
Eu tinha um pouco mais de dois anos quando veio o fatídico ano de 1991. Naquele momento, posso não ter absorvido diretamente a influência musical que viria daquela importante geração. Entretanto, toda a década de 90 foi fruto dessa cena alternativa da música que se iniciou em 91. E eu cresci nessa década.
Do trip hop do Massive Attack, que estava começando a ganhar os holofotes, ao grunge pesado de Nevermind, do Nirvana, 1991 foi um ano seminal para a pop music. Será que, 20 anos depois, ocorrerá o mesmo?
Pelos trabalhos lançados do início deste ano até agora, confesso que estou um pouco decepcionado: estão depositando muito nos ‘turning backs’, nas retomadas de bandas que já deveriam estar sepultadas depois de lançarem seus debuts. Claro que também temos muita coisa boa (e outras melhores estão por vir) mas, no circuito internacional, impera a dissolução dos elementos orgânicos da música e entra em cena os remixes, os aparatos eletrônicos, o ‘do-it-yourself’ que nem sempre traz coisa boa…
Enfim, já que é assim, que tal relembrarmos 10 ótimos álbuns daquele longínquo 1991, talvez um dos anos mais produtivos no que se diz respeito a trabalhos musicais de qualidade (tratando-se de cultura pop, que fique bem claro)?
Nirvana – Nevermind
Gênero: Rock Alternativo/Grunge
Gravadora: DGC
Apesar de canções como “About a Girl” e “Blew” do primeiro álbum terem colocado o Nirvana no circuito alternativo do rock, foi em Nevermind que vimos o espírito rebelde de Kurt Cobain dar as diretrizes para a tendência grunge, que deu destaque às bandas de Seattle. “Smells Like Teen Spirit” tornou-se um clássico num curto período de tempo, talvez devido às inúmeras aparições de seu videoclipe na MTV. A partir desse disco, começamos a ver os toques autobiográficos de Cobain: “Lithium” e “Drain You” se tornaram as prévias do que ainda estaria por vir na conturbada carreira do músico, que se suicidou em 1994.
Destaque: “Smells Like Teen Spirit”
Massive Attack – Blue Lines
Gênero: Trip Hop
Gravadora: Virgin Records/Circa
O debut do Massive Attack foi considerado o primeiro registro do trip-hop pela mistura de gêneros musicais distintos, que vão da música eletrônica do Kraftwerk aos delírios vocais de divas do soul e R&B, passando pela influência do rock, blues e trilhas de cinema. Poderia ser uma fuzarca, mas a organização de tudo isso resultou em um dos melhores debuts já registrados. A faixa “Safe From Harm” tem contribuições valiosíssimas, como o lendário guitarrista John McLaughlin, o baterista Billy Cobham (ambos do Mahavishnu Orchestra) e a doce voz de Sharah Nelson, que também colabora na psicodélica “Unfinished Sympathy”. “Be Thankful For What You’ve Got” é uma linda balada pra ser vibrada a qualquer momento e “Daydreaming” explora a melancolia de forma densa pontuado pelas vibrações da dance music.
Destaque: “Daydreaming”
Blur – Leisure
Gênero: Britpop/Rock Alternativo
Gravadora: Food Records
Damon Albarn, hoje já conhecido pelas experimentações feitas no Gorillaz, já demonstrava grande senso criativo em um dos grupos que impulsionaram o britpop nos anos 90. Apesar de ser recorrente as ligações desse disco aos caminhos explorados pelo Stone Roses no final da década de 80, Leisure já supunha inovação sonora em faixas que aliavam a melancolia vocal de Albarn a um rock eletrônico que ainda estava formatando sua síncope. Os integrantes não gostaram muito do resultado final desse disco, mas canções como “Bang” e “There’s No Other Way” ainda hoje ficam encravadas nos ouvidos dos fãs.
Destaque: “There’s No Other Way”
A Tribe Called Quest – The Low End Theory
Gênero: Hip Hop
Gravadora: Jive
Ritmos negros como jazz e hip hop têm em comum o fato de serem estruturados através da improvisação, que se mostra eficaz quando há uma conexão instrumental, rítmica ou vocal. Ou tudo isso junto. Por mais que houvessem semelhanças, o hip hop ainda não tinha formado boas relações com o seu bisavô, o jazz. Antes desse disco, o que garantia o peso das rimas eram bases de salão, mais ligadas ao funk de James Brown e George Clinton do que qualquer outra coisa. No segundo disco do A Tribe Called Quest, o DJ Ali Shahad Muhammad trouxe bases de Sly and Family Stone (“Rap Promoter”, “Skypager”) e até mesmo do nosso brasileiríssimo Gersão King Combo (“Show Business”) para dar uma suavizada no tom agressivo de forma estupenda, mostrando que o minimalismo instrumental pode casar muito bem com as rimas do gueto.
Destaque: “Check The Rhyme”
Primal Scream – Screamadelica
Gênero: Psicodélico/Experimental
Gravadora: Creation
Antes, os gêneros musicais costumavam ser catalogados logo pela primeira audição de determinado disco. Eis que veio o Screamadelica e confundiu tudo isso com canções que injetaram psicodelia nas junções esquizofrênicas de rock, soul, R&B, dance music e eletrônica. Em uma lista, o NME chegou a afirmar que este disco seria o mais drogado de todos os tempos. Afinal, o que mais vem a cabeça quando se escuta maluquices sonoras como “Higher Than Sun” ou a linda ambientação de “Don’t Fight It, Feel It”, que conta com a bonita voz da cantora Denise Johnson? É inegável que Screamadelica atingiu níveis raramente vistos em experimentação estética; não é à toa que está em quase todas as listas de melhores álbuns da década de 1990.
Destaque: “Don’t Fight It, Feel It”
My Bloody Valentine – Loveless
Gênero: Loop/Post-rock
Gravadora: Creation
Este álbum causou um impacto grotesco por representar algo nunca antes ouvido no cenário musical. Como muito já se disse, Loveless é um disco de dualidades, que põe em confronto temas amorosos e insanidade, a beleza das letras em contraponto às guitarras sujas e distorcidas de Bilinda Butcher. O próprio conceito do disco é uma grande esquizofrenia: é que o líder da banda, Kevin Shields, era tão perfeccionista, que chegou a investir quase meio milhão de dólares para conceber Loveless. Mesmo com a ótima aceitação da crítica para canções nem tão palatáveis assim como “Only Shallow” e ‘I Only Said”, o segundo álbum do My Bloody Valentine atingiu uma unicidade inatingível até mesmo pela banda, que não conseguiu gravar mais nada depois dele.
Destaque: “Only Shallow”
Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik
Gênero: Hard Rock
Gravadora: Warner
A junção do hard rock com alguns elementos do hip hop e da surf music foram os componentes principais para que o Red Hot Chili Peppers se tornasse uma das bandas favoritas da maioria dos jovens na década de 90. Foi com esse álbum que os integrantes mostraram que o qualquer estádio é pequeno para o grito uníssono de hinos como “Power of Equality” e ‘Suck My Kiss”. A linda balada “Under The Bridge” evidencia a virtuose de dois dos maiores instrumentistas de corda da nossa era: Flea, no baixo, e John Frusciante na guitarra. Apesar de relativamente longo por conter 17 faixas, Blood Sugar Sex Magik tem fôlego devido às canções pesadas como a faixa-título e o ska-funk de “Funky Monks”. Bons tempos em que músicas de qualidade faziam a cabeça de nós, meros jovens…
Destaque: “Under The Bridge”
Metallica – Metallica (Black Album)
Gênero: Metal/Hard Rock
Gravadora: Elektra/Vertigo
Quer ouvir a boa notícia primeiro em relação a este álbum? Ele é muito bom e mostrou a potencialidade do Metallica em trabalhar bem o peso do metal com nuances melódicas. “The Unforgiven” talvez seja o melhor exemplo, mas é em faixas como “Enter Sandman” e “Wherever I May Roam” que percebemos o quanto a banda é boa em angariar uma gama variada de fãs. A ruim? É que ele foi responsável por marcar o rompimento com o modelo pesado e consistente que o Metallica havia atingido de forma brilhante em trabalhos como Master of Puppets (1986) e Ride The Lightning (1984). Somente em 2008, com o Death Magnetic, que a banda recuperaria os trilhos. Seria tarde demais?
Destaque: “Sad But True”
Pearl Jam – Ten
Gênero: Rock/Grunge
Gravadora: Epic
Mais um filho direto do grunge, talvez esse seja o melhor álbum do Pearl Jam. Só que, ao invés de trilhar os caminhos iniciados por Sonic Youth ou Pixies (como o fez o Nirvana), Eddie Vedder e companhia pegaram mais influências do rock clássico, trazendo as guitarras do The Who (“Even Flow”) e a voz meio folk meio rock de Neil Young, que fica evidente em faixas como “Jeremy” e “Alive”. Esse álbum também prova que a unidade sonora do grunge é uma abstração: afinal, o rock do Pearl Jam não tem nada a ver com o do Nirvana.
Destaque: “Alive”
Sepultura – Arise
Gênero: Heavy Metal
Gravadora: Roadrunner
O nome desse disco diz tudo. É a ascensão do Sepultura ao posto de principal banda de metal brasileira (mesmo com suas letras em inglês). Foi o pontapé inicial para a vinda de clássicos posteriores, como Chaos A.D. (1994) e Roots (1996). “Desperate Cry” tem um início sombrio que lembra remotamente a algo do Metallica. A canção tornou-se uma das portas de entrada do Sepultura, graças aos riffs sintomáticos de Andreas Kisser e Max Cavalera. Iggor Cavalera foi mostrando maturidade nos batuques, segurando temas pesadíssimos como “Subtraction” e “Dead Embryonic Cells”.
Destaque: “Desperate Cry”
E aí, quais são os seus álbuns prediletos de 1991? Fique a vontade para fazer a sua lista na caixa de comentários.
