Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 16 de janeiro de 2015
Parece demasiado histórico, mas quando o pianista Vijay Iyer desenvolveu sua tese de PhD Microstructures of Feel, Macrostructures of Sound: Embodied Cognition in West African and African-American Musics para a Universidade da Califórnia, em 1998, fez mais que estabelecer uma conexão sonora entre as músicas africana e americana; estabeleceu, também, uma proximidade de tempo.
De fato, principalmente no jazz, África e América se convergem o tempo todo – mesmo nos dias de hoje, em que poucos custam a entender o que realmente acontece com o gênero.
Não é só na teoria que Vijay Iyer mostrou-se incisivo; o descendente de indiano é virtuoso no piano. É uma crúcis evidenciada desde seu primeiro registro, Memorophilia (1995). Ele acompanha o jazz pós-moderno e não nega o peso que a tecnologia e os ritmos eletrônicos propiciaram ao seu desenvolvimento – para tanto, vide seus trabalhos como Multiplicity Music, ou Mutations (2014).
Mesmo querendo ser norte-americano na sonoridade, Break Stuff vem de uma concepção que carrega toda a complexidade da música indiana e europeia. Não é academicismo demais para o jazz?
Foi a partir do momento que ele lançou o primeiro disco com o trio (Historicity, de 2009), completado por Stephan Crump (contrabaixo) e Marcus Gilmore (bateria), que Vijay Iyer passou a ser reconhecido como um dos grandes jazzistas da atualidade. Por um lado, isso revela o quanto críticos e imprensa estão presos ao modelo tecnicista do jazz (que prefere vangloriar os virtuosos em detrimento dos inovadores, apesar de Vijay ser dotado dessas duas características). Mas, por outro, permitiu o reconhecimento de um músico cujos superlativos não são nada exagerados.
Em seu terceiro disco, Break Stuff, Vijay Iyer retoma ao tradicionalismo de forma encantadora. Homenageia com honra sua maior influência, Thelonious Monk, unindo arpejos e solos em “Work”, sempre entrecortando-os como se estivesse numa longa escadaria e parasse rapidamente para descansar, para não fadigar-se. A bateria de Gilmore, no entanto, cai mais para o pós-bop de Elvin Jones que a destreza bebop de Max Roach, grande parceiro de Thelonious. De tão completo que é, Iyer transpõe, com certo dom matemático, as notas do saxofonista Sonny Rollins.
Suas técnicas no arpejo são reduzidas a poucos acordes em “Hood”, mas com um bom motivo: aqui, ele relembra o pioneiro do techno Robert Hood, simulando suas lentas progressões em ágeis dedilhados de acordes (e nos lembra Terry Riley em seu enveredamento pelo minimalismo).
Há outros refazeres na música de Vijay Iyer, característica sui generis de seu trio desde o primeiro disco – e ainda mais celebrada em Accelerando (2012), se tomarmos como exemplo suas versões de “Human Nature” (Michael Jackson) e “MmmHmm” (Flying Lotus).
Por isso, esqueça John Coltrane como comparativo ao se deparar com a versão de “Countdown”: os ataques urgentes do sax-tenor, moldando toda uma escola de hard-bop, são lembrados por staccatos de piano mais encontrados no avant-garde, principalmente pelo livre caminhar estilístico de Vijay. Ele refez tudo, a ponto de transfigurá-la e transformá-la quase que numa composição de sua autoria.
Em “Taking Flight”, Iyer não dá pausa aos seus dedilhados. Chega a impressionar a riqueza dinâmica de suas notas, que iniciam com toda a verve lisztiana e encontra o swing aos poucos.
Mesmo querendo ser norte-americano na sonoridade, Break Stuff vem de uma concepção que carrega toda a complexidade da música indiana e europeia. Não é academicismo demais para o jazz? – perguntariam alguns. Em partes, sim, porque o swing nem sempre é a tônica dos temas de Vijay Iyer (nesse quesito, o principal mantenedor rítmico aqui vem do baixo de Crump).
Por tratar-se de um disco totalmente acústico, as inovações estilísticas são assimiladas com o mesmo prazer de contemplá-las num grande teatro municipal. Eis a oportunidade de integração de audiências (jazzistas e classicistas) nesse sentido (ei, isso não nos lembra um certo Keith Jarrett?!?).
