Gravadora: Aftermath/Interscope (Top Dawg Entertainment)
Data de Lançamento: 16 de março de 2015

Rapazes sentirão falta dos graves sonoros. As mulheres, da autoridade discursiva de quem sabe injetar filosofia nas ruas.

To Pimp a Butterfly não é bem um disco para afeiçoados ao hip hop: Kendrick Lamar transcende a justiça poética de suas rimas e ultrapassa as trincheiras dos samplers e das rimas rápidas numa busca espiritual, traduzida em maior pluralidade estética.

Sim, o terceiro disco de Kendrick é para ecléticos. Melhor, para ouvintes habituados à diversidade da música negra norte-americana, que vai do soul cósmico de “Momma” ao free-jazz de “For Free?”, levada a uma bateria meio Rashied Ali com baixo à lá Charlie Haden. Em seguida, o sloppy-funk de “King Kunta”. Cool-jazz em “Alright” (belo acerto da produção de Pharrell). R&B suave em “You Ain’t Gotta Lie (Momma Said)”.

Isso torna o disco um exercício estranho e extravagante de audição, desprovido de appeal comercial. 

Flertamos com o ego de um dos poucos músicos que fariam Kanye estremecer – e, nesse quesito, “i” deve ter causado choque por render dois Grammys a Kendrick no ano passado, por Melhor Música de Rap e Melhor Performance de Rap.

Crescer na vida e na carreira sugere complexidades imprevisíveis. Como qualquer outro humano, Kendrick não as doma: mostra-as com ardor e faz questão de endossar seus valores pessoais

Na proposta de To Pimp a Butterfly, “i” é a superação de Kendrick ante a desolação que paira em “u”: ‘Eu amo a mim mesmo/Quando você olha pra mim/Me diga o que você vê?‘. Isolada, soa ególatra, principalmente quando não se atenta à segunda parte da música, em que o rapper, diante de uma audiência atônita, faz um som à capella rememorando um grande amigo que faleceu, a alma de Charlie Parker e outras perdas pouco mencionadas na comunidade negra. Cai a ficha: não é ego; é superação – superação muito necessária, por conta da desolação deste verso: ‘O mundo não precisa de você/Não deixe que ele o engane‘.

O contraponto existente entre “u” e “i” resume parte do comportamento violento estampado na capa de To Pimp a Butterfly, que mostra diversos manos domando a Casa Branca.

Na primeira estrofe de “u”, Kendrick soa beligerante e exasperado, berrando aos quatro cantos: ‘Amar vocês é complicado’. Na segunda estrofe, impera a famigerada voz abafada do rapper, como se fosse sua consciência, culpando-o pelas adversidades de sua família, de sua comunidade, por ter se ‘vendido’… É um dilema usual a um jovem negro que ascendeu comercialmente. A resposta é similar à de Tupac Shakur em Me Against The World (1995): se ele tem o apoio da família, de seus semelhantes e das ruas, ‘foda-se o mundo’, como diz uma de suas melhores músicas. (Ainda que seja circunstancial, devido aos 20 anos de um dos maiores clássicos do rap, a comparação também tem lá sua conotação comercial: afinal de contas, tanto Me Against The World quanto To Pimp a Butterfly são da mesma gravadora, Interscope.)

É preciso que Kendrick Lamar questione sua posição no mundo e encontre a rápida solução de seguir em frente após “u”, em “Alright”: ‘Fomos feridos, já caímos antes/Nigga, quando nosso orgulho tá lá embaixo/Olhamos para o mundo e dizemos: ‘Para onde vamos?’/(…)Mas nós iremos ficar bem‘.

Isso não quer dizer que, entre “u” e “i”, o disco é desprovido de baixas emocionais. Em “For Sale?”, os demônios pessoais voltam a assombrar. “Momma” mostra o ego levando o músico ao lado obscuro da força; ele descamba para a adrenalina e acaba se lascando no final.

Em termos, a trajetória de To Pimp a Butterfly remonta a good kid m.A.A.d city (2012) por mostrar que os paradigmas são infindáveis. 

Kendrick saiu de Compton e encontrou um mundo igualmente desvanecido. As resoluções encontradas para solucionar problemas com drogas, bebidas e prostitutas não são muito diferentes das resoluções a que Kendrick recorre em discussões como autoafirmação, sua posição na sociedade e o preconceito racial contra os negros.

Kendrick Lamar nos oferece uma perspectiva complexa dessa militância tão intrínseca ao hip hop. Recorre às tax protests ao citar o ator Wesley Snipes, preso entre 2010 e 2013 por fraudar impostos (estes protestantes dizem não pagar ao Governo porque esses valores não retornam a eles). Por outro lado, “Institutionalized”, com participação de Snoopy Dogg, Anna WiseBilal, sentencia: ‘Se eu fosse o presidente/Pagaria o aluguel de minha mãe/Libertaria meus manos/Deixaria meu Chevy à prova de balas/Deitaria na Casa Branca e ficaria chapado, Senhor‘.

“The Blacker The Berry”, no entanto, é o grande embate de Kendrick Lamar aos preconceituosos. Sua voz agressiva impõe seu posicionamento; atropelando quem o chama de ‘maior hipócrita de 2015‘, recobra independência, autossuficiência e, mais importante, respeito: ‘Sei que você me odeia o tanto quanto odeia a si mesmo‘. Apesar de simular o ódio, é contra o ódio que Kendrick exibe suas entranhas. O gancho puxado pelo jamaicano Assassin remonta ao Yeezus (2013) que Kanye jamais poderia ser (vale lembrar que o mesmo Assassin contribuiu em “I’m in It”: nada que se compare a esta gema).

Crescer na vida e na carreira sugere complexidades imprevisíveis. Como qualquer outro humano, Kendrick não as doma: mostra-as com ardor e faz questão de endossar seus valores pessoais. Por mais que seja estranho e minimamente oportunista, o papo que Kendrick tem com Tupac em “Mortal Man” aponta que nossas ações e nossos valores têm que ser heroicos. To Pimp a Butterfly não veio para salvar o mundo, mas para nos mostrar que nossas utopias e ideais, mesmo que confrontados, devem permanecer conosco. Eis a trilha que os negros dos Estados Unidos devem recorrer diante do preconceito cada vez mais evidente após as tragédias de Ferguson e State Island.