01 White Light/White Heat 02 The Gift 03 Lady Godiva’s Operation 04 Here She Comes Now 05 I Heard Her Call My Name
06 Sister Ray
Gravadora: Verve
Data de Lançamento: 30 de janeiro de 1968
Finalmente trago para esta seção meu disco preferido do The Velvet Underground. A história é a seguinte: o hoje revolucionário The Velvet Underground & Nico (1967), tutelado por Andy Warhol, não era visto dessa forma na época de lançamento e vendeu muito pouco. Diante da frustração, a banda rompeu com ele e deu um grande pé na bunda de Nico, que estava lá por imposição de Warhol.
Assim, Lou Reed e John Cale conseguiram transpor a melancolia irascível que pairava em cada um dos integrantes (incluindo o guitarrista Sterling Morrison e a baterista/percussionista Maureen Tucker). E nasceu aquele que talvez mantenha a auréola de disco de rock mais sujo dos anos 1960.
O que antes era charme decadente em canções como “I’m Waiting For the Man” e “I’ll Be Your Mirror”, em White Light/White Heat soa como um obscuro pesadelo – que fica ainda mais obscuro com a produção apropriadamente defasada de Tom Wilson (já bem experiente por trabalhar com Bob Dylan, Sun Ra, The Animals entre outros).
Escutando hoje, sabemos que o disco é a perfeita reprodução de um estado de espírito que beira o maligno, resultando numa música tão crua quanto experimental.
A faixa-título, que abre o disco, fala da confusão mental estimulada pelo ‘speed’ (entenda-se anfetamina). Os riffs de guitarra vão de encontro com a agilidade do piano, formando um boogie de cabaré que assimila a formação estética do rock anos 50 e o arremessa às escuras ruas de Nova York, incitando o bissexualismo (‘branco calor, aaaw, me excita até o dedo dos pés’) com uma sonoridade defenestrada e caótica.
O que pode ser pânico para os tradicionalistas, é a realidade de uma juventude que procurava coisas mais interessantes para se fazer, por mais que isso confrontasse os próprios preconceitos de cada um deles.
Em seguida vem a longa narração de “The Gift”. John Cale soa como um trovador arcaico entoando, com riffs inquietos de Reed como background, uma história de ‘amor’ que envolve curiosidade sexual com outros parceiros e decepções lisérgicas e sentimentais que terminam de forma trágica – coisa que já dá para se ter ideia ao longo da canção, que envolve microfonias, solos esparsos de guitarra e o vocal horror-beatnick de Cale que esparrama sangue e destruição àquilo que se associaria a Jack Kerouac.
Mais musical é “Lady Godiva’s Operation”, despudorada descrição de uma sádica ‘brincadeirinha de médico’ que termina com ‘uma cabeça que não move’. John Cale e Lou Reed fazem uso do conto de Lady Godiva, nobre britânica do século XIII que protestava sem roupa contra as taxações de seu marido. De acordo com o inglês algo-saxão da época, Godiva significava ‘presente de Deus’, que na canção do Velvet Underground serve como protótipo de uma arriscada e irresponsável experiência humana: ‘O médico chega com uma faca e um kit/Vê o crescimento de tanto repolho/Aquilo deve ser cortado/(…)O doutor está fazendo a sua primeira incisão’. Isso depois do suposto ‘doutor’ presenciar a garota ‘se definhando e contorcendo’ após lhe tacar éter.
O único lampejo de beleza está na brevidade de “Here She Comes Now”, melodia que seria mais explorada no álbum seguinte, The Velvet Underground (1969), já sem a presença de John Cale. Tal descrição contemplativa de pequenos personagens seria feita com mais liberdade por Lou Reed em seus trabalhos solos, principalmente em Transformer (1972).
Voltando para o que White Light/White Heat tem de mais sujeira pé-na-cova, “I Heard Her Call My Name” traz um dos melhores solos de guitarra de Reed. Explosivo, barulhento, sem firulas. Com direito a coros vocais que remontavam ao rock psicodélico – na canção que deu o prenúncio daquela que iria enterrar de vez a psicodelia.
Qual é a música? Lógico,”Sister Ray”.
Com 17 minutos, riffs entremeados a solos sujos mais aquele órgão barulhento de John Cale, a canção reúne histórias de casais e prostitutas que usam drogas apenas como estímulo para prazeres mundanos. Por ser Velvet Underground, logo se imagina que não há críticas contra os personagens – o que não os impede de criarem uma narrativa pesada (‘ela estava ocupada chupando meu ding-dong’).
Por que sepultamento da psicodelia? Já havia passado a hora de dizer que o uso abusivo de drogas ultrapassou o status ligeiro de ‘cool’ e ‘reação ao Vietnã’. Ela estava sendo hostil com os jovens, principalmente no cenário decadente de Nova York. O Velvet Underground usou de crueza e até mesmo de mensagens cruéis ao relatar o estado caótico de sua cidade de origem. O que era para ser uma divertida experiência de vida estava tornando os jovens cobaias de suas próprias irresponsabilidades.
Além de ser uma canção que não poupa ouvintes, a sonoridade de “Sister Ray” prolonga o sofrimento que advém da decadência. A canção é ótima, mas é também o espelho da depravação e do niilismo da época. Não lembro de vê-la citada como uma das melhores músicas da década, mas é, claramente, a música que melhor resume o fim de uma década.
Uma década que só tinha um previsível desfecho: a decadência.
