Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 16 de julho de 1984
Numa era em que as cores fortes e vivas eram predominantes, Sade preferia o preto e branco. “Ela tinha um cabelo elegante, com grandes arcos e gola alta”, classificou certa vez a Vogue.
A nigeriana Helen Folasade Adu chegou a ter um pé na moda; ela tinha a ideia de criar uma linha masculina de roupas, mas acabou selando compromisso com outra arte.
O estilo minimalista de Helen, conhecida como Sade, foi transposto para a música. No disco de estreia, Diamond Life, não dava pra saber direito se ela acenava mais pro R&B, pro jazz ou pra música soul. Era, por fim, minimalista. Uma minimalista easy listening, aquilo que convenhamos chamar de pop sofisticado.
As primeiras audições de Diamond Life são suficientemente marcantes: “Smooth Operator” foi a canção que marcou a entrada do grupo no mercado fonográfico norte-americano. O som fusion puxado pelo sax de Stuart Matthewman e os teclados de Andrew Hale contraposto pela voz sensual de Sade levou-a ao top 5 das paradas Billboard.
Mas sucesso mesmo foi “Your Love is King”: seu formato mais convencional ao pop, com curtos solos de metais e uma espécie de melodia retilínea, com poucas variações rítmicas, conquistou de vez a Europa. Foi o primeiro single de Sade a estrear no Reino Unido, puxando a esteira para liderar o topo das paradas na Áustria, Alemanha e Suíça.
Por mais que se aumente o volume, Diamond Life dá a impressão de ser melhor apreciado baixinho. No entanto, é uma obra que demanda atenção em todas as suas frentes musicais: em “Hang On to Your Love”, a base das guitarras é funkeada, mas a cantora não estoura em nada suas notas para chamar os ouvintes pra dança.
Sade formalizou um contrato em que recebesse 15% do total de vendas. Só Diamond Life ultrapassou a marca de 6 milhões de unidades vendidas fora do Reino Unido
A cozinha musical formada por órgão e baixo em “When Am I Going to Make a Living” é construída de forma grandiosa. Ela poderia fazer scats o tempo inteiro, e a canção ainda manteria seu vigor: é um R&B portentoso, algo que ainda estava reservado a pouquíssimos nomes naquela turbulenta década de 1980.
“Cherry Pie” certamente foi um dos pontos de partida que levaram ao trip hop na Inglaterra. A elasticidade do baixo e a firmeza da bateria são pontos estéticos que ecoaram anos mais tarde na música do Massive Attack e do Portishead. Já o canto de Sade é cristalino: coloca-a de certa forma distante de nós, reles mortais, de tão sublime que é.
Parece bobo o que ela diz (‘Você era doce como torta de cereja/Selvagem como noite de sexta’); “Cherry Pie”, entretanto, fala da dor de um amor não correspondido: ‘Ouça, cara, houve uma época em que eu queria que você ficasse/Você saberá o custo, é você quem vai pagar/Estou mais forte agora, eu te amava na época’.
As canções de Diamond Life põem amor e amizade num mesmo prisma: causam alegria e dor em medidas similares. Com o passar dos anos, muitos criticaram a falta de comprometimento emocional de Sade com a própria música: não importa o que diga, impera o mesmo clima sonoro.
A intenção dela não era bem agradar o hype – mas ela soube muito bem como lidar com ele. Ao assinar com a gravadora Epic, ela recusou o cachê de 60 mil libras; formalizou um contrato em que recebesse 15% do total de vendas. Só Diamond Life ultrapassou a marca de 6 milhões de unidades comercializadas fora do Reino Unido, onde se firmou e se estabeleceu com o grupo.
Ao comentar sobre a sábia decisão comercial de Sade, um executivo da Epic colocou bem os pingos nos is: “quem vai contra-argumentar com uma mulher que vendeu mais de 50 milhões de discos?”, levantou a questão, colocando na conta outros sucessos dela, como Promise (1985) e Stronger Than Pride (1988). “Ela é mais poderosa que qualquer um que trabalha na gravadora, incluindo o presidente”. A declaração foi feita à revista The Fader, em 2000.
Passam anos, décadas, e a grandiosidade permanece, mesmo que esteja reservada às audições.
