. Tem música eletrônica experimental, industrial, cool jazz e até uma espécie de punk contido em cada uma das 10 faixas de Black Up que, como o nome já entrega, sugere uma remodelação do hip hop.

Além do mais, há o sentido de combater a superficialidade que vem da tecnologia com batidas que supõem a decadência desta virose. Para fugir disso, até incursões interplanetárias são válidas, como eles cantam em “Recollections of the Wrath”.

Faixa: “Swerve the Reeping of All that is Worthwhile (Noir Not Withstanding)”

4. Bad as Me

Tom Waits

Gravadora: ANTI-
Gênero: Folk/Blues

Para Tom Waits, escrever música é algo fácil, que pode ser feito numa mesa de bar ou em uma barbearia. Mais do que naturalidade, inspiração ou dom, pode-se dizer que é quase um carma, se abordarmos pelo jeitão niilista Waits de ser. Ele não procura falar de atualidades daquela forma que vá te comover ou fazer você levantar a bunda da cadeira para empunhar bandeiras. Não. Tom Waits prefere acompanhar o seu Bourbon, compartilhar suas desilusões e contar uma boa história.

Quando ele diz que é a ‘última folha na árvore’ em “Last Leaf”, dueto profundo com Keith Richards, provavelmente é um dos últimos que prefere o tato à superficialidade, a embriaguez ao ‘politicamente correto’, a canção ao invés do autotune. Num mundo de imenso crescimento populacional, o tema é só a deixa para Tom Waits mais uma vez falar de amor em “Back in the Crowd”. Ele busca o sentimento; se ele não é possível, fazer o quê, volte às massas.

Em Bad as Me, Waits também é rock’n roll: vide os vocais exasperados da faixa-título,”Hell Broke Luce”, “Get Lost”… Tudo por conta das colaborações de Keith, Flea (em “Raised Right Man”) e do grandioso guitarrista Marc Ribot, que toca com Waits há muito tempo. Ah, claro, sem mencionar sua esposa Kathleen Brennan.

Faixa: “Satisfied”

3. undun

The Roots

Gravadora: Def Jam
Gênero: Hip Hop

Boa parte das canções de rap são inspiradas na difícil realidade de alguém que não teve oportunidades e uma hora caiu para o crime. Quando o The Roots anunciou que dedicaria um disco inteiro para explorar essa temática, fiquei alarmado. As chances de cair para a redundância e para o que já foi feito eram grandes.

Aos poucos o grupo foi soltando vídeos curtos de divulgação e percebemos que Redford Stephens é simbólico como qualquer outro personagem de uma música do Tupac ou Racionais, por exemplo. Mas eles decidiram explorar a fundo ao analisar a realidade em volta dele através de suas experiências de vida. Além do fato de ser o primeiro disco totalmente conceitual do The Roots, eles deixaram a proximidade com o pop de How I Got Over de lado e superaram seus próprios obstáculos.

Eles partiram para uma pegada mais soul experimental, aproximando Sam Cooke e Radiohead. A temática coloca o grupo em sua superfície, já que eles inovam ao criar uma narrativa de trás para frente, começando com “Dun”, que registra a morte do personagem, e finalizando em uma sequência instrumental pungente, que mostra sinais pessimistas da família do garoto – tudo isso por conta dos teclados de Sufjan Stevens junto à bateria jazzista e esquizofrênica de ?uestLove.

Faixa: “Make My”

2. Let England Shake

PJ Harvey

Gravadora: Vagrant/Island Def Jam
Gênero: Lo-Fi

Por favor, não caia no erro de achar que este disco tem a ver apenas com a Inglaterra por conta do título. O país de origem de Polly Jean Harvey serve como ambientação de uma guerra iminente, inspirada pelos eventos da Primeira Guerra Mundial.

2011 foi um ano tão turbulento por conta das ocupações em Wall Street, as revoluções árabes e as revoltas na própria Inglaterra, que faltava algo para catalisar tudo isso. PJ Harvey fala que a guerra é seca, fria, dilacera nosso senso de humanidade. Passamos a achar que a ‘morte está em todo lugar’, como ela canta sabiamente em “All and Everyone”.

Ela consegue conectar o mundo do século XXI, pautado por Twitter e Facebook, às destrezas da guerra de soldados que perderam as esperanças antes mesmo de entrarem em batalha. “Mesmo agora, 80 anos depois”, canta PJ em “On a Battleship Hill”, numa voz de ópera enquanto as guitarras acústicas fervem ao fundo, “a natureza cruel venceu novamente”.

Não há progresso sem humanidade. Será que temos que cometer esse erro mais uma vez para aprender?

Faixa: “The Words That Maketh Murder”

1. The Road From Memphis

Booker T. Jones

Gravadora: ANTI-
Gênero: Soul/R&B

Depois de ouvir tantos discos conceituais, que tal relaxar, hã? Às vezes relaxar não é só o melhor remédio – é o melhor passatempo para a solução de um problema. Quem trabalha direto dando ordens, escrevendo a rodo, cuidando de crianças, falando em seminários ou conectando servidores no ramo da informática precisa voltar pra casa, largar tudo no chão, sentar no sofá… e relaxar! Jornalistas e críticos de música também precisam disso. Ou você acha que foi fácil fazer toda essa lista pra você ler e discordar de tudo?

Para isso, Booker T. Jones é mestre. Ele soa econômico quando quer nos acordes de seu bom e velho órgão hammond B-3, como dá pra ver na abertura de “Walking Papers”. Mas também sabe se impor, como nas releituras de “Crazy” (Gnarls Barkley) e “Everything is Everything” (Lauryn Hill). The Roots é a banda de apoio do músico; ela mostra assertividade e, com a experiência de que sabe o que está tocando, complementa a essência do soul sulista que começou lá em Memphis, na Stax, no início dos anos 1960, onde o próprio Booker T. era um de seus grandes expoentes com o The MGs.

Sharon Jones, Yim Yames (My Morning Jackett) e Matt Berninger (The National) cantam em clima de paz e amor. Até Lou Reed deixa suas ideias megalomaníacas de lado para dizer ‘não hesite, apenas viva’ em “The Bronx”, que encerra o disco.

Descansar é bom, necessário, é ótimo para o nosso bem-estar e repõe nosso vigor para se empenhar em alguma coisa que achamos útil. Agora, com as energias renovadas, que venha 2012!

Faixa: “Everything is Everything”

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Parte 1: (50-41)
Parte 2: (40-31)
Parte 3: (30-21)
Parte 4: (20-11)

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