Gravadora: Virgin
Data de Lançamento: 13 de outubro de 2017
Disco da Semana: Beck, Colors
Quando não está empenhado em muitos de seus trabalhos como produtor, Beck sedimenta uma carreira artística por fases.
A exemplo da pintura de Picasso, o compositor californiano tem um lado azul, mais melancólico e sentimental, com destaque para Sea Change (2002) e Morning Phase (2014); e um lado rosa, mais colorido e festivo, como Midnite Vultures (1999) e este novo Colors.
Em trabalhos, digamos, mais coloridos, Beck costuma diversificar seu trabalho como produtor, fazendo de R&B, eletrônica e rock válvulas em torno de uma expressão única, muitas delas associadas à estranheza ou a vários elementos surpresa.
Híbrido natural
O que está posto em Colors é a forma de por em um disco só todas as múltiplas expressões musicais com as quais já trabalhou. Todo esse arremedo vai da suposta junção entre rap, trilhas de Enio Morricone e aspectos teatrais (“Wow”) a produções que misturam psicodelia ao tipo de pop plastificado tão associado ao século XXI, como mostra na faixa-título.
Dois anos e meio após lançar “Dreams”, que circulou bem pelas rádios brasileiras, a primeira pincelada dessa fase de Beck, já recorrente, mostrou um looping do funk ao punk, com um requinte de modernidade que se mostrou antagônico ao intimismo do anterior Morning Phase. “Ela começou como um rock pesado de garagem e se transfigurou em algo como dance music – como se fosse um híbrido”, explicou o músico na época. A surpresa em Colors é que o compositor trouxe uma nova mixagem para “Dreams” (além do single original), um pouco mais solta para as pistas.
Ao ouvir canções como “Seventh Heaven” e “I’m So Free”, percebe-se que o tipo de produção adotada por Beck é algo que chupinha referências de Mark Ronson e Jack Antonoff, por exemplo.
De fato, essa sonoridade foi antecipada há muito tempo por Beck em discos como Odelay (1996) e Modern Guilt (2008): entre o rock explosivo de arena e o pop banger, o compositor adentra terrenos que consagraram bandas atuais como Tame Impala e Maroon 5 como se estivesse recobrando a continuidade de sua linha do tempo.

Absorção ou território?
Seria, então, Colors a absorção que Beck fez do pop atual?
Acredito que não, porque todos os seus discos, por mais animados que sejam, refletem um potencial individual. Por exemplo, por mais que “Dear Life” pareça o tipo de pop que agrade a audiência da MTV, principalmente pelo humor do que muitos compositores traçariam como algo solitário, sobressai a diversão sobre o perrengue: ‘Querida vida, venha e me pegue/Querida vida, acho que o teu botão tá preso’.
Em clima de pretensa descontração, Beck dá mais ênfase à eletrônica em suas diversas hibridizações em “Up All Night”, boa canção que só peca pelo refrão disperso.
Para isso, ele compensa com a modulação do piano doo-wop como parte de volumosos ingredientes de seu pop, como faz em “Square One”.
Já em “No Distraction”, ele transfere a presença do piano para riffs de uma guitarra funky, enquanto surge como o crooner de um pop que instiga nossa ingenuidade.
Para Colors, Beck contou com a produção de Greg Kurstin, que trabalhou com Pink, Lily Allen e com Foo Fighters. O currículo de Kurstin, claro, enfatiza a busca pop que é soberba aqui, ainda que efêmera.
No retorno para a suposta fase rosa, Beck diverte e empolga, mas o recado que permanece é: antes dos muitos estouros pop, ele já havia experimentado, reprocessado e hibridizado tudo. Marcar território é necessário.
Outros lançamentos relevantes:
• St. Vincent: MASSEDUCTION (Loma Vista)
• Wu-Tang Clan: The Saga Continues (36 Chambers/eOne)
• Robert Plant: Carry Fire (Nonesuch)
• Django Bates / Anouar Brahem / Jack DeJohnette / Dave Holland: Blue Maqams (ECM)
• King Krule: The Ooz (True Panther)
