O simples anúncio de Kanye West na edição 2015 do festival britânico Glastonbury despertou reações imbecis. Aquele velho papo: conservadores roqueiros querem que bandas de rock sejam headliners. Ainda que a apresentação de West não tenha sido das melhores, só por estar lá, a contragosto de uns e outros, o rapper fez sua parte.

Outros nomes de peso integraram o line-up do festival: The Who, Florence + The Machine, Alabama Shakes, The Chemical Brothers, FKA-twigs, entre centenas de outros.

Para fugir do que comumente se esperaria de um festival deste porte, selecionamos 12 vídeos disponibilizados pela BBC, emissora que cobriu oficialmente o evento, para que se tenha um outro panorama do que foi o festival:

Gregory Porter: “Liquid Spirit”

O disco Liquid Spirit rendeu a Gregory Porter o Grammy de Melhor Álbum de Jazz em 2014, mas, se você ainda não o conhece, certamente vai ouvir sua voz ecoar nas pistas de dança em “Holding On”, single que antecipa o novo álbum do Disclosure. A música diretamente da fonte do norte-americano é bem mais interessante, claro. A faixa-título, além de ser a melhor porta de entradas para se conhecer Gregory Porter, é crucial para entender como o jazz vocal pode dialogar criativamente com blues e soul, mesmo no século XXI.

Marcos Valle: “Estrelar”

Pode parecer arriscado, mas acredito que o carioca Marcos Valle é mais reconhecido na Grã-Bretanha que no Brasil. Ao lado de seu irmão Paulo Sérgio Valle, criou nos anos 1960 e 70 composições que iam da bossa ao soul, resultando em discos hoje disputadíssimos em sebos, como Braziliance (1967) e Vento Sul (1972). “Estrelar” integra o disco homônimo de 1983. Nesta apresentação no Glastonbury, Valle caprichou puxando um swing intenso, que remonta à fusão do samba com o melhor do jazz.

Spiritualized: “Soul On Fire”

Tratando-se de space-rock, não há banda melhor que o Spiritualized. Jason Pierce consegue conduzir as ondas eletromagnéticas de suas guitarras junto a uma aura soul, próximo ao gospel mesmo, como ninguém. Com backing vocals, ele entoou uma das muitas maravilhas de Songs in A&E (2008) com vigor, estranheza e, principalmente, emoção.

Paul Weller: “Saturn’s Pattern”

Paul Weller lançou um disco de qualidade indubitável. Saturn’s Pattern, infelizmente, não é um disco para as massas – assim como não foi o também notável Sonic Kicks (2012). Eis um bom momento para elucidá-lo. Dos synths repetidos aos riffs abertos de guitarra, o grande pai do mod britânico atualiza a essência musical do The Jam numa apresentação que, lamentavelmente, muito jovem descolado deixou passar batido.

Django Django: “First Light”

A banda britânica lançou em maio Born Under Saturn, com relativa popularidade após a conquista do Mercury Prize em 2012. O single do novo disco tem a sonoridade futurista dentro de uma proposta já associada ao presente: indie, com pretensão de art-rock. O Django Django já tem boa reputação na Europa, mas ainda precisa ser melhor reconhecido por estas bandas.

Jon Hopkins: “Open Eye Signal”

Com dois discos nomeados ao Mercury Prize (Diamond Mine, de 2011, e Immunity, de 2013), o britânico Jon Hopkins retrabalha o techno com uma pegada hard, incisiva e, acredite, criativa. Ele não tem o nome entre os gigantes da EDM que ganham milhões reproduzindo música de pen-drive, mas tem a competência necessária para trabalhar ao lado de mestres como Brian Eno e David Lynch.

The Fall: “Wolf Kidult Man”

Em maio deste ano, Mark E. Smith e “sua avó com bongos” lançou mais um disco com o The Fall, que continua com o mesmo peso dos riffs de mais de três décadas atrás. Esta performance de “Wolf Kidult Man”, de Imperial Wax Solvent (2008), retoma a essência punk dos primeiros anos da banda, com um peso de guitarras hoje comumente associado ao stoner-rock. O The Fall é mais velho que isso. Mais importante. E, caceta, melhor, que qualquer um que venha pregar stoner-fucking-shit no rabo.

The Pop Group: “Mad Truth”

Outro grupo veterano do pós-punk que retornou foi o The Pop Group. 35 anos depois, o grupo de Mark Stewart lançou Citizen Zombie e, se o single “Mad Truth” não traz a agressividade dos primeiros discos da banda, ao menos mostra que estes britânicos continuam na ativa. Para incomodar, claro.

The Mothership Returns: “Give Up the Funk (Tear the Roof Off the Sucker)

O que seria do P-Funk sem George Clinton? A banda Mothership Returns dá um panorama. Pode não ter o carisma do cara que revolucionou o funk cósmico pelo mundo, mas, em potência, não perde nada. Aliás, que potência.

Mavis Staples: “I’ll Take You There”

Aos 75 anos, a grande cantora de rhytm’n blues permanece a gigante da voz, exibindo um dos singles que mais fez sucesso com os Staples Singers. Bela jam soul.

Steel Pulse: “Chant a Psalm”

Dono de um dos melhores discos de reggae de todos os tempos, o Steel Pulse comemora quatro décadas de existência em 2015 e, se esta apresentação de “Chant a Psalm” não for suficiente para angariar mais fãs e outros adoradores de ganja pelo mundo… Bom, vá atrás de True Democracy (1982) ou Babylon the Bandit (1986).

Patti Smith: “People Have the Power”

O Guardian disse, e todos hão de concordar: Patti Smith não precisaria do Dalai Lama nos palcos para uma apresentação perfeita. Por isso, um dos maiores clássicos stadium de sua carreira continuam efetivos e cheios de potência.