Gravadora: Sub Pop
Data de Lançamento: 14 de julho de 2017

Disco da semana: Quazarz vs. The Jealous Machines e Quazarz: Born on a Gangster Star, do Shabazz Palaces

Ao ouvir o álbum duplo do Shabazz Palaces, Quazarz, lembrei de imediato de “Amazing Journey”, principalmente neste trecho: ‘Venha viagem maravilhosa/E aprenda tudo que você deveria saber‘.

A música do The Who que introduz os devaneios de Tommy (1969) oferece um tipo de manual para entender por alto a pretensão desse duo de rap de Seattle. Natural que essa comparação saia do espectro do hip hop: o Shabazz Palaces não só é mantido por um selo indie (Sub Pop), como também parece adequado a um público mais interessado nesse lado, digamos, mais cósmico do gênero.

Nesse quesito, o Shabazz Palaces não é bem um pioneiro. Décadas antes, Breaking Atoms (1991), do Main Source, provou que o espaço tinha muito a influir nas rimas. O próprio projeto de um dos membros do Shabazz, Ishmael Butler, já se provou o alternativo do alternativo ainda nos anos 1990 com o Digable Planets, totalmente fora de uma órbita do rap machista e violento predominante.

O termo ‘rap alternativo’ ainda é falho demais para o Shabazz Palaces. Num termo que abriga MF DOOM, Aesop Rock, Cannibal Ox e afins há pouco espaço para medleys espaciais, drones, rimas com bases de IDM, enfim, tudo aquilo que caracteriza o duo como um dos atos mais estranhos de seu tempo.

2 que poderiam ser 1

Quazarz é separado em dois álbuns, mas que poderiam ser um só.

Quazarz vs. The Jealous Machines, mais voltado ao nosso planeta com músicas que vão do perfil de um ególatra (“Love in The Time of Kanye”) a uma pequena anedota sobre um cara que quer apresentar a mulher dele pra família (“Atlantis”).

Quazarz: Born on a Gangster Star é tão intergalático como o nome pressupõe. Difícil traçar elementos que expliquem essa viagem, mas pense em algo como a junção de Maggot Brain (1971) e as experimentações de James Ferraro ao ouvir “Since C.A.Y.A.” e “Parallax”.

A infinitude do universo é captada pelas batidas que parecem asteroides se colidindo. Em muitos momentos até a voz de Butler parece vir de outra galáxia, mas as preocupações do Shabazz Palaces estão bem sedimentadas aqui no planeta Terra – ou pelo menos o que imaginamos dele nas telas de smartphone, nas redes sociais, nas séries do Netflix.

Interplanetário, mas voltado à Terra

Esse olhar à atualidade chega a ser decepcionante para um grupo que aterrissa a anos-luz de distância quando o assunto é referência estética.

Aí vale a pena prestar atenção na narrativa, por mais que esse seja um costume incomum de ouvintes brasileiros.

Algo que dizem pouco do Shabazz Palaces: sua forma humorística de abordar tais assuntos. Em “Shine a Light”, Butler diz: ‘Ela disse que sou muito profundo e desatou a dormir‘. Da banalidade de não prestarmos atenção naquilo que achamos complicado demais, o Shabazz Palaces usa como exemplo o crônico déficit de atenção que permeia uma sociedade repleta de informações e dispositivos.

O termo ‘quasar’ significa fonte de radiofrequência cósmica. Ao juntar a essência dos discos, a mensagem que sobressai é a visão de dois outsiders em outra localidade.

Discos anteriores como Lese Majesty (2014) e Black Up (2011) mostraram que mesmo com pés na Terra a cachola do Shabazz Palaces tava bem longe. Ao se distanciar assim, a mensagem críptica é reforçada e o oculto senso de alerta ganha outra tonalidade – cósmica, subjetiva e mais interessante que muitas outras letras de rap que você se depara por aí.

Outros lançamentos relevantes:

Waxahatchee: Out in the Storm (Merge)
Boris: Dear (Sargent House)
Cyrus Chestnut: There’s a Sweet Sweet Spirit (High Note/Highnote Records, Inc.)
Charles Lloyd Quartet: Passin’ Thru (Blue Note)