Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 18 de março de 2016
Na mesma trilha que Emicida, Rashid demorou anos para lançar o primeiro álbum. E, também como ele, estruturou num formato musical híbrido, em que rimas se adequam a uma banda, com detalhes para os acordes e a cautelosa transição rítmica entre as faixas.
Mas, acaba aí o paralelo com o compositor de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013).
Primeiramente, as rimas de A Coragem da Luz partem de um vocábulo mais bem ponderado. Rashid abandonou as obviedades que preenchiam algumas mixtapes e afiou sua obra como o lapidar de uma escultura modernista, com atenção às formas.
Ele não nega as influências de You’re Dead (2014) e To Pimp a Butterfly (2015) nesta nova empreitada, e isso garantiu uma reformulação bem-sucedida no que tange ao formato de composição.
Os desajustes de piano em “Como Estamos?” enfatiza a crueza quase agressiva de quem não suporta mais o descaso social de hipócritas de ‘uma geração onde os pais enterram os filhos‘.
“A Cena” tem participação marcante de Izzy Gordon nos trechos finais; a canção une marcha a um som avant-garde, provando soberbamente que o rap nacional pode atingir novos patamares saindo de seu padrão de referências.
Musicalmente, A Coragem da Luz é ainda mais desbravador que os trabalhos de seus contemporâneos porque compreende técnicas inovadoras de estúdio (“Depois da Tempestade”, single com participação de Alexandre Carlo), o som orgânico entre o soul e o funk (“Homem do Mundo”, com participação de Criolo), além do cool-jazz, como o belo início em “Cê Já Teve Um Sonho”. Nesse quesito, a escolha pelo produtor Julio Mossil foi essencial para que o álbum transcendesse as comparações com as mixtapes anteriores.
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Para contextualizar a estética sônica de A Coragem da Luz é preciso entender que, muito provavelmente, Rashid anotou algumas coisas após ouvir Kendrick Lamar, Convoque Seu Buda (2014), RÁ! (2015) e Cores e Valores (2014) – inclusive, Mano Brown chega chegando numa das mais pesadas (e mais retrô), “Ruaterapia”, ao lado de Max de Castro.
O que realmente crava A Coragem da Luz entre um dos melhores discos de rap dos últimos anos, mesmo, é a qualidade das composições. Rashid continua falando de sua trajetória e de sua conexão com as ruas, mas demarca posição mais madura em relação aos assuntos que pincela: ele senta o pau nos discursos vazios que pedem a diminuição da maioridade penal (“Como Estamos?”) e se mantém ‘sem riso frouxo pra humorista que só se acha engraçado se fizer uma piada racista‘, como exclama em “Êxodo”.

Emicida extrai beleza da África em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
A sequência “Segunda-Feira” e “Futuro/No Meio do Caminho” é o resumo de uma trajetória pessoal que começa em sua data nascimento (21 de março de 1988), apresentando um rapaz tímido (‘Talvez o fato de eu falar tão pouco outrora/Seja o motivo de ter tanto pra dizer agora‘) que usou o tempo a seu favor para chegar onde queria, mas num ambiente pouco favorável – conforme ele contextualiza em “Futuro/No Meio do Caminho”, com guitarras roqueiras incendiárias (produção de DJ Caique) ao sentenciar: ‘Mas tá tudo ok/Tudo ok/É o futuro que eu herdei‘.
Já com 28 anos, Rashid mostrou proficiência ao absorver o mundaréu de formas e gêneros musicais em rimas que reforçam uma personalidade atrelada à persistência e ao contínuo aprendizado.
Na capa de A Coragem da Luz, o rapper olha para o lado esquerdo da paisagem, enquanto segue em frente com pés descalços: uma simbologia do observador que quer captar o máximo possível por onde passa.
