Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 3 de abril de 2015
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Pink Floyd foi um nome que o Cidadão Instigado associou-se mais por gosto que por assimilação. Bem, se era algo próximo da abstração da era de Syd Barrett ou do virtuosismo espacial de David Gilmore que a banda cearense queria chegar, well done, objetivo atingido.
Fortaleza é o disco de maior capacidade de adentrar o circuito internacional que o Cidadão Instigado lançou até agora.
Perdura o desejo de soar fiel às próprias raízes, e se elas são numerosas, bom, dê crédito às multiplicidades dos seis integrantes
Há mais composições em inglês (“Land of Light”, “Green Card”), fator crucial, ainda que o sotaque nordestino permaneça lá. Mas há, também, a predominância da influência estrangeira, perceptível até mesmo na forma de tocar da dupla de guitarristas Fernando Catatau e Dustan Gallas.
“Dizem que Sou Louco por Você” tem um riff que nos lembra Dan Auerbach.
As explorações acústicas de Led Zeppelin III (1970) vêm à mente na sentimental “Perto de Mim”.
“Besouros e Borboletas” não soa cópia de nada, mas dificilmente ouvintes de 13th Floor Elevators diriam que falta algo da banda ali. O Cidadão Instigado, no entanto, surpreende: aos poucos a transforma em algo meio Odair José de tom sério (‘vejo a possibilidade pelo ar‘, canta Catatau).
Essas conexões musicais não denotam afastamento das intenções já apresentadas anteriormente pela banda. “Ficção Científica”, por exemplo, é o próximo capítulo da mesma autoria de “O Cabeção”, do anterior Uhuuu! (2009); “Quando a Máscara Cai” tem teclados retrô, mas se destaca por sugerir um passo adiante, reciclando ideias, riffs e estética. É uma das melhores do disco.
A psicodelia de “Os Viajantes” novamente atualiza os percalços experimentais de caras como Flaviola & A Banda do Sol e Marconi Notaro. Seu solo aberto é Pink Floyd em clima árido, uma visita aos anos 1970 com a propriedade de quem há muito já visitou essa mesma passagem.
Elencar bandas e mais bandas pouco ajuda a descrever as reais intenções de Fortaleza. Perdura o desejo de soar fiel às próprias raízes, e se elas são numerosas, bom, dê crédito às multiplicidades dos seis integrantes.
A pegada do Cidadão Instigado soa flamejante e rejuvenescedora, tratando-se de ser o quarto disco de uma banda com experiência de pelo menos uns 10 deles.
O estrondo do disco homônimo, as experiências com o Método Tufo e a curtição de Uhuuu! já estão intrínsecos à obra dos cearenses.
Soa um pingo decepcionante vê-los celebrar uma precoce nostalgia, mas, para isso, não há nada de ruim vê-los recorrer à técnica.
