Gravadora: Pôr do Som
Data de Lançamento: 6 de março de 2016

Miriam Maria está apenas em seu segundo álbum solo, mas tem experiência e versatilidade de dezenas de outros trabalhos.

Quinze anos após Rosa Fervida em Mel, Miriam mostra que o papel da intérprete precisa de um requinte coletivo.

A beleza de Rama se torna mais aparente por causa dos arranjos. Na inédita “Bauhaus”, de Chico César e Tatá Fernandes, flautas e trombone transportam o ouvinte a um imaginário amazônico, distante dos centros urbanos e muito próximo à imensidão natural que compõe e influencia a arte que emana do nosso país.

Chico César é um dos grandes artífices do disco: pelo menos três canções do álbum são composições dele, incluindo “Na Rama”, adornada pelo violão de Danilo Moraes, circular e síncrono como o afluente de um rio, e a regional “Moer a Cana”, que ganha uma estética atmosférica que lhe aufere um ar misterioso.

Das cantoras brasileiras conhecidas no circuito da MPB, Miriam Maria se aproxima de Mônica Salmaso, só que sem o ‘compromisso’ com qualquer tipo de puritanismo. Ela enquadra a voz dela de acordo com a construção harmônica; se há efeitos eletrônicos, ela não vai propor uma ‘solução’ vocal – muito pelo contrário: vai seguir a corrente, apresentando uma serenidade, ou talvez o único canto possível para que o híbrido contexto musicado faça sentido.

Quando canta, em “Recipiente”, que é ‘uma areia do fundo do mar’, existe coerência: Miriam Maria absorve os múltiplos elementos das músicas regionais brasileiras, assegurando que a característica de cada uma delas não seja ‘danificada’ por suas particularidades. Um bom exemplo disso é “Capitão do Mato”, composição de Vicente Barreto e do veterano Paulo César Pinheiro. Nela, a dança da congada é ovacionada, com uma introdução de acordeom que conecta a cantora à música da mata pernambucana.

Miriam Maria já tocou com Arrigo Barnabé e Zeca Baleiro, mas ficou conhecida no circuito da vanguarda paulista ao integrar as Orquídeas do Brasil, grupo que acompanhava Itamar Assumpção.

Além de dedicar Rama ao Nego Dito, Miriam regravou uma faixa dele: “Filho de Santa Maria”, um maracatu com traços de jongo e capoeira. O peso da percussão (creditada a Simone Sou) toma os graves de assalto; as guitarras entram, incendeiam e o que Miriam faz? Deixa tudo rolar e aproveita os intermédios. ‘E eu?/E eu?/E eu?’, indaga. ‘Sou força do espírito’.

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