Gravadora: Ná Music
Data de Lançamento: 23 de junho de 2016
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Banzeiro é aquela onda provocada por barcos que passeiam pelo Rio Amazonas. Esse vulto marítimo pode ser efêmero, mas não deixa de causar forte impressão inicial. Ele agrava a despedida, ou dá uma ponta de esperança de retorno.
O carimbó de Dona Onete também passa um pouco dessa impressão. Mas, não é nada efêmero.
Desde que Feitiço Caboclo (2011) impactou por sua abordagem regional de longo alcance, a cantora de 77 anos recebeu um culto tardio que condiz com sua importância. Em tempos em que a música paraense passa por um processo de redefinição, Onete insiste na naturalidade dos boleros (“Coração Brechó”), no frenesi dos carimbós (“Tipiti”) e até mesmo na freneticidade do banguê (“Na Linha do Arco-Íris”), pra citar alguns poucos.

Pio Lobato expande o contexto da guitarrada em álbum homônimo
O ritmo dançante da música de Onete é envolvente, mas se caracteriza por seu apego aos traços culturais paraenses. Citadinos certamente estranharão, por exemplo, o termo “Tipiti” – um espremedor de palha usado por ribeirinhos da Amazônia para escorrer e secar as raízes da mandioca. No Pará, o uso do tipiti foi iniciado por tribos do Parakanã. Na canção de Onete, além de fornecer interessante jogo fonético, o tipiti é aproveitado para iguarias como ‘a cruêra e o gostoso tucupi’.
“No Meio do Pitiú” faz referência ao fedor do peixe, misturado ao cheiro de maresia. A música é um carimbó malandrão que leva em conta as especificidades climáticas: a chuva ajuda a trazer o cheiro, que passa a ser predominante na vida de quem mora na região. Sem se importar com isso, Onete diz que isso não impede que ela fique bem na foto de qualquer jeito – e, por fim, agradece os peixeiros, que ajudam a levar “peixes maravilhosos” aos paraenses.
A musicalidade de Pio Lobato mais uma vez obedece ao ritmo de Onete – pra lá de fervoroso, diga-se de passagem. As pontuações do saxofone de Daniel Serrão em “Faceira”, por exemplo, dão um peso grave a um som pra ser apreciado com boas pisadas em salão. Quem assume o instrumento em “No Sabor do Beijo”, praticamente um arraiá, é Harley Souza, também de forma pontualíssima.
Sedução é um tema bastante recorrente na música de Onete. Pra externar esses chamegos ela opta por baladinhas a dois – como em “Proposta Indecente”, onde ‘apostei todas as cartas no jogo do amor’, ou na séria e nostálgica “Sonhos de Adolescente”, em que a intensidade brigava contra a dura realidade de tempos difíceis. O piano, tocado por Zé Neto, transporta o ouvinte a uma época romantizada pela cantora, que mistura poesia e emoção, citando Elvis Presley, Cauby Peixoto e Angela Maria.
Patrocinado pelo Natura Musical, Banzeiro está inicialmente disponível apenas pelo Deezer. Em breve, deve entrar nas demais plataformas.
Outros lançamentos relevantes:
• DJ Shadow: The Mountain Will Fall (Mass Appeal / Relativity)
• Marquis Hill: The Way We Play (Concord Jazz)
• Sérgio Machado: Plim (Independente)
• Daedelus / Kneebody: Kneedelus (Brainfeeder)
• Christian Fennesz & Jim O’Rourke: It’s Hard for Me to Say I’m Sorry (Editions Mego)
