
Durante as sessões, Miles Davis inspirava os músicos mais jovens a contrapor as notas, em busca de mais liberdade
Muito além de ser um grande disco na obra de Miles Davis, Filles de Kilimanjaro representa uma transição do trompetista para algo mais elétrico. Vamos contextualizar: Miles entrou para a cena em 1945, tocou bebop com Charlie Parker. Decidiu trilhar o caminho da suavidade com notas mais espaçosas em The Birth of Cool, criando o cool jazz. Tempos depois, revolucionou ao deixar pra trás o establishment em busca do improviso com Kind of Blue, com o seu primeiro grande quinteto em 1958.
Todas as composições do álbum são assinadas pelo trompetista que, para afinar ainda mais o grupo, teve que compor as notas de baixo da maioria das faixas por Dave Holland
Depois de um breve hiato (e muitos álbuns lançados), Miles Davis retornou por volta de 1963 para compor aquele que seria o seu segundo grande sexteto. Como era de praxe, chamou músicos novos para testar suas habilidades em sempre ir mais além daquilo que poderiam fazer. Herbie Hancock, chamado aos 18, e Tony Williams, aos 17, contribuíram com toda a sua energia no piano elétrico e bateria. Esse pano de fundo era essencial para que Miles pudesse explorar notas mais abstratas para fugir das referências ocidentais.
Os pianos elétricos de Hancock soam como uma chuva de objetos metálicos em “Frelon Brun”, tema inicial do disco. Ainda que fosse apenas parte dos experimentos que culminariam na fase elétrica, os pianos elétricos ainda estavam amaciados pela crueza do piano acústico, que predomina em “Tout De Suite”.
Por mais que Wayne Shorter não tivesse a mesma liberdade estética de John Coltrane no sax tenor, suas notas representavam mais o esforço de um jazzista promissor que estava buscando outros caminhos, do que mesmo de um amador. De fato, Filles De Kilimanjaro seria o último álbum em que ele tocaria tenor – partindo para o soprano daí pra frente com o quinteto.
Para gravar Filles, Miles Davis utilizou boa parte da essência orquestral de Gil Evans, que chegou a dizer que deveria ter recebido os créditos por “Petits Machins”. Todas as composições são assinadas pelo trompetista que, para afinar ainda mais o grupo, teve que compor as notas de baixo da maioria das faixas por Dave Holland.
Dave explicou o processo de gravação do disco: “Miles me dizia: ‘Ok Dave, você toca sua linha de baixo aí. Chick Corea [pianista que tocou em algumas faixas e que viria a integrar o grupo de Miles posteriormente], agora é a sua vez. Toque de forma que contraponha isso’. E no final das sessões, Miles tinha todos os takes da faixa e adicionava com outros takes… todas as gravações que fizemos foram bem editadas”.
Era como se Miles Davis tivesse um laboratório de experimentos e colocasse todos para fazer um brainstorm científico. Depois, ele fazia uma espécie de colagem e editava o álbum. Durante toda a sua fase elétrica ele fez isso, instigando os músicos a buscarem notas ocultas, que funcionassem como uma espécie de anarquia estética durante as sessões.
Apesar de não ter revolucionado o jazz esteticamente, Filles de Kilimanjaro tem seu crédito por ser um disco transitório para o ‘Electric Miles’ de In A Silent Way e Bitches Brew. Sem falar que mostra o sexteto em um ótimo ritmo: a fúria de Tony Williams na bateria, uma suavidade soturna que atinge graus cinematográficos (vide a faixa-título) do trompete de Miles, as pitadas hormonais nos pianos de Hancock, o contrabaixo flutuante de Ron Carter (e Dave Holland em algumas faixas) e os experimentos de Wayne Shorter no tenor. Não tem porque não se configurar como uma das muitas obras-primas de Miles Davis.
Ouça Filles de Kilimanjaro na íntegra:
