Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 11 de setembro de 2015

As primeiras quatro músicas de Selva Mundo são típicas de uma banda com potência e destreza. Os baianos do Vivendo do Ócio parecem preencher uma lacuna abstrata do rock nacional difícil de entender. Apoiam-se em muitas guitarras, cantam sobre temas genéricos e transitam por elementos populares dentro dos limites voz/guitarra/baixo/bateria (alguns diriam: sem perder a essência do rock. Eu digo: encapsulando em uma essência. Do rock.)

Quem encara o rock como um gênero despretensioso tem tudo para considerar Selva Mundo um álbum instigante, característica que o Vivendo do Ócio incorporou com vivacidade – e não com originalidade. E este é o X da questão aqui: ser uma banda adequada aos eixos FM, e com boa repercussão na MTV Brasil, parece ter limitado estes baianos a um discurso genérico que não defende nada com veemência, deixa tudo no ar de forma que se pode captar e aplicar para incontáveis situações que todos podemos passar. (Em “Prisma”, eles dizem: ‘Alguns me acham abençoado/Em cada sombra um condenado/Eu não sou santo e nem diabo’.)

Quem encara o rock como um gênero despretensioso tem tudo para considerar Selva Mundo um álbum instigante

No ponto de vista estratégico, essa postura faz sentido. Sendo genérico, é mais fácil se identificar com os ouvintes. Ao dizer, em “Prisioneiro do Futuro”, que ‘meu passado me condena’, vemos a banda usar um termo que cai bem a situações variadas na vida de um jovem. Mesmo o mais comportado já fez alguma coisa comprometedora, e a passagem do tempo para o futuro é uma incerteza constante em todas as fases da vida. Isso, no entanto, não torna a canção ruim. É, por outro lado, indício de um modelo de composição fácil de dar certo: algumas guitarras, bom refrão e temática abstrata.

“Prisioneiro do Futuro”, ao lado de “A Espera”, “Prisma” e “A Lista” compõe um rol de faixas potentemente sedutoras. Não é preciso ser fã de Vivendo do Ócio para deixar que os riffs das guitarras hard-rock de Jajá Cardoso e Davide Bori efetivamente batam bem no ouvido.

O que estas quatro faixas têm, que faltam nas demais?

“Beira do Mar” marca a ruptura por seguir um estilo mais aberto, mais ‘praieiro’. Natural que uma banda de Salvador cante assim. O incômodo paira naquela vibe alto-astral típica de tema de Malhação. “Carranca” acena para a música de roda, mas funciona melhor para a banda, que incorpora as raízes de sua terra natal, na formatação do que entende por pop, do que para o ouvinte: típica música de adolescente que passou por uma pequena dificuldade, e não sabe como encarar a maioria das adversidades.

Falta ao Vivendo do Ócio o choque do perrengue que dizem ter passado para chegar aonde chegaram. Carece aquela sensação de ter passado pelas situações impostas, para transmitir com certa fidedignidade.

Por isso mesmo as canções ‘estilo Foo Fighters’ da banda são mais cativantes. Então, voltamos àquelas quatro faixas: com exceção de “Porrada”, as demais parecem uma retroatividade do que a banda fez naqueles primeiros sons. A produção de Curumin, na teoria, seria essencial nas transições musicais pensadas para “Carranca” e “Salva!”, mas pouco oferece para que o Vivendo do Ócio finque uma marca musical com distinção.

Não é preciso entregar uma obra experimental/vanguardista para se desenvolver melhor. Pegada musical, bom lembrar, é diferente de criatividade musical. Para muitos grupos, é uma armadilha estarrecedora que pode chegar ao vício. O que falta é empregar com mais intensidade o verbo transformado em gerúndio no nome da banda.