The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars

Data de Lançamento: 6 de junho de 1972
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10

David Bowie sempre quis ser um superstar. Como fazer para chegar a ser um? Bom, inventando e interpretando um que tinha todos os passos do estrelato. Para quem não sabe, a história é assim: um ET chamado Ziggy Stardust sabe que a Terra será destruída em cinco anos e decide se tornar um rock star para alertar os seres humanos. As inspirações para o nome do personagem vieram de Iggy Pop (naquele momento um rock star decadente entregue à heroína) e o pioneiro do psychobilly Norman Carl Odam (também conhecido como The Legendary Stardust Cowboy). Anos depois, Bowie afirmaria que o grande espelho era o músico Vicent Taylor que, de tanto tomar LSD, chegou a dizer que era encarnação de um Apóstolo e entregou para Bowie um mapa onde estariam todos os OVNIs aqui na Terra (vale lembrar que Bowie já tinha um afeto por esses assuntos espaciais desde Space Oddity). Com este disco, ele reprocessou tudo que estava feito no âmbito do rock’n roll para dar uma nova possibilidade ao glam rock, que engatinhava com Marc Bolan e o T. Rex. Um disco para ouvir do começo ao fim; uma bíblia de como fazer rock’n roll instigante com inteligência, personalidade e autenticidade.

Ouça: “Suffragette City”

Aladdin Sane

Data de Lançamento: 13 de abril de 1973
Gravadora: RCA
Avaliação: 9/10

David Bowie sabia e todo o público que viu a grandiosidade de Ziggy Stardust apontava: como superá-lo? Bom, a ideia é não usar o trabalho anterior como comparativo. Aqui, Bowie continua com a persona de Ziggy ao se comportar como uma verdadeira estrela do rock. Se no álbum anterior temos como parâmetro Stooges e Velvet Underground, em Aladdin Sane o camaleão começa a flertar com os Rolling Stones. O álbum é a reação à grandiosidade de Exile On Main Street (1972), considerado o maior dos discos dos Stones. Canções como “Watch That Man”, “The Jean Genie” e o próprio cover de “Let’s Spend the Night Together” são reveladoras. Se você for encarar como uma imitação, então aceite: Aladdin Sane é David Bowie sendo os Stones ainda melhor que os próprios Stones. Nessa perceptível competição de estrelato, Bowie soma ao rock’n roll dosagens viscerais de heroína e uma energia macabra que remonta ao jazz improvável de Thelonious Monk. Afinal, Bowie contratou seu próprio Thelonious para arrebentar as estribeiras: o exímio pianista de avant-garde Mike Garson, que traz o vigor bebop em “Aladdin Sane (1913-1938-197?)” e vai pelas belas linhas de Franz Liszt na lindíssima “Lady Grinning Soul”, que encerra com chave de ouro.

Ouça: “Time”

Pin Ups

Data de Lançamento: 19 de outubro de 1973
Gravadora: RCA
Avaliação: 5/10

Eis o disco menos comentado de David Bowie nos anos 1970. Isso porque Pin Ups é um disco só de covers repaginados. Numa esteira sucessiva de obras-primas, e com todas as estrelas voltadas para a magistral aparição de Ziggy Stardust, Pin Ups carrega o difícil fardo de surgir quase apagado. Ouvindo hoje, o álbum soa como um divertido disco de rock’n roll sem medo de abraçar o ingênuo (“Here Comes the Night”, do Them) e até mesmo flertar diretamente com o progressivo na psicodélica “See Emily Play” (escrita por Syd Barrett). Meses depois de se ver obrigado a sustentar um personagem, Bowie se inspirou em encontrar novos rumos para quebrar de vez a barreira do pop. No entanto, assumiu referências tão distintas, que parecemos estar diante do Bowie mais fake dos anos 1970 – e olha que estamos falando de um artista multifacetado, onde o fake pode ser um suspiro de genialidade. Todavia, não deu muito certo em Pin Ups. Ainda assim, vale citar o experimentalismo resultante da mencionada “See Emily Play” e o cover sedutor de “I Can’t Explain”, do conterrâneo The Who.

Ouça: “Friday On My Mind”

Diamond Dogs

Data de Lançamento: 24 de abril de 1974
Gravadora: RCA
Avaliação: 5/10

É a literatura de George Orwell e a possibilidade de um rock apocalíptico que permeiam o álbum. Quem já leu o emblemático 1984 vai sacar na hora as referências diretas na faixa do mesmo nome do livro de Orwell e na intempestiva “Big Brother”, um rock que quer e consegue soar belamente degradante. No entanto, as duas canções meio que destoam da sonoridade que o cantor queria atingir no disco. Muito familiarizado com o estilo e a música de Mick Jagger, Bowie decidiu beber de vez da fonte dos Rolling Stones – algo já feito em Aladdin Sane – a ponto de se tornar uma cópia deslavada. Vide a faixa-título e a balada “Rock’n Roll With Me” (com um título bem familiar aos Stones, não?). É como se o Camaleão, já obcecado pelas feituras de Mick-Keith, decidisse agir como a Record faz para tomar a audiência da TV Globo hoje em dia. E o que falar de “Rebel Rebel”? Se Bowie fosse sensato o suficiente, pagaria por direitos autorais aos Stones de tão copioso que é – e alguns fãs parariam de teimar de que essa é uma de suas grandes canções. Pode ser boa o tanto que for, no entanto até mesmo um ingênuo arriscaria que o riff, a melodia e o tempo foram roubados de uma sessão de Sticky Fingers (1971). Esquecendo essa comparação, Diamond Dogs é um bom disco – a ponto de acreditarmos ser um dos grandes clássicos de Bowie. Mas o problema é: dá pra esquecer tal comparação?

Ouça: “Rebel Rebel”

Young Americans

Data de Lançamento: 7 de março de 1975
Gravadora: RCA
Avaliação: 8/10

Depois de acabar com Ziggy Stardust e deixar de lado sua fase apocalíptica de Diamond Dogs, David Bowie resolveu fazer o que queria. E declarou que, a partir de então, era um soulman. Que era estranho ninguém tinha dúvidas, mas a crítica especializada, naquele momento, não deu muita bola e viu em Young Americans apenas como mais um passo excêntrico de Bowie. A verdade era que Bowie, por mais que não parecesse, finalmente estava empenhado em fazer aquilo que sempre admirou: soul music. Para fazê-lo com êxito, contratou o virtuoso guitarrista Carlos Alomar (que tocou com Ben E. King) e o baterista Dennis Davis (tocou com Roy Ayers) e passou a ensaiar algumas versões do gênero, com destaque para “Here Today and Gone Tomorrow”, dos Ohio Players. Em meia década, Bowie provaria que já era detentor da fórmula de hits e, mesmo em um gênero que muitos considerariam obscuro para suas invencionices, entregou nada menos que duas grandiosas canções que já valeriam o disco: a portentosa faixa-título, que até hoje é considerada o hino de uma geração que apostou na juventude durante as incertezas da Guerra Fria; e o funk híbrido de “Fame”, criado após Bowie fazer uma singela troca de termos dentro do estúdio. Escrita em parceria com John Lennon e adornada por guitarras latinas e espaciais, a refratária canção é um claro exemplo de que a idolatria, levada tão a sério no rock nos anos 1970, era um sentimento impávido e, acima de tudo, vazio. Naquela época, quem melhor que Bowie e Lennon para afirmar isso com tamanha convicção – e com tão poucas palavras?

Ouça: “Fame”

Station to Station

Data de Lançamento: 23 de janeiro de 1976
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10

No livro Bowie – A Biografia, Marc Spitz afirmou que nos anos 1970 David Bowie deve ter usado mais cocaína que todas as estrelas do rock. Com isso, ele se tornou mais abalado e se interessou por referências obscuras, incluindo a psicanálise de Sigmound Freud, o ocultismo satânico de Aleister Crowley e uma estranha devoção ao fascismo. E nasce Thin White Duke que, para propagar sua música, alia ao soul/funk explorado anteriormente o peso da fadiga de tempos artísticos onde se podia confundir o ridículo com experimentalismo. ‘É muito tarde para ser agradecido/É muito tarde para ser detestável’, canta na faixa título. A rima ‘grateful’ e ‘hateful’ mostra a volatilidade de suas emoções, típico de quem usa muita cocaína. Por mais que soe misterioso, medonho ou até mesmo errado, Station to Station é o melhor disco de David Bowie – pelo menos para este que vos escreve. Artisticamente, o álbum é o que melhor condensa os gêneros musicais testados por Bowie ao longo dos anos. E é também um raro momento em que a decadência joga a favor do artista. Afinal, o fracasso estava quase iminente: apenas seis canções (uma de mais de dez minutos), nenhuma delas para se chamar de single. O álbum é uma intensa incursão numa psique conturbada e estranhamente curiosa. Temos soul music arrastada (“Golden Years”) e um boogie roqueiro que logo revela ser uma de suas mais alienantes músicas (“TVC15”), sem esquecer a gênese apocalíptica de “Stay”, prelúdio de uma das fases mais interessantes do Camaleão: a trilogia de Berlim.

Ouça: “Stay”

Low

Data de Lançamento: 14 de janeiro de 1977
Gravadora: RCA
Avaliação: 9.5/10

O vício em cocaína estava consumindo David Bowie e chegou o momento em que ele percebeu que era preciso respirar novos ares para não esgotar suas possibilidades artísticas. Foi trocando ideias com Brian Eno, ex-membro do Roxy Music que conquistou ótima reputação após quatro discos solo que exploravam experimentalismo e futurismo, que Bowie decidiu partir para Berlim. Lá se desenrolava uma cena difusa, mas muito criteriosa no sentido de explorar novas sonoridades. Acontecia o krautrock, que jogava na mesma prateleira o pioneirismo eletrônico do Kraftwerk, as invencionices desregradas do Neu! e o rock intensamente elaborado do Can. Nesse cenário surgiu Low, ainda mais pessimista que Station to Station. O disco já começa caleidoscópico com “Speed of Life” que, de tão espacial, parece penetrar outra galáxia. Bowie ainda estava encantado com a possibilidade sonora de guitarra distante e baixo onipotente – coisa que se vê em “Breaking Glass”, pequeno resquício do que se tornariam os Talking Heads de Remain in Light (1980). A partir do segundo lado do disco, que começa com “Warszawa”, Bowie explora sons atmosféricos instrumentais, dialogando com a densidade lúgubre do compositor alemão Robert Schumann.

Ouça: “Sound and Vision”

“Heroes”

Data de Lançamento: 14 de outubro de 1977
Gravadora: RCA
Avaliação: 10/10

A antológica capa e a antológica música. As aspas no nome do disco são intencionais mesmo, então já dá pra saber que havia um tom de ironia. Único álbum da trilogia totalmente gravado em Berlim, ‘Heroes’ mais uma vez trazia aquela estética de Low: canções numa estrutura (quase) convencional de um lado e viagens instrumentais que evocavam o declínio no lado B. Para levar ainda mais a sério a atmosfera que pairava em Berlim, Bowie alugou um castelo de frente para o Muro que separava a Alemanha Ocidental da Oriental. Há lendas de que ele havia chamado grupos locais como membros do Can para tocar algumas canções – algo que não chegou a se concretizar. Ao contrário das experimentações estéticas e improváveis que marcaram o excelente disco anterior, em ‘Heroes’ Bowie traz mais elementos roqueiros, sem deixar de adicionar microfonia e as novas sonoridades de aparatos que estavam sendo desenvolvidos e testados por alguns dos melhores grupos alemães de rock naquele tempo. Além do mais, Bowie tinha o engenhoso Robert Fripp (King Crimson) ao seu lado, que manjava e adorava brincar com novas formas de extrair sons de sua guitarra. É dele o clássico riff da faixa-título, citada como favorita por 11 entre 10 fãs do Camaleão. A marcante canção fala da possibilidade de um amor separado pela muralha de Berlim, fazendo clara alusão de que é possível estabelecer uma paz heroica. Só essa canção já valeria o disco, mas tem a ira de “Beauty and the Beast”, o alô ao Kraftwerk em “V-2 Schneider” e o rock odalisco de “The Secret Life of Arabia”… Precisa dizer que é o melhor disco da fase mais interessante do Camaleão?

Ouça: “Heroes”