Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 1º de fevereiro de 2017
O rapper de Volta Redonda (RJ) Thiago Elniño já está puto com o sistema muito antes da crise política e econômica do país.
O foco dele é o social, e isso já anda nas pelejas há mais de 500 anos.
Por isso sua música é consciente, combativa, um puxão de orelhas. Na primeira faixa do álbum A Rotina do Pombo – sucessor de Fundamento (2015) -, “Bom Dia”, seu cumprimento dá um exemplo de chegada com notícias nada agradáveis.
É importante observar dois pontos da música de Elniño: ele é pedagogo e um grande opositor da ideia de que vivemos em um país livre de preconceitos.
Desde que lançou “Amigo Branco”, em 2013, ficou latente um posicionamento rígido contra os estratos sociais.
Para A Rotina do Pombo, o músico criou um personagem sem nome. É a forma que o rapper encontrou de dar voz a um anônimo diante de uma “estrutura racista”, onde “sempre vai ter uma força que te empurra para o seu lugar de origem no aspecto ideológico”, como disse em entrevista ao Livre Opinião.
Pelo fato de ser negro, essa origem está presa à associação escravista.
O grande problema para Elniño é a distorção de identidade pregada às escondidas. Em “Condado dos Surdos”, com participação dos músicos do Medulla, ele critica as duras jornadas diárias de trabalho, criando um monte de soldados perdidos na guerra: ‘Nos educaram errado, nos fizeram esquecer/Do que a gente é/Do que a gente pode ser’.
“Trabalhar Sem Comer” é claro exemplo de que o enfrentamento social é uma bandeira que deveria ser hasteada por todos que sofrem com o mercado de trabalho excludente. ‘Recompensa nem sempre é salário/Liberdade nem sempre é dinheiro’, diz a canção, dando pequenos exemplos de como o mercado só opera a favor do próprio mercado. (De qualquer forma, trabalhar é a uma forma de resistência, já que tem mais a ver com sobrevivência do que modo de vida para a maioria das pessoas.)
“Pedagoginga” é um ataque direto ao sistema de ensino. Ele utiliza um exemplo empírico: conta que o hip hop e a afrorreligião ensinaram muito mais que os muros da escola – ‘que não conta minha história, na verdade me mata por dentro’.
Questionador, nevrálgico e revoltado: este é o som característico de Thiago Elniño. A Rotina do Pombo é seu armistício mais pesado até agora, propondo reflexão de toda a cultura negra e fazendo pesada análise da forma como nos organizamos enquanto sociedade.
Ouvidos antenados, consciência tranquila e atenção: há muito o que se extrair.
Outros lançamentos relevantes:
• Sampha: Process (Young Turks)
• Moon Duo: Occult Architecture Vol. 1 (Sacred Bones)
• Vários Artistas: T2: Trainspotting Original Soundtrack (Interscope/Polydor)
