Década que mudou totalmente os parâmetros de difusão da música. Década que impulsionou a derrocada da indústria fonográfica. Década em que bandas independentes ganharam mais espaço no cenário mainstream.
Os anos 2000 foram tudo isso e muito mais. Foram anos de música boa ganhando mais espaço, ainda que as rádios continuem se definhando ao som de sertanejo universitário, pagode, axé e funk carioca/proibidão. Afinal, foi durante esse período que o rádio perdeu o espaço de principal divulgador da boa música. A internet veio e acabou dominando geral.
De janeiro de 2000 a dezembro de 2009, o Nação Zumbi se virou para se recolocar no cenário com a morte de Chico Science em 1997, Céu conquistou os Estados Unidos e a Europa com seu canto malemolente, Racionais quebrou um silêncio de cinco anos desde Sobrevivendo no Inferno (1997), o folk invadiu a cena tendo como principais expoentes Mallu Magalhães e Vanguart, o Los Hermanos provou para o público que é uma banda espetacular…
Um pouco de toda essa novidade musical está catalisada na lista do Na Mira dos 50 melhores discos nacionais da década de 2000. Ah, e sinta-se à vontade para fazer a sua lista nos comentários.
50. Música Para Beber e Brigar
Matanza
Ano: 2003
Gravadora: DeckDisc
Gênero: Hard Rock
‘Não te peço consideração/você tem ou não’, diz o thrash vocalista Jimmy em “Pé na Porta, Soco na Cara”, canção que abre o segundo disco dos cariocas do Matanza. Com muitas guitarras, bate-cabeça vigoroso e forte energia, Música Para Beber e Brigar é uma sucessão de letras descompromissadas que falam de brigas em bares, pingas malditas, ressacas bravas, ‘semanas sem dormir’… Coisas de vikings modernos. O Matanza se destacou por sua despretensiosa mistura de rock pesado com toda a insipidez do country norte-americano – com claras influências do Motörhead. Um disco pra ouvir com um barril cheio de cerveja!
Faixa: “Pé na Porta, Soco na Cara”
49. Condom Black
Otto
Ano: 2001
Gravadora: Trama
Gênero: Samba/Candomblé/Experimental
Otto foi um dos primeiros músicos a arriscar uma transfiguração do samba com o lançamento de seu primeiro disco, Samba Pra Burro (1998) – indo ainda mais além que os conterrâneos do Mundo Livre S/A, que revolucionaram com Samba Esquema Noise (1994). Em seu segundo disco, o pernambucano colocou ritmos originários do candomblé com produções eletrônicas, realizando uma experiência que pode ser tão flutuante como confusa. De “Dilata” a “Basquiat”, não tem nada aqui dentro dos eixos: “Anjos do Asfalto” une referências imagéticas do candomblé com os mangueboys-junkie do Recife; “Street Cannabis Street” trafega por linhas etéreas, mas logo confunde tudo com uma produção esfuziante que vem dos sintetizadores; “Condom Black”, a música, é terreiro puro, é ‘pau, é cu, é buceta’, como canta o músico. Participam do disco Nação Zumbi, Luciana Mello, Fernanda Lima e muitos outros.
Faixa: “Anjos do Asfalto”
48. Vanguart
Vanguart
Ano: 2007
Gravadora: Tratore
Gênero: Folk/Rock
Um disco que veio na contramão de toda a estética rock nacional. Se, por um lado, alguns fãs ainda enxugavam as lágrimas por não obterem nada de novo do Los Hermanos desde o fraco Quatro (2005), outros ainda procuravam motivos para reverenciar as bandas da década de 80. Por isso mesmo, o surgimento do Vanguart foi o feliz momento em que começou-se a perceber que grupos alternativos podem atingir a mesma expressividade de nossos longínquos ídolos. Pegue uma canção como “Semáforo” ou “Cachaça”, por exemplo: são composições complexas e sérias, estruturadas por uma estética refinada pelo country-folk norte-americano. Influenciado por Neil Young e Bob Dylan, Hélio Flanders mostrou-se, em pouco tempo, que é um dos grandiosos compositores de nossa geração, seja com músicas em português ou em inglês.
Faixa: “Semáforo”
47. Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até que Eu Cheguei Longe…
Emicida
Ano: 2009
Gravadora: Independente
Gênero: Rap
Mais longe ele chegaria depois, a verdade é essa. Fato que este primeiro registro de Emicida é mais representativo do que qualquer outro disco nacional: mostrou como o rap tem forte influência na internet, e vice-versa. O clipe de “Triunfo” fez jus ao nome; aquela legião de fãs que acompanhou as divertidas batalhas de rap pelo YouTube ficaram surpreendidos com as agulhadas necessárias de Emicida, que alfinetou o rap e os rappers ao afirmar sem medo que o gênero estava definhado e precisava se reciclar urgentemente. ‘Quem pensar pequenininho, tio, vai morrer sem’, canta o músico. Tem que invadir a rua e invadir a rede – este é o ensinamento-mor de Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro…
Faixa: “Triunfo”
46. Carnaval Só Ano que Vem
Orquestra Imperial
Ano: 2007
Gravadora: Ping Pong/Som Livre
Gênero: Gafieira
Uma trupe de 19 músicos de renome na cena carioca: do roqueiro Rodrigo Amarante (Los Hermanos) ao lendário baterista Wilson das Neves, a Orquestra Imperial também tem como integrantes Kassin, Moreno Veloso, Domenico, Jorge Mautner, Nina Becker, Thalma de Freitas e muito mais. Desde o início, a ideia do grupo é juntar uma galera fraternal para tocar canções que habitam o imaginário da formação musical de cada um deles. As coisas foram acontecendo e, logo, surgiu o convite da França para que a turma gravasse um disco de inéditas. Cada canção aqui é um momento – e elas foram gravadas duma vez só, de forma descompromissada (com produção de Mário Caldato Jr.). “Salamaleque”, “Ereção” e “Ela Rebola” suscitam momentos festivos com sambas e boleros. Também há canções mais serenas, como “De Um Amor em Paz” e “O Mar e o Ar”, que segue numa linha jobiniana.
Faixa: “Ereção”
45. Audio Architecture 2
DJ Marky
Ano: 2001
Gravadora: Trama
Gênero: Drum’n Bass
Certamente um dos discos de música eletrônica que mais escutei na vida. Mas ele não veio parar aqui apenas por esse motivo pessoal: na verdade, ele é bom mesmo! Começa com o fervoroso “Riptide”, do CCBC, já emendando com a conhecida “Carolina Carol Bela”, que conseguiu fazer com que a voz de Jorge Ben e o violão de Toquinho continuassem límpidos em meio às batidas de drum’n bass assinadas por Marky e XRS. “Shake It”, do Shy FX, é tomada de assalto por backing vocals que evocam a disco music. Marky registrou aqui também a etérea flutuação do High Contrast em “Make It Tonight”, daquelas de arrancar lágrimas de tão bonita que é. Excelente compilação de um dos maiores DJs brasileiros, que já influenciou muita gente com o programa que mantém na rádio Energia 97 FM.
Faixa: “Carolina Carol Bela” (Remix)
44. A Procura da Batida Perfeita
Marcelo D2
Ano: 2003
Gravadora: Sony
Gênero: Samba/Rap
Quando o Planet Hemp selou seu fim, ficou aquele clima de incerteza. Será que voltaria? Hoje sabemos que não. Mas, quando Marcelo D2 lançou este disco, provavelmente já tinha em mente que PH era passado distante. Apesar de ser seu segundo disco solo, em A Procura da Batida Perfeita (analogia ao clássico Looking For a Perfect Beat, de Afrika Bambaataa) Marcelo D2 abraçou de vez sua influência Bezerra da Silva com o hip hop carioca, estabelecendo uma outra ramificação para o gênero. Foi o primeiro passo para consolidar sua bem-sucedida carreira solo, apesar dos muitos deslizes cometidos. Este álbum é um registro sincero e estabeleceu uma importante ponte entre públicos. O rap entrou para o pop a partir do momento em que a classe média alta entoou com estranho orgulho versos de “A Maldição do Samba”, “Qual É?” e “Loadeando”.
Faixa: “A Maldição do Samba”
43. Fome de Tudo
Nação Zumbi
Ano: 2007
Gravadora: Deckdisc
Gênero: Manguebit
Seria Fome de Tudo uma ponte entre o manguebit e o pop rock? Pode-se dizer que sim, já que foi o primeiro disco que a NZ gravou depois de romper com a Trama. No entanto, o grupo já havia se consolidado no país como um dos maiores de sua geração. Ou seja, não haveria riscos de um declínio artístico. Jorge Du Peixe, um frontman que sabe evocar multidões com seus vocais, continua poderoso em petardos como “Bossa Nostra”, “Nascedouro” e “Toda Surdez Será Castigada”. O backing vocal de Céu em “Inferno” é coisa bonita de se ouvir e não tem como não deixar de lembrar dos trejeitos icônicos de Chico Science com a brincadeira feita em “Assustado”. “No Olimpo”, faixa que encerra o disco, é uma das composições mais maduras do Nação.
Faixa: “Inferno”
42. Movimento
Banda Black Rio
Ano: 2001
Gravadora: Abril
Gênero: Soul/Funk
Maria Fumaça (1977) é um dos discos mais emblemáticos de toda a música brasileira, por trabalhar com intensidade a certa mistura de soul, samba, gafieira e elementos africanos. Quando William Magalhães propôs em 1999 o retorno da BBR (que havia encerrado as atividades com a morte de seu pai Oberdan Magalhães em 1984), percebeu que era possível inserir outras nuances da black music dentro do grupo. Para que tudo desse certo, eles chamaram um mestre do soul brasileiro: Cassiano, que deu os toques necessários seja na voz de Trick ou nos pianos de William, que assina com maestria a direção musical. O arranjo de metais é cheio de vida e pulsação: dá vontade de montar um baile black no ato da audição. Também participam deste belo disco o produtor Liminha (Os Mutantes), Armando Marçal (Paul Simon, Caetano Veloso, Elis Regina) e Cláudio Zoli (Cassiano). A aprovação de todos que viram o ressurgimento da BBR foi praticamente unânime.
Faixa: “Nova Guanabara”
41. Céu
Céu
Ano: 2005
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: MPB/World Music
Um disco introspectivo e chique. Esteticamente, o debut de Céu não tem nada de novo, mas mostra uma cantora de potencial que soube muito bem trabalhar a brasilidade em sua música. Temos aqueles vocais desconcertantes que vêm da mesma escola de Bebel Gilberto, além da produção inusitada de Beto Villares e os scratches muito bem interpolados por DJ Marco. “Malemolência” ainda hoje é um hino que não pode faltar em suas apresentações, mas ela também faz bonito em “Roda”, “Mais Um Lamento” e até mesmo no cover de “Concrete Jungle”, que atravessa fronteiras musicais das influências de Bob Marley ao aproximar-se mais de sua fase “Simmer Down” (início de carreira) que Catch a Fire (1973).
Faixa: “Malemolência”
40. São Paulo Confessions
Suba
Ano: 2000
Gravadora: Instituto Suba
Gênero: MPB/Lounge/Acid jazz/Experimental
Para transpor todo o ambiente caótico de São Paulo em um disco, tem que ser fera. O músico de origem iugoslava Mitar Subotic faleceu em 1999 e não teve tempo de ver o resultado deste poderoso álbum que melhor reflete a sonoridade da megalópole. Suba – pianista, compositor e programador que já tocou com Hermeto Pascoal, Marina Lima, Arnaldo Antunes, entre muitos outros – trouxe músicos inusitados e experientes para tentar reproduzir a insanidade de São Paulo em um disco que mistura elementos da MPB com eletrônica, lounge, carimbó, manguebit, psicodelia. Participam do disco a então novata cantora Cibelle, o titã Arnaldo Antunes, o grandioso baterista João Parahyba, além de Katia B. e Taciana. Todas as músicas do disco foram compostas pelo próprio Suba – com exceção de uma híbrida versão de “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, adornada por timbres melancólicos, batidas de drum’n bass e um piano econômico. São Paulo é dor, é correria, é mistério. O que você imaginar da cidade, vai encontrar em pelo menos uma canção de São Paulo Confessions.
Faixa: “Samba do Gringo Paulista”
39. Pareço Moderno
Cérebro Eletrônico
Ano: 2007
Gravadora: Phonobase Music Services
Gênero: Neotropicalismo/Rock Alternativo
Para Tatá Aeroplano e companhia, ser moderno é um conceito. Para não se afugentar de suas próprias influências, a banda surpreende nos arranjos bebendo da fonte da Jovem Guarda, Tropicalismo e Bob Dylan. Legal também é perceber a idiossincrasia que se sobressai em cada faixa do segundo disco da banda paulistana. Em “Bem Mais Bin que Bush”, Tatá canta alegremente que prefere ficar do lado do tão misterioso Oriente do que dos ideais imperialistas dos norte-americanos. “Dê” é adornada por instrumentos de sopro, até que a voz por vezes zombeteira de Tatá subverte a beleza para algo mais sincero. Uma brincadeira que deu muito certo: afinal, hoje o Cérebro Eletrônico se destaca como uma das melhores bandas de rock alternativo no Brasil.
Faixa: “Os Astronautas”
38. Idem
Móveis Coloniais de Acaju
Ano: 2005
Gravadora: Tratore
Gênero: Ska/Latina
Escutar um disco como Idem é liberar energias adormecidas há tempos. Mas, para a experiência com o Móveis Coloniais de Acaju ser completa, você não pode deixar de ir a um show deles. Essa vigorosa big band de Brasília trabalha elementos como ska, música irlandesa e latina com letras divertidas e boas doses de referências ‘cult’. De perder peso para impressionar no casamento da cunhada (“Perca Peso”) ao rock venenoso que enxerga o sadomasoquismo como um petardo divertido (“Sado-Masô”), o Móveis cita Gorbachev (“Copacabana”), faz uma alusão ao personagem central de A Metamorfose, de Franz Kafka (“Gregório”), e coloca o coração para aluguel em “Aluga-se-Vende”. Em sua música, o Móveis promove uma testosterona de influências que querem se expelir de alguma forma. Então, que seja do modo mais festivo possível!
Faixa: “Copacabana”
37. Uma Tarde na Fruteira
Júpiter Maçã
Ano: 2007
Gravadora: Monstro Discos/Elefant Spain
Gênero: Acid Rock
‘Bem-vindos à marchinha niilista’, inicia Flavio Basso – aka Jupiter Maçã – na abertura “A Marchinha Psicótica do Doutor Soup”. Com produção de Thomas Dreher, o quarto disco do ‘grupo de um cara só’ foi lançado primeiramente na Espanha, com algumas faixas de Plastic Soda, de 1999. Apesar do sucesso parcial de A Sétima Efervescência, de 1996, aqui o Júpiter Maçã soa mais psicodélico e misterioso do que em seus registros anteriores. Ele cita Woody Allen e chega a fazer uma espécie de ode à fase oriental de George Harrison em “Beatle George”, além de pegar resquícios dessa influência em “Plataforma 6”. Como já fez nos trabalhos anteriores, revisita Os Mutantes na tropicalista “Síndrome de Pânico” e, na divertida “As Mesmas Coisas”, simula um pé-na-bunda do companheiro após uma alucinada experiência com ácido.
Faixa: “As Mesmas Coisas”
36. A Invasão do Sagaz Homem Fumaça
Planet Hemp
Ano: 2000
Gravadora: Sony
Gênero: Rock/Hip Hop/Ragga
O rock como nunca se viu! A crítica especializada sempre elogiou grupos que trabalhavam a sutileza para vociferar assuntos que estavam intalados na garganta de qualquer brasileiro. Bom, o Planet Hemp entrou e subverteu tudo com suas letras diretas, ríspidas, apologéticas. Usuário causou em 1995 por estremecer com as canções que todo mundo conhece: “Não Compre, Plante!”, “Mantenha o Respeito” e “Legalize Já”. Agora, em questão de produção e agressividade, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça soa mais poderoso e até maduro. A musicalidade aqui é melhor trabalhada – muito por conta da produção de Mário Caldato Jr. – e o grupo parece estar mais coeso: Black Alien perde a postura de um dos principais vocalistas, mas ressurge com seus vocais hipnóticos. BNegão, de volta, já mostra a que veio logo na primeira faixa “Doze com Dezoito”: ‘Vou te foder antes que você foda a minha gente!’. Tem hardcore nervoso (“Procedência C-D”), a mistura maluca que já habita no nome de “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga” (um Pantera com Public Enemy?) e o habitual pop agressivo em “Ex-Quadrilha da Fumaça”. O Planet acabou – mas acabou com louvor, tenha certeza disso.
Faixa: “Ex-Quadrilha da Fumaça”
35. Banda Larga Cordel
Gilberto Gil
Ano: 2008
Gravadora: Warner
Gênero: MPB
Discos de retomada são sempre perigosos. Mas este não é o caso de Gilberto Gil. Depois de assumir o Ministério da Cultura por mais de cinco anos e passar por um hiato de 11 anos sem disco de inéditas, Gil preferiu dar asas à imaginação e respeitar sua criatividade em Banda Larga Cordel. Ele, que já explorou do baião ao rock, não quis fazer nada conceitual. Para tanto, entregou um disco nada coeso – o que não é uma notícia ruim. Ele explora o reggae em “Os Pais”, lembra Gonzaguinha em “Despedida de Solteira” e trabalha lindamente com arranjos de cordas na balada “A Faca e o Queijo”. Quando se fala em temáticas, Gil costuma surpreender, e ele não faz diferente ao conectar Baden Powell e samba de vitrine em “Samba de Los Angeles”, com bonita sofisticação; ou trabalhar o maxixe com efeitos high-tech na ‘dança digital’ de “Não Grude Não”.
Faixa: “Não Tenho Medo da Morte”
34. Artista Igual Pedreiro
Macaco Bong
Ano: 2008
Gravadora: Trama
Gênero: Rock Instrumental
Taí o disco que fez voltar os olhos do público para o efervescente cenário instrumental no Brasil. Direto de Cuiabá (MT), o Macaco Bong gosta é de pancada, de rock, de letargia! “A música instrumental era quase que restrita ao jazz e a nova cena nos permitiu essa liberdade estética, algo que não existia no mainstream musical”, chegou a dizer o então baixista Ney Hugo, que hoje deu lugar a Gabriel Murilo na banda. Apesar dos temas serem erigidos com cautela, o disco deixa espaço para improvisações dignas de rock stars. “Amendoim” é um hard core tão poderoso, que um vocal ali provavelmente a estragaria. “Fuck You Lady”, com interpolações grunge, agradou tanto que foi parar em uma compilação organizada por uma revista francesa. Todos os músicos do Macaco Bong são virtuosos, mas o verdadeiro mérito de Artista Igual Pedreiro está nas composições. Agressividade na medida.
Faixa: “Fuck You Lady”
33. Raciocínio Quebrado
Parteum
Ano: 2005
Gravadora: Trama
Gênero: Rap
Para quem não sabe, Parteum é o pseudônimo do rapper Fabio Luiz, produtor audiovisual, um dos MCs do Mzuri Sana e irmão do conhecido Rappin’ Hood. Nas veias do underground, o primeiro álbum solo do rapper é uma sucessão de rimas inteligentes que, entre outras coisas, critica a inércia perante a televisão (“Raciocínio Quebrado”), fala de estética com uma composição ligeira e amarrada em “Rimas Jogadas ao Vento” – com mais ‘inteligência que McGyver e James Bond’, sem deixar de criticar o ECAD. Em “Época de Épicos”, uma turma habilidosa da cena underground faz aparição: Kamau, Rick e Paulo Napoli. Nesta canção, Parteum se compara ao influente escritor Julio Verne por criar ‘imagens tridimensionais’ em suas rimas, absorvendo energias totalmente diferentes de outros representantes do gênero. “A luz do fim do túnel me guia/Ninguém me enxerga como deveria”, sela o rapper em “O Círculo”. Uma pena – para os possíveis ouvintes.
Faixa: “Época de Épicos”
32. Bambas & Biritas Vol. 1
BiD
Ano: 2005
Gravadora: Beleza Records
Gênero: Vários
BiD sempre foi um produtor muito ocupado (Afrociberdelia, Funk Como Le Gusta, Mundo Livre S/A, Planet Hemp etc) e, para conseguir gravar seu primeiro projeto, teve que ir registrando as ideias na secretária eletrônica enquanto dava continuidade a tantos outros. Como já era de esperar, tem muita brasilidade, funk, soul, eletrônico, rap, experimentalismos. Black Alien participa no mix ragga/rap em “Na Noite Se Resolve”, Rappin’ Hood faz uma ode ao eterno Sabotage em “Maestro do Canão”, Seu Jorge segue na flutuação bossa nova em “E Depois…” e Elza Soares canta no lindo cool jazz de “Mandingueira”. Isso são só as participações. A banda então? Só gente de calibre: o pianista Carlos Daffé (Tim Maia, Banda Black Rio), Marku Ribas (João Donato, Rolling Stones), o irmão Rocco Bid na bateria, Bruno Buarque (Céu, Anelis) na percussão, Lula Barreto (Gérson King Combo) no baixo e, claro, BiD na guitarra, vocal e craviola. Com um time desses, não tem como jogar mal.
Faixa: “Fora do Horário Comercial” (com Marku Ribas)
31. No Chão Sem o Chão
Romulo Fróes
Ano: 2009
Gravadora: YB
Gênero: MPB
Romulo Fróes sambista? Alguns disseram isso quando ele lançou Calado, em 2004. Romulo MPB/tropicalista? Foi a vertente que veio à mente na época de Cão (2006). Mas ele não era um músico para rótulos. Provar isso foi um trabalho árduo, que se materializou no lançamento do disco duplo No Chão Sem o Chão, onde o músico aparece sorrateiramente vertiginoso (vide “Destroço”, com a virtuosa guitarra de Lanny Gordin) e autoindulgente (“Para Fazer Sucesso”), ao mesmo tempo em que se mostra um poeta de sensibilidade em “Pierrô Lunático” ou “Qualquer Coisa em Você Mulher”. São mais de duas horas de canções onde se vê rock, MPB, neotropicalismo, samba – tudo isso não facilita a audição para neófitos. É o lado compositor e até contraditório (quem não o é?) do músico que é enaltecido. A partir deste disco, a música de Romulo Fróes recebeu um outro olhar: o olhar mais atento possível.
Faixa: “Para Quem Me Quer Assim”
30. Coleção Nacional
Instituto
Ano: 2002
Gravadora: YB/Instituto
Gênero: Vários
Este disco do Instituto teve como função formar uma trilha sonora do que acontecia de melhor na música brasileira em gêneros como rap, dub, afro-beat, samba, manguebit e psicodelia. Coleção Nacional funciona como um imaginário coletivo querendo penetrar na mente dos ouvintes para desorientá-los, fazê-los perceber que a arte é uma viagem e a idolatria, uma bobagem. Formado por Rica Amabis, Daniel Ganjaman e Tejo Damasceno, o selo Instituto nasceu com o propósito de fazer música em conjunto, mas em moldes transfigurativos. Sabotage canta em “Cabeça de Nego” e “Dama Tereza” num clima de terreiro de candomblé; Fernandinho Beat Box abre o disco reprocessando a influência samba/rap trabalhada com Marcelo D2; Otto e BNegão quebram tudo em “O Dia Seguinte”, uma espécie de ‘afro-beatcore’ que mistura Planet Hemp com Paêbirú. M. Takara e Flu, do Hurtmold, contribuem com suas experimentações flutuantes, mais ou menos como aquelas trilhas imaginárias que pairam na cabeça quando se pega o último metrô da madrugada.
Faixa: “Dama Tereza” (part. Sabotage)
29. Punx
Guizado
Ano: 2008
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: Experimental
Quando vi a capa do disco pela primeira vez, lembrei na hora do disco On the Corner (1972), um clássico da fase elétrica de Miles Davis. Ouvi e, por mais que percebesse algumas semelhanças, percebi que ali havia uma anarquia sonora ainda mais híbrida, já que a procura de Guizado é totalmente diferente de Miles. Ali tem hip hop, gameboy, cuban-jazz, acid rock e – claro – muita produção eletrônica. (Ah, e tem bossa-nova também, como é o caso de “Areias”.) A liberdade do trompetista é tão intensa, que seria um grande reducionismo classificá-lo. “Der Golem” é quase uma viagem de ácido, se aproximando da produção de M. Takara, que participa do disco. “Vermelha” é trabalhada no tempo do P-Funk e “Maya” forja batidas de funk carioca, mas envereda por uma trilha obscura, quase estapafúrdia, que se transforma em techno. Por mais esquizofrênico que possa parecer, Punx é um disco que te obriga abrir a cabeça.
Faixa: “Vermelho”
28. Deixa a Vida Me Levar
Zeca Pagodinho
Ano: 2002
Gravadora: Universal
Gênero: Samba
O Brasil sempre foi um país desigual. Há séculos isso motivou artistas e músicos a apontarem esse câncer incurável através da arte. Essa coisa de apontar teorias e identificar soluções, por ser um tema complexo, acaba sendo restrito à ala culta, literata ou, como é o nosso caso, restrito aos ‘abastados’ que tiveram uma educação mínima. Isso gera uma separação: gente que tem dinheiro e o mínimo de educação intelectual versus gente que não tem porra nenhuma e é analfabeto. Onde aparece a autoestima dos desfavorecidos? Sorte que temos o rap e o samba, que conseguem desempenhar o seu papel com qualidade invejável em comparação a outros gêneros aqui no Brasil. Zeca Pagodinho é um ícone. Você come caviar? Ele torce o nariz e diz preferir ‘ovo frito, farofa e torresmo’. A vida é dura? ‘Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu’. Apego aos bens materiais? ‘Eu não tenho nada que alguém possa levar’. Muitos podem achar que é conformismo ou resignação, mas você não pode deixar a vida passar – ela é curta demais.
Faixa: “Caviar”
27. Jogos de Armar: Faça Você Mesmo
Tom Zé
Ano: 2000
Gravadora: Trama
Gênero: Experimental
Graças a David Byrne (Talking Heads) e ao New York Times, podemos saldar uma dívida com Tom Zé. Após participar ativamente do movimento tropicalista no final da década de 1960, Tom Zé entrou em uma ebulição criativa que poucos conseguiram acompanhar. Nos final dos anos 1980, conheceu Byrne e continuou lançando bons discos lá fora, com destaque para The Hips of Tradition (1992) e Com Defeito de Fabricação (1998), eleito um dos 10 melhores discos do ano pelo grandioso jornal nova-iorquino. Jogos de Armar foi o primeiro lançamento da ‘volta’ de Tom Zé ao Brasil e, aqui, ele desconstruiu qualquer noção de baião, tropicalismo ou a própria canção. Com instrumentos como serreteria e buzinório, feitos a partir de eletrodomésticos, Tom Zé ainda assim conseguiu dar uma cadência dançante e até criou um ritmo em “Chamegá”, com a autoridade de quem já se aprofundou para distorcer a cultura popular. Para voltar com força para o país que o rejeitou artisticamente, Tom Zé surpreendeu com versões de “Pisa na Fulô” e “Asa Branca”, hinos do Nordeste. Obviamente, em versões nada convencionais.
Faixa: “Chamegá”
26. Iê Iê Iê
Arnaldo Antunes
Ano: 2009
Gravadora: Rosa Celeste/Microservice
Gênero: Pop Rock
Iê Iê Iê é pop, dançante e com letras fáceis e inteligentes. Estamos falando de Arnaldo Antunes, uma das mentes mais criativas do rock nacional desde os anos 80. Logo na faixa-título, que abre o disco, uma alegria circense estampa o interesse de Arnaldo pelo que é popular – ainda que em nossos tempos sejam os ‘bailes funk’, FMs e TVs, instituições que parecem não ter entendido o recado. Da capa à última faixa, o que não falta é simbologia pop: tem Beatles, auditório, música de baile, guitarras distorcidas, baladas. Talvez uma das incursões pop mais artisticamente bem-sucedidas na música brasileira nos últimos anos. O trabalho com os Titãs e Tribalistas é relembrado em faixas como “Luz Acesa” e “Vem Cá”. Para dar suporte a Arnaldo, uma banda primorosa: Fernando Catatau na produção e nas guitarras, Betão Aguiar no baixo, Chico Salem (violão/guitarra), Edgard Scandurra (guitarras), Marcelo Jeneci (teclados) e Curumin (bateria).
Faixa: “A Casa é Sua”
25. São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe…
Rodrigo Campos
Ano: 2009
Gravadora: Ambulante Discos
Gênero: Samba/MPB
Aqui, o cavaquinho traz a proximidade com o samba, a forma de composição é MPB e os personagens periféricos caberiam no contexto do rap. Logo no primeiro disco, Rodrigo Campos já mostrou que é um dos melhores letristas de nossa geração. Para falar sobre o bairro da zona leste de São Paulo, ele teve que se distanciar – depois de viver por lá mais de 20 anos. Mas aqui não tem só São Mateus; a Vila Sônia ganhou uma bela canção na voz de Luísa Maita e o Metrô Carrão é um dos destinos de “Fim da Cidade”, composta para o irmão de Rodrigo. Mas nem só de bairros, ruas e metrôs se sustenta o disco. A simplicidade do cotidiano ganha nuances poéticos, quase mágicos na música de Rodrigo Campos. Dá pra se emocionar com a curta história de “Lúcia”, que fala brevemente de uma professora batalhadora. “Isac”, que não é ‘um amigo assim tão bom’, de certa forma se assemelha com qualquer um de nós. Além de Luísa, também participam do disco Gui Amabis, Curumin, Ubaldo Versolato e mais.
Leia também: Entrevista exclusiva com Rodrigo Campos
Faixa: “Cavaquinho”
24. Toda Vez que Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar
Siba e a Fuloresta
Ano: 2007
Gravadora: Ambulante Discos
Gênero: Coco/Frevo/Maracatu
Siba, a linha de frente do grupo Mestre Ambrósio, teve que excursionar pela Europa e morar por mais de cinco anos em São Paulo para voltar às origens sonoras de sua terra – mais especificamente, a Zona da Mata de Pernambuco. Só o fato de resgatar tais raízes como coco, ciranda, frevo e maracatu rural já seriam dignos de menções honrosas, mas Siba consegue, com um grupo estupendo, intercalar esses ritmos tradicionais com composições atuais e, claro, dançantes. A faixa-título pode-se referir tanto ao passo de um bêbado, como aos passos ininterruptos da tecnologia e como ela afeta o homem. “Será” bate na tecla de um dos maiores problemas em nosso país: aumento da carga tributária. “Meu Time” poderia servir como trilha para aquele futebol de domingão e “12 Linhas”, que parece seguir caminhos psicodélicos, logo entra nos eixos com uma composição geográfica que pode ser aplicada tanto na megalópole, como à cidade mais ribeirinha da região. Bom que o Brasil redescubra e valorize mais suas tradições musicais.
Faixa: “Será”
23. Babylon By Gus Vol. 1: O Ano do Macaco
Black Alien
Ano: 2004
Gravadora: Deckdisc
Gênero: Rap/Ragga
Simplesmente o melhor registro de um ex-membro do Planet Hemp. Gustavo Black Alien demorou bastante para concluí-lo, mas o resultado, de imediato, impressiona. Com introdução digna de um faroeste, “Mister Niterói” une western spaghetti, dub e hip hop numa mistura instigante. “Caminhos do Destino” é levada no tempo do ragga, reflexo de influências que vem de Sizzla e Ini Kamoze – apesar de, nesta faixa, citar Chico Buarque, Van Gogh, Francisco França (nome de Chico Science) e Robert De Niro. As rimas de Black Alien são de um tato raro: ‘a justiça do Brasil perdeu o ônibus’ em “Babylon By Gus”, ‘eu te amo além da matéria’ em “Como Eu Te Quero” ou ‘sexy, delícia, solicitou ao perito a perícia’ em “Perícia na Delícia” são alguns dos muitos exemplos. O rapper ainda não lançou o aguardadíssimo sucessor desse discaço. Qual é Black Alien, estamos ansiosos, pô!
Faixa: “Umaextrapunkprumextrafunk”
22. Vagarosa
Céu
Ano: 2009
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: MPB
Dá vontade de espreguiçar: uaaaaahhhh! Tão bom fazer isso, não é? Por mais que os scratches de DJ Marco deem cutucadas necessárias no segundo disco de Maria do Céu, escutar Vagarosa é uma experiência contemplativa por suas camadas sonoras complexas – coisas da produção dos mestres Beto Villares e Gustavo Lenza. “Cangote” é tão misteriosa quanto nossos sentidos no momento em que estamos próximos daquela pessoa que temos tesão. As cantoras Thalma de Freitas e Anelis Assumpção entram no rocksteady de “Bubuia”, uma das mais bonitas do disco. “Grains de Beaute”, que se tornou indispensável em suas apresentações, mostra o como a artista se encontrou rapidamente. Junto com o Los Sebozos Postizos, Céu bagunçou nosso imaginário com uma versão dub de “Rosa, Menina Rosa”, de Jorge Ben. E que bela bagunça, viu!
Faixa: “Bubuia” (com Anelis e Thalma de Freitas)
21. Ventura
Los Hermanos
Ano: 2003
Gravadora: BMG
Gênero: Rock
Nem tudo que se diz sobre os Los Hermanos vem com senso de justiça. Por isso, vamos ater a um questionamento importante: como uma banda pré-fabricada pelo pop-rock com uma letra horripilantemente pegajosa conseguiu se reinventar a ponto de mudar o cenário da música brasileira? Foi tudo uma transição. O primeiro disco os colocaram em cena, Bloco do Eu Sozinho causou a entropia nos velhos fãs e agregou novos e Ventura foi a consolidação da capacidade dos hermanos de recriar o rock nacional. Já começa pelo canto aproximado de Marcelo Camelo, que toca no âmago. Lógico que, suas composições nada óbvias são parte do caldo, com letras que vão da estética artística de “Samba a Dois” à crônica de um rapaz comum em “Cara Estranho”, que se tornou hit pelo tempero das guitarras. Ventura também foi o disco que trouxe dois talentos de peso para nossa música: o próprio Camelo, claro, e Rodrigo Amarante, que tornou-se um membro mais ativo na frente dos palcos com composições complexas e ardorosas, como as belas “Último Romance”, “Do Sétimo Andar” e “O Velho e o Moço”.
Faixa: “Cara Estranho”
20. Cordel do Fogo Encantado
Cordel do Fogo Encantado
Ano: 2001
Gravadora: Rec Beat Discos
Gênero: Maracatu/Ciranda/Coco/Toré
Se Recife emergiu ao mundo na voz de Chico Science, o grupo responsável por colocar Arcoverde no mapa musical do mainstream foi Cordel do Fogo Encantado. De uma hora pra outra, ouvir maracatu virou coisa de estudante, frequentadores assíduos da FFLCH (USP), quiçá até de indivíduos outrora baladeiros. Parte dessa nova devoção se deve à iconoclastia do vocalista Lirinha que, a frente do grupo, mostrou a força da poesia da literatura de cordel ao juntar ritmos regionais como toré, samba de coco e maracatu em aspecto teatral. O primeiro disco do Cordel foi produzido pelo mestre da percussão Naná Vasconcelos, que se incumbiu de endireitar a difusão sonora do grupo. O mais adequado é ouvir o disco inteiro, para adentrar-se na experiência de conhecer a literatura de cordel. No entanto, neste registro vale destacar faixas como “Boi Luzeiro (ou A Pega de Violento, Vaidoso e Avoador)”, “Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido)” e “Toada Velha Cansada”.
Faixa: “Chover (ou Invocação Para Um Dia Líquido)”
19. Servil
Ludovic
Ano: 2004
Gravadora: Teenager in Box
Gênero: Rock
Pós-punk direto ao ponto, incisivo, sincero, reclamão, barulhento. A estreia dos paulistas do Ludovic foi celebrada por ser um disco sem frescuras. Não tem essa de ficar de chororô após tomar uma bota daquela garota que você admira. A resposta do vocalista Jair Naves é bem pragmática já na primeira faixa: ‘grande bosta! Você sempre terá alguém a seus péésss!!’. Direcionado aos ouvintes impulsivos, “Boas Sementes, Bons Frutos” flagra o ser humano naquele ardor do arrependimento: ‘como pude ser tão estúpido? A culpa é minha? Não, a culpa é sua!’. Não tem uma composição aqui que não encerre com uma exclamação. Seria tão bom se as bandas pop de hoje fossem assim!
Faixa: “Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés”
18. Mestro
Hurtmold
Ano: 2004
Gravadora:
Gênero:
Se hoje em dia a música instrumental tem força no Brasil, pode dar os créditos para essa virtuosa banda paulistana. Passeando por gêneros que vão do acid jazz à música oriental, o Hurtmold atinge uma aura indescritível por apostar na imprevisibilidade. Do nada você está viajando em um cool jazz, de repente a música chega em um cha-cha-cha, vai para um post rock, flerta com o punk… Pegue uma canção como “Música Política Para Maradona Cantar”: em alguns momentos você vibra como se estivesse em um estádio de futebol até que, naturalmente, a banda percebe o seu enjoo e vai adentrando outras linhas sonoras. Este é o quarto álbum da banda que tem como integrantes Guilherme Granado (teclado, vibrafone), M. Takara (bateria, trompete), Marcos Gerez (baixo), Mário Cappi (guitarra), Fernando Cappi (guitarra) e, por último, Rogério Martins (percussão e clarinete), que chegou para completar neste que é um dos discos mais inventivos da música instrumental brasileira.
Faixa: “Miniotario”
17. …E o Método Túfo de Experiências
Cidadão Instigado
Ano: 2005
Gravadora: Tratore
Gênero: Rock/Psicodélico
Graças ao Cidadão Instigado, o brega é visto com outros olhos na música brasileira. Tornou-se via de fácil acesso para externar sentimentos. É por esses caminhos que seguem as cordas da guitarra de Fernando Catatau, talvez um dos músicos que mais se destacou na música brasileira nos últimos anos. “Te Encontra Logo” resume as procuras musicais do grupo ao caminhar pelos áridos do sertão, surgindo como um convite para você se entregar às longínquas referências de sua ancestralidade nacional: ‘te encontra logo com a distância/antes de ela te dizer que é tarde demais’. Catatau e companhia, que já causaram rebuliço em O Ciclo da Decadência (2002), surgem neste segundo disco para reafirmar a linda mistura de brega com indie, agreste com pós-rock. Assim como o nordestino de Caetano em “Sampa”, em “Silêncio na Multidão” o Cidadão Instigado cria uma atmosfera caótica enquanto Catatau, num momento confessional com o ouvinte, diz não entender a correria das pessoas em um cruzamento da Paulista com a Brigadeiro: ‘é tanta solidão em movimento’. “O Tempo”, que encerra o disco, é uma das músicas mais lindas da década. Pode servir de consolo nos momentos mais incendiários de nossas vidas: apesar da sonoridade triste, é sincera ao dizer que o tempo pode ser nosso melhor amigo e ‘fica sempre observando aquele instante que alguém tentou se aproximar’. Se Amado Batista tivesse escutado, certamente iria disparar: ‘por que não tive essa ideia?’.
Faixa: “O Tempo”
16. Acústico MTV
Paulinho da Viola
Ano: 2007
Gravadora: Sony-BMG
Gênero: Samba
O Acústico MTV já registrou belas apresentações do Ira!, O Rappa, Legião Urbana, Zeca Pagodinho, Gal Costa, Gilberto Gil, Lenine. Mas nenhum deles fez um resgate tão necessário a um gênero quanto o do Paulinho da Viola. Ele, que é o maior sambista vivo, ainda detém o poder da canção. Rema com leveza e grandeza. Ao vivo, ele revisita alguns de seus maiores clássicos, como “Coração Imprudente” (A Dança da Solidão, 1972), “Timoneiro” (Amor à Natureza, 1975) e “Nervos de Aço” (composição de Lupicínio Rodrigues que integra o disco de mesmo nome, de 1973). Quando ele canta “Sinal Fechado”, você não sabe como reagir: a orquestração, junto à sua eterna viola, formam um clima melancólico onde tudo funciona como uma passagem. Aos 65 anos, Paulinho mostra que sua voz não mudou nada – está até mais límpida que alguns registros antigos. Sem falar que continua um compositor classe A ao apresentar as inéditas “Vai Dizer ao Vento”, “Bela Manhã”, “Ainda Mais” e “Talismã” que, em conjunto, mostram um músico otimista e contente por sua trajetória. Ouça e você também se sentirá assim.
Faixa: “Talismã”
15. Sons da Paraíba
Cabruêra
Ano: 2005
Gravadora: Nikita
Gênero: Regional-Psicodélico
Já são quase 15 anos de estrada e, ainda hoje, não vejo o Cabruêra como forte influência no cenário musical da Paraíba. Eles juntam sons tradicionais do nordeste com produções eletrônicas, dub, forró e o tal do agreste psicodélico dos anos 70, distorcendo o sentido de canção e levando-a a uma experiência imagética, quase subliminar. Antes de conceber Sons da Paraíba, os músicos do grupo rodaram toda a Europa e passaram por reformulações de integrantes, tornando-se um quarteto. O disco sintetiza experimentações musicais não catapultadas pelo mainstream, como é o caso das guitarras forrozeiras de “Embolador”, que parecem entrar em dissonância com as percussões. “Lavandeira” tem baterias em marcha e prega a liberdade através da experimentação, que vai do jazz avant-garde (graças aos trombones do Itabones) a uma espécie de rock futurista. Já “Pisei na Pedra” (com letras de Chico Corrêa) é um reggae pra ser entoado chapado em uma cachoeira. Ótima também é a experiência ritualística de “Chuva Chovendo”.
Faixa: “Samba Negro”
14. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos
Otto
Ano: 2009
Gravadora: Arterial Music/Rob Digital
Gênero: MPB
Otto é doidão. É um troglodita. Aparenta ser irascível. Já deve ter usado de tudo. Mas, what the hell: nada disso importa! Em seu último registro até agora ele mostrou ser um sentimental profundo, ao mesmo tempo que expele suas vísceras. “Crua”, faixa que abre o disco, mostra esses dois lados de uma moeda valiosa de nossa música. Ele está arrasado, mas não tem medo de assumir seus desejos. Flertando suavemente com Condom Black (nº 49 nesta lista) e com um toque a mais de psicodelia, “Meu Mundo” exibe um Otto chapado que consegue controlar seus demônios – personificados pela voz de Lirinha. “6 Minutos” é verborrágica, destiladora de prazeres baratos e mundanos. Aqui, Otto eleva a experiência de uma transa num quarto de hotel sem distinguir a parceira sexual: poderia ser uma namorada, uma prostituta, uma prima distante. Soa como uma longa descrição de um orgasmo. Bonita também é a versão de “Naquela Mesa”, canção de Sérgio Bittencourt eternizada na voz de Nelson Gonçalves. Produzido por Pupillo e pelo próprio Otto, Certa Manhã… foi a primeira experiência do cantor por vias independentes. Tomara que continue seguindo por este caminho.
Faixa: “6 Minutos”
13. Orchestra Klaxon
Max de Castro
Ano: 2002
Gravadora: Trama
Gênero: Samba-soul
Existe um risco muito grande quando se mexe com elementos como samba-soul: o de cair na mesmice e reproduzir aquilo que Jorge Ben já fez com maestria nos anos 1960-70. Max de Castro provou que não é um artista que vive à sombra do pai Wilson Simonal e mostrou que é possível ser vanguardista atualizando os elementos da black music nacional com pitadas de jazz, bossa nova e R&B. ‘É tudo no meu nome/Se eu tô com o microfone’, diz Max em “Calaram a Voz do Nosso Amor”, uma das composições mais inspiradas do disco. Em “A História da Morena Nua Que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval”, Max interliga a composição MPB de Erasmo Carlos a um samba drum’n bass, estilo bastante explorado por DJ Patife. Como não poderia deixar de faltar, Max celebra a beleza negra em “O Nego do Cabelo Bom”, em bonito dueto com Paula Lima. E “Mais Uma Vez, Um Amor” é uma espécie de samba-enredo com funk que, aos poucos, vai flertando com o drum’n bass novamente. Além das misturas serem muito bem-sucedidas, Max retorna, dois anos depois de Samba Raro (2000), com uma voz mais límpida em arranjos ainda mais inovadores. Orchestra Klaxon é black music vanguardista de rara qualidade.
Faixa: “Mais Uma Vez, Um Amor”
12. A Farsa do Samba Nublado
Wado e Realismo Fantástico
Ano: 2004
Gravadora: Outros Discos
Gênero: MPB/Rock
Wado, compositor catarinense que radicou-se em Alagoas, sempre batalhou para encontrar a sonoridade perfeita para suas canções de forte complexidade sentimental. Já conhecido por trabalhar com samba em Manisfesto da Arte Periférica (2001) e Cinema Auditivo (2002), no terceiro registro a canção se adequa a uma sonoridade tangencial, com fortes marcas do rock, MPB e pequenas pitadinhas de eletrônica. Para chegar a esse belo resultado, decidiu registrar no álbum a banda Realismo Fantástico, formada por Alvinho Cabral (violão/guitarra), Thiago Nistal (bateria) e Sérgio Soffiatti (baixo). Todos os músicos são de diferentes regiões, algo que veio para comprovar que o clima ‘nublado’ de incertezas permeia toda a geografia nacional. “Tormenta” já celebra a renovação artística do compositor, que se inquieta com a ‘calmaria que vem antes da tempestade’, ou da ‘chuva de sapos’, ou da ‘chuva de sangue’. “Vai Querer?”, uma das mais belas do disco, é uma composição de Luis Capucho e Suely Mesquita que fala, através de um personagem malandro, como é preciso ter espírito de vendedor de porcos para chegar nos altos degraus sociais: ‘Agora dou facada nos incautos/E nunca devolvo’. Belo álbum de uma discografia que você tem que explorar.
Faixa: “Vai Querer?”
11. Bloco do Eu Sozinho
Los Hermanos
Ano: 2001
Gravadora: Abril Music
Gênero: Rock
Como já disse na descrição do disco Ventura (21ª posição nesta lista), com Bloco do Eu Sozinho o Los Hermanos derrubou o queixo de todo mundo que esperava um sucessor do pop superficial de “Anna Julia”. A banda decidiu dar seguimento a composições mais maduras, inseriu um naipe classudo de metais, catalisou melhor as influências da MPB e demais ritmos brasileiros a ponto de inverter a lógica do rock nacional dos anos 2000. Chega de músicas destrambelhadas apalpadas especialmente para as rádios: é bem melhor seguir na flutuação sonora de “Casa Pré Fabricada” ou “Retrato Pra Iaiá”. “Todo Carnaval Tem Seu Fim” é o mais próximo que os hermanos chegaram do pop neste registro sábio, fluido e experimental. Ouvindo este disco com atenção, você percebe o motivo dos fãs dos Los Hermanos serem tão devotos – a ponto de tornarem-se chatos em alguns momentos.
Faixa: “Sentimental”
10. Nadadenovo
Mombojó
Ano: 2004
Gravadora: Tratore
Gênero: Surf Music
Antes de mais nada, Nadadenovo é um disco lindo. Ficar com os olhos vermelhos (fumar um?) é um ato carregado de sutilezas (“Cabidela”), a banda nos convence que as ideias utópicas são uma forma de entretenimento (“Deixe-se Acreditar”), além de nos levar a uma experiência dançante – quando outros levariam a uma contemplativa – ao admirar a natureza em “O Céu, o Sol, o Mar”. Agora, às estéticas: no som do Mombojó, escaletas, clarinetes, guitarras, bateria, sintetizadores e baixo sustentam uma sonoridade que vai do indie ao trip-hop, unindo a complexidade de uma composição MPB a extravagãncias modernas que, ao mesmo tempo que embelezam nossa audição, bagunçam. As letras são simples e você aprende a cantá-las facilmente, mas existe uma fórmula ali que não permite enjoos por parte do ouvinte. O primeiro disco dessa banda de Pernambuco nos fez perceber que ser pop também é ser sofisticado.
Faixa: “Deixe-se Acreditar”
9. Sem Nostalgia
Lucas Santtana
Ano: 2009
Gravadora: Diginois/YB
Gênero: Experimental
Em toda a década, novos artistas exploraram e reprocessaram diversas influências, que vão do dub ao soul, com boas pitadas eletrônicas. Lucas Santtana foi um desses músicos, mas está a anos-luz de distância. Sem Nostalgia, quarto disco de estúdio do músico, soa como um projeto acadêmico de tanta complexidade. Parece que Lucas estudou, observou e manipulou tudo o que já foi explorado em nossa música desde Odair José e criou uma obra futurista que não nega nada do que já feito em nosso país. E aqui, ele foi bem específico: trabalhou para distorcer (quase) tudo o que já foi criado com instrumentos de cordas em nossa música.
“Super Violão Mashup”, que abre o disco, incisivamente mostra o que aparatos eletrônicos podem fazer com o instrumento. É pra deixar purista de queixo caído mesmo, não tem conversa. “O Violão de Mario Bros” vem pra reforçar tais experimentações, algo que se mostra cantarolável em “I Can’t Live Far From My Music”, com composição em inglês. Em “Cira, Regina e Nana”, Lucas expõe seu ecletismo (que pode ser aplicado à musicalidade) ao tergiversar sobre o amor por três garotas. “Amor em Jacumã” é um deleite, um repouso necessário depois de tanto trabalhar para reinventar nossa música. Em poucas palavras, Sem Nostalgia é um disco arriscado, impuro, altamente experimental, que resume bem a influência da tecnologia digital na música brasileira.
Faixa: “Cira, Regina e Nana”
8. Non Ducor Duco
Kamau
Ano: 2008
Gravadora: Plano Áudio
Gênero: Rap
O rap atingiu novos patamares, truta. Falar de homicídio, caos social e má distribuição de renda é um foco do passado – o que não quer dizer que outros músicos de qualidade não o façam. Após desenvolver suas rimas com o projeto Simples, Kamau deve ter feito uma espécie de autoterapia para se encontrar. Isso lhe deu autoconhecimento e autocrítica o suficiente para suas rimas tornarem-se eficazes. Seu impacto é tão profundo que, se a maioria dos moleques desajeitados a ouvissem, a luz no fundo do túnel brilharia. Ouvir “A Quem Possa Interessar” enquanto pega o metrô lotado para trabalhar faz renascer uma chama de orgulho – começamos a perceber que estamos passando sufoco porque algo maior vai acontecer.
“Equilíbrio” fala de correria, mas atenta aos pauses necessários para que possamos dar um passo maior: ‘Quero deixar bem mais que saudades quando me for’. Non Ducor Duco em latim significa ‘não sou conduzido, conduzo’. Serve mais ou menos como autoajuda para que você se encontre e faça o melhor para si e pelo outro. ‘Sucesso é caminhada e não a linha de chegada’. Tipo musicoterapia.
Leia também: Entrevista exclusiva com Kamau
Faixa: “Equilíbrio”
7. Uhuuu!
Cidadão Instigado
Ano: 2009
Gravadora: Independente
Gênero: Rock Psicodélico
O Cidadão Instigado é uma viagem! O terceiro disco de estúdio do grupo cearense é um flerte pop – consequência natural de músicos que insistiram em reafirmação estética nas faixas de …E o Método Túfo de Experiências (nº17 nesta lista). Aqui, o grupo também está mais espacial, mais insano e mais seguro. Em “A Radiação Na Terra”, alienígenas invadem o planeta e clamam por abduzir a linda praia de Jericoacoara numa linda flutuação suscitada pela guitarra de Catatau. “Deus é Uma Viagem” mostra um Catatau em devoção com o divino com uma fluidez vocal que, às vezes, lembra o ícone do brega Bartô Galeno. Nesta canção, paira o inconsciente coletivo de um músico do Ceará, um dos estados mais religiosos do Brasil.
Exemplos de como o Cidadão atingiu a veia pop estão em “O Nada”, que abre o disco falando de ladrões que roubam suas casas e suas ideias e a insanidade vista como sua colega em “Doido”. Mas a banda soa melhor quando envereda por suas trilhas infatigáveis, como os bregas de “Dói” e “Contando Estrelas”, sem esquecer de “O Cabeção”, que fala de como o uso excessivo de computador põe em detrimento sua capacidade de raciocínio: ‘É porque você/ainda não percebeu/esta vasta cabecinha em expansão’.
Faixa: “O Cabeção”
6. Cê
Caetano Veloso
Ano: 2006
Gravadora: Universal
Gênero: Rock/MPB
‘Você nem vai me reconhecer quando eu passar por você’, já canta Caê logo de cara em “Outro”. Ao invés de mudar a música brasileira, neste disco Caetano faz uma reciclagem de sua obra artística. Um de nossos maiores músicos abraça o rock’n roll e o espírito de clandestinidade junto com a banda Cê, formada por ele (voz, violão), Pedro Sá (guitarra, baixo, vocais), Rodrigo Dias Gomes (baixo, piano Rhodes, vocais) e Marcelo Callado (bateria e percussão).
No entanto, não é o músico que entra na onda do rock; ele inverte a posição e faz o gênero se adequar à sua poesia. Como ele faz isso?
“Rocks” dá aquela percepção de vislumbrarmos um Iggy Pop brasileiro, mas aquela composição cairia muito bem em um samba, ou uma MPB (falando nessa canção, que solo inspirado de Pedro Sá!). A confessional “Não Me Arrependo” mostra um Caetano obscuro (que até lembra “Walk On the Wild Side”, do Lou Reed), divagando sobre o axioma de ser um dos maiores divulgadores da arte brasileira: ‘nada, nem que a gente morra, desmente o que agora chega a minha voz’. Talvez este registro seja o convite que todos os jovens e pseudointelectuais precisavam para se aprofundar na obra deste mestre irredutível.
Faixa: “Rocks”
5. Por Pouco
Mundo Livre S/A
Ano: 2000
Gravadora: Abril Music
Gênero: Manguebit
Mundo Livre S/A não é um grupo para ser levado a sério. Até porque não dá. O que pensar de músicos que falam de ‘mulher com W maiúsculo’ (“Melô das Musas [Musa da Ilha Grande]”, pot-pourri de duas faixas do primeiro disco), ou ‘ela é meu desfile internacional, meu bloco de carnaval’ (“Meu Esquema”)?
Porém, o Mundo Livre é a personificação do brasileiro, talvez a banda de rock que melhor entende como funciona a cultura do ‘homem cordial’. Todos só queremos saber de gozar!
Na faixa-título, Fred Zero Quatro nos identifica como adeptos à ‘cultura do quase’: quase ganhamos a Copa do Mundo de 1998, quase compramos uma casa, quase ganhamos um carro, a gostosa quase ficou nua. Isso até chegar à verdade chacal: ‘Votamos no quase honesto, pois quase acreditamos nele’. O disco é recheado de intempéries engraçadas, como “Treme-Treme (Shaking All Over)” e “Mexe Mexe”. Mas o tom ácido das críticas irônicas são o melhor recheio deste que é um dos melhores álbuns da banda recifense.
Faixa: “Por Pouco”
4. Nação Zumbi
Nação Zumbi
Ano: 2002
Gravadora: Trama
Gênero: Manguebit
Um disco para ser cantado em estádios, para uma multidão. A sonoridade é bem envolvente e Jorge Du Peixe consegue altercar a agressividade de uma composição política com aquela fórmula indescritível do NZ de chamar as massas para si.
Mudou tudo: com o disco homônimo, a Nação Zumbi quebrou os anos de incerteza que pairaram após a morte de Chico Science. Por mais que Rádio S.amb.A tivesse em evidência, ainda faltava manter a empatia da banda precursora do manguebit com o seu público – apesar dos esforços vindouros de um hit como “Arrancando as Tripas”.
Logo de cara, “Blunt of Judah” e “Mormaço” alargam os risos daqueles que já pularam muito com Afrociberdelia. E não tem moleza não. Nação Zumbi é uma pancada atrás da outra: “Propaganda” é uma crítica voraz à metralhadora disparada pela TV no horário comercial; “Amnesia Express” surge como repouso, mas “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”, com seu riff à lá Sepultura, incendeia o solo fazendo com que seus pés saiam do chão. Graças a esse disco, hoje o Nação Zumbi mantém a coroa de ser a melhor banda do Brasil.
Faixa: “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”
3. Nada Como Um Dia Após o Outro Dia
Racionais MCs
Ano: 2002
Gravadora: Cosa Nostra
Gênero: Rap
Sobrevivendo no Inferno é um disco espetacular mas, depois de um hiato de cinco anos, o grupo precisava se reinventar. E isso aconteceu de maneira soberba: os caras voltaram com um disco duplo, aproveitaram mais a enciclopédia musical que é KL Jay e criaram uma narrativa própria e linear.
Lembro que comprei esse CD no dia de lançamento: aquele despertador inicial de “Sou Mais Você” me causou estranheza, mas Mano Brown deu aquele puxão de orelhas com rimas que já esperaríamos (ansiosamente!). A primeira música de fato entra com “Vida Loka Pt. I”, com Brown fazendo uma conexão com seus amigos em um clima cordial, ainda que o perigo faça questão de visitá-los (‘não devo, não temo, me dá meu copo que já era!’). Mas o impacto mesmo veio com “Negro Drama”, com Edi Rock e seus vocais firmes falando sobre valores da cultura negra. Pensa que tá bom? Em seguida, Mano Brown surge com uma agressividade que vem doer na espinha dorsal.
O que complica em Nada Como Um Dia Após o Outro Dia é que não muitos o observaram pelo aspecto musical (muito por conta da produção de Zé Gonzales e as bases de KL Jay). Quantas vezes não coloquei no repeat “Na Fé Firmão” ou “Eu Sou 157” para aprender a cantá-las? Observe melhor e você vai sacar como os Racionais estão numa pegada mais soul. Prova? “Free at Last”, do Al Green, como base para a bela poesia de “Jesus Chorou”, ou o sampler de Cassiano em “Da Ponte pra Cá”, que cai numa levada mais Curtis Mayfield. O Racionais está mudando – só não muda o estilo de deixar os ouvintes na expectativa.
Leia também: Entrevista exclusiva com Edi Rock
Faixa: “Da Ponte Pra Cá”
2. Rap é Compromisso!
Sabotage
Ano: 2000
Gravadora: Cosa Nostra
Gênero: Rap
Hoje, pode-se dizer que existe uma trincheira entre o atual rap e os ‘anos dourados’ da década de 1990. Antigamente o ritmo mantinha a postura de cronista fervoroso do que acontecia nas periferias, enquanto hoje já alinha melhor as possibilidades tecnológicas para falar do que ocorre no mundo.
Rap é Compromisso! foi mais ou menos como a queda do Muro de Berlim nesse processo. O MC Maurinho dos Santos mostra seu bairro ao mundo, mas não o faz em tom denuncista: pelo contrário, assume a postura de um artista que deve à favela todos os seus ensinamentos. Coisas ruins acontecem, não é? Sabotage não as nega, mas manda a informação procedida de ares positivistas – como ele faz em “Um Bom Lugar” onde, depois de falar que o pecado toma conta dos barracos, diz: ‘quer batalhar tenta a sorte/seja forte/o destino é quem resolve’.
Vale dizer que aqui a demagogia passa longe. Maurinho, que por muito tempo andou pelas sombras (e morreu nela), fala com uma maturidade sisuda, por mais que soe um pouco agressivo. Em “Respeito é Pra Quem Tem”, por exemplo, ele surge pragmático para falar que respeito é algo que a vida cobra – se você não o tiver, cai.
Depois deste disco, Sabotage deu passos largos, chegando a atuar nos filmes Carandirú (Hector Babenco) e O Invasor (Beto Brant). Ele ainda tinha muito a subir, mas foi uma pena que tenha partido dessa quando estava em seu melhor momento na carreira artística. Com isso, a evolução do rap ficou estagnada por um bom tempo.
Faixa: “Respeito é Pra Quem Tem”
1. Japan Pop Show
Curumin
Ano: 2008
Gravadora: Urban Jungle
Gênero: Experimental
É o álbum que melhor resume a integração musical ocorrida durante toda a década. Curumin juntou e fragmentou tudo com fina, rara maestria. Ele, que é um baterista influenciado por soul e hip hop, colocou samba, MPB, rap, funk carioca, canção, não-canção, jazz, música de elevador, som ambiente, rock, brega, forró…
Sem querer reinventar a roda, Curumin absorveu tudo produzido pela cultura pop na música brasileira e brincou com tudo isso, jogou ao ar. O mais curioso é: como pulverizar o pop e a nova dinâmica de consumo e criar uma obra que consegue fluir naturalmente?
Curumin não criou uma fórmula, mas um gênero onde apenas ele consegue ser expoente. Cabe de tudo aqui: um rolê básico com a bicicleta em “Magrela Fever”, um momento divino com os seus discos em “Compacto”, um funk carioca estapafúrdio gozando do noticiário em “Caixa Preta”. Assim como também entram as mensagens politizadas de “Kyoto”, “Mal Estar Card” e “Esperança”.
Muita coisa acontece em dez anos. Agora, condensar tudo isso, brincar e fazer música de qualidade – e acessível -, só Japan Pop Show.
Faixa: “Mal Estar Card”
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