Hip hop transgressivo: Tyler, the Creator incomoda pelo excesso de palavrões sem musicalidade contida

Gravadora: XL
[rating:1.5]

“Não faça nada do que faço nessa música. É tudo ficção”, diz o jovem rapper Tyler, the Creator na faixa “Radicals”. Se todos decidissem seguir o seu conselho, talvez não teríamos mais que suportar discos recheados de reclamações adolescentes e pouca musicalidade como Goblin.

Todos temos sobre o que falar ou reclamar: agora, ouvir palavrões de forma vazia, praticamente sem contexto nenhum, não é algo para qualquer um. “Fuck school, fuck you”, fuck isso, fuck aquilo. Ok, daria para entender o recado se estivesse um pano de fundo que justificasse tanta revolta.

Apesar das letras vazias, Goblin se apoia em bases contundentes que tornam a mensagem obscura. Ficaria melhor se fosse apenas instrumental

Tyler, the Creator faz acreditar que, não importa o que pensam, suas ideias devem ser expostas. Eu bem que gostaria de fazer isso também. Mesmo que bases pesadas de hip hop sirvam como o componente ideal para suas letras belicosas, chega a dar o pé no saco ouvir tanto xingamento. Isso oprime. Já não basta sermos oprimidos pelos motivos revoltosos que o tornaram um rapper?

O fato é que ele está dando o que falar nos Estados Unidos por sua impulsão sem precedentes para incomodar àqueles que não gosta. O líder do coletivo de hip hop punk rasgado Odd Future (que conta com mais de dez rappers entre 17 e 24 anos) já causou na Espanha, no programa do Jimmy Fallon (ao subir nas costas do apresentador), em Detroit… Tá todo mundo falando dele.

Lembra um pouco o início da carreira de Eminem (que, inclusive, elogiou o Odd Future). Mas, sinceramente, se o futuro estiver reservado a esse grupo como o nome sugere, podemos sepultar o hip hop. Tyler, the Creator é transgressivo como músico, como pessoa e contribui ainda mais para o retrocesso de um movimento que não deveria estar incluído.

Da indecifrável “Transylvania” ao vocal rasgado e horrorshow de “Analog”, o rapper se apoia em bases contundentes que, de repente, ficariam melhor sem as letras (como é o caso de “AU79”).

Não se deve negar que Tyler traz inovação ao ritmo – algo totalmente inadequado para o pop. Para Goblin, aquela clássica frase de Maquiavel sobre mudança cai bem: “Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança”. Ou seja, seguir o que Tyler está fazendo é se unir ao coro de adolescentes-rebeldes-sem-causa que atrasam o hip hop. Retrato vívido de que a modernidade pode produzir muita coisa boa mas, junto com ela, vem os frutos desagradáveis.

Pass it on, man.

Para ouvir o álbum na íntegra, visite o Listen Before You Buy.

Melhores Faixas: “AU79”