Gravadora: Elektra
Data de Lançamento: 8 de março de 1996
Expurgo. Não há um termo melhor para definir Black Love, álbum em que o The Afghan Whigs melhor sela seu comprometimento com a soul music.
Em 1996 ainda se falava em grunge, e a banda de Greg Dulli permanecia nesse balaio por conta de dois discos temperados com muita guitarra e distorção: Congregation (1992) e Gentleman (1993).
Fugir dessa abordagem, por si só, já seria uma forma de expurgar. Mas o frontman da banda tinha que materializar a epifania de um filme noir que abordava amor bruto, violência, paixões disfuncionais, sexo, drogas e alucinações de alguma forma. Sem estrutura para fazer cinema, o jeito foi transformar em música mesmo.
Então, bastou seguir esta linha de raciocínio: se tivesse uma trilha sonora, como seria o resultado?
A resposta é exatamente Black Love, um disco em que as guitarras dão lugares a arranjos densos, vozes sussurradas e atmosfera tensa.
De início, em “Crime Scene, Part One”, barulhos de um trem partindo introduzem uma despedida. O motivo é revelado após dois minutos e meio de música: ele quer se perder, vagar, espairecer. Tá confuso, justamente por conta de uma relação que não terminou bem.
Por se tratar de um disco conceitual, é possível estabelecer conjunturas em Black Love. Assim, a pista da fuga da primeira canção tem a ver com atos do personagem incorporado por Dulli: em “My Enemy”, ele joga ao ar: ‘Dizem que matei meu irmão/Para se apaixonar por você’. Então, em clima elegíaco, ele pede para largarem do pé porque, bom, a vingança não precisa de um motivo palatável para ser concretizada. Porque é justamente disso que a canção se trata.

Crítica: The Afghan Whigs | Do to the Beast (2014)
O que mais intriga em Black Love não é bem o fato de ser paranoico, fruto de uma mente esquisitona sociopata. O pior de tudo é que o álbum gruda, traz o ouvinte pra ele. Isso porque a sequência das quatro faixas iniciais vicia como a mais letal das drogas: após “Crime Scene” e “My Enemy”, é bem difícil não se deixar convencer pelos vocais destilados de Dulli em “Double Day”, em que as guitarras de Rick McCollum acompanham o lamento com solos tão breves quanto estarrecedores.
“Blame, Etc”, a tal 4ª faixa, enumera os pontos sensoriais que levam o personagem à loucura: ‘Culpa, negação, traição, divisão/A mentira, a verdade, qual usar?’. Quando Dulli entrega-se aos urros, numa cortina R&B como jamais se esperaria de uma banda de rock, é inevitável aumentar o volume, ou simplesmente gritar com ele. Isoladamente, “Blame, Etc” trata dos questionamentos que fazemos quando estamos com raiva ou decepcionados com alguma coisa. É um momento que quase todos passam na vida, não é verdade? Por isso ela soa tão eficaz, por mais errática que sua letra suponha ser.
O single que a banda selecionou como principal foi “Honky’s Ladder” – o start do lado B, no vinil. Poderosa como as melhores músicas de rock dos anos 1990, ela é carregada de um sadismo que, se por um lado não é nada inocente, por outro não parece ser extraído de um indivíduo puramente perverso. Isso porque o refrão convence (‘Acima da escada eles cantam/Mas quão alto?’).
Quando muitas das publicações daquele tempo criticaram Black Love – acredite, foram muitas – detrataram uma ‘falsa’ incorporação do soul e do R&B num gênero tão associado à rebeldia. Um texto da New York Magazine dizia que “Dulli nem sempre está à altura das tradições que ele almeja”, citando caras como Prince e Percy Sledge como ambições estéticas. Mas, quanto a “Honky’s Ladder”, o jornalista se rendeu: “É majestosa, elegíaca e empenhada como nenhuma música de rock que escutei este ano [1996]“.
Outra joia do álbum é “Bulletproof”, uma das melhores canções do Afghan Whigs. Mesmo para os padrões destrutivos do grunge, ela soa exagerada – e é por isso que é tão boa. A música fala de suicídio amoroso e supõe sadomasoquismo como se tratasse de uma relação comum, uma situação tão corriqueira como escrever uma música sobre uma relação que deu certo.
“Em todos os discos, componho como se fosse personagens”, disse Dulli certa vez. Se tem uma coisa que Black Love estampou foi: não importa se esse personagem é repulsivo e se as situações são humanamente embaraçosas.
Com um disco, o Afghan Whigs conseguiu fazer do ato de expelir os demônios um clímax. Um expurgo necessário.
