Fim de novembro tinha tudo pra Fiona Apple vir pela primeira vez ao Brasil. Infelizmente algum animal irracional – não se sabe se homem, não se sabe se bicho – machucou sua pitbull de 13 anos. Como era de se esperar, ela não quis colocar uma turnê a frente de seus conturbados sentimentos – bem explicitados, ou ao menos engendrados, dentro de suas canções.

Não precisa ser repórter da TMZ pra saber que Fiona guarda alguma inquietação. Ela diz ‘foda-se’ pros namorados – e aos ouvintes resta dizer ‘foda-se’ pra quem quer que a tenha machucado.

(Não fossem essas desilusões, intempéries, ou ao menos o forjar de tudo isso, não poderíamos contemplar uma das cantoras mais relevantes de nossos tempos.)

Desde que estourou com o clipe de “Criminal”, em 1996, a aparente frágil e pseudo-revoltada garota que tinha tudo para se encaixar no hype entregou um debut fabuloso com Tidal. Este era só a cereja do grande bolo que viria com o título pomposo do disco de 1999, reproduzido a seguir:

When The Pawn Hits The Conflicts He Thinks Like A King What He Knows Throws The Blows When He Goes To The Fight And He’ll Win The Whole Thing ‘Fore He Enters The Ring There’s No Body To Batter When Your Mind Is Your Might So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand And Remember That Depth Is The Greatest Of Heights And If You Know Where You Stand, Then You Know Where To Land

And If You Fall It Won’t Matter, Cuz You’ll Know That You’re Right

O hiato até o lançamento de Extraordinary Machine, de 2005, foi grande. Mas como culpá-la se ela entregou um disco do caceta com faixas como “O’ Sailor”, “Window”, “Please, Please, Please”?

2012 foi mais um ano agraciado. Afinal, qual não seria tendo em seu catálogo um petardo como The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do?

Bom, sobre a seleção: como qualquer outra, não foi nada fácil. Tirar uma, deixar de colocar outra. Não entenda como negligência de grandiosidades; tente entender como um guia insípido, uma seleção estapafúrdia, um esforço para o ridículo. (O contrário também é válido, aviso dado.)

Acredite, ouvindo Fiona Apple, você perceberá que mesmo isso tem o seu devido valor sentimental – ou musical – ou… well, don’t let me ruin me.

Dois avisos: 1) este artigo não vai moderar palavrões; 2) este que vos escreve lamenta a ausência de outras canções – ‘that’s the way things are’.

Playlist: todas as 12 canções desta seleção estão em uma playlist, que pode ser acionada através do player no canto inferior esquerdo, ou no clique ao final da descrição de cada uma das canções.

Boa navegação.

12. “Oh Well”

Ano: 2005
Álbum: Extraordinary Machine

O pior da distância é descobri-la quando se acha que está perto. Aquela coisa do amor não-correspondido. Há muitas formas de ver isso. Em “Oh Well”, Fiona está devastada não apenas por não ser amada de volta, mas pelo ‘desperdício de amor incondicional’. O piano é o confessionário da cantora, provavelmente o ensaio do que ela diria ao rapaz que ‘roubou minha paz e quietude’.

Ouça: “Oh Well”

11. “The Way Things Are”

Ano: 1999
Álbum: When the Pawn Hits the Conflicts…

Uma pessoa que tem ciência de suas idiossincrasias problemáticas. ‘Estarei pronta para mudar’, é o que promete Fiona a um interessado que quer enfrentar suas hecatombes, sejam elas o que forem. Os efeitos esparsos de Greg Cohen transformam a canção em um rock obscuro, um ínterim entre Morrissey e Scott Walker. Nada muito óbvio mesmo – as coisas são assim.

Ouça: “The Way Things Are”

10. “Paper Bag”

Ano: 1999
Álbum: When the Pawn Hits the Conflicts…

Achava que fosse um homem/Mas é apenas uma porra d’um menino’. Libido é foda. Em 1999, Fiona não era tão velha assim, mas já se expressava como uma experiente do assunto. Ou, ao menos, uma garota que via na figura de um mais velho a única possibilidade de evoluir como pessoa (até hoje ela admite isso em entrevistas). Ela está decepcionada, mas pretende se afundar na decepção bem quando diz: ‘Eu quero ele bem mau/Como isso mata!’. Pura perversão.

Ouça: “Paper Bag”

9. “Regret”

Ano: 2012
Álbum: The Idler Wheel…

Pelo que você já leu até aqui, percebeu que Fiona Apple não é das figuras mais dóceis. Houve ensaios de agressividade, mas o absurdo veio com este novo disco – e essa é uma de suas maiores manifestações de zanga. Ela não exige de sua voz para chegar a isso. Aponta com um timbre pouco mais acentuado. É a composição e a atmosfera lúbrica que apunhalam sua ira – principalmente após ter ‘absorvido a urina quente que vem se sua boca’ – pior que essa expressão é literal.

Ouça: “Regret”

8. “Limp”

Ano: 1999
Álbum: When the Pawn Hits the Conflicts…

Na canção, algum macho a deixou brava: ‘Você alimentou o monstro que havia em mim’. Aquela canção vingativa – que insegura passada pra trás não desejaria disparar tal fúria naquele que a enganou, fodeu, aloprou? (Sou homem, não posso adivinhar.) Mas os ouvidos aguçam com a cruzada funky-jazz levada ao absurdo com a bateria de Jonathan Norton. Musicalidade agressiva, tanto quanto a braveza de Fiona nesta canção.

Ouça: “Limp”

7. “Daredevil”

Ano: 2012
Álbum: The Idler Wheel…

A resignação de não ser normal em um plano confuso: o que é ser normal? Por que ser normal? Convenção social? É uma droga, mas precisamos disso. Ninguém quer saber o que causa a sua ruína. ‘Talvez eu precise de uma dama de companhia’, diz Fiona.

Ouça: “Daredevil”

6. “Fast As You Can”

Ano: 1999
Álbum: When the Pawn Hits the Conflicts…

Piano rítmico, coisa de gente talentosa. É difícil críticos elogiarem a desenvoltura sórdida de Fiona nos pianos, mas deixe estar. Lembro que uma vez Sasha Frere-Jones, do New Yorker, disse que, em todo esse tempo de carreira, ela manipulava o piano como quem manjasse, por mais que não pudesse parecer. “Fast As You Can” refuta esse argumento. É a velocidade que manda. E é à velocidade que a música pertence. E é Fiona quem acelera.

Ouça: “Fast As You Can”

5. “Sleep To Dream”

Ano: 1996
Álbum: Tidal

Vendo hoje o clipe, devo dizer que tinha tudo para ser uma bosta. Sério: garota deitada na cama, falando sobre sonhos perturbados? Mesmo nos anos 1990 isso era clichê. Mas aí tem efeitos de Fiona se transportando pra não sei que lugar. E aí você percebe: Fiona não é alternativa, nem pop – é uma louca no meio desse caminho. A canção? Putz, muito foda!

Ouça: “Sleep To Dream”

4. “Better Version of Me”

Ano: 2005
Álbum: Extraordinary Machine

Que piano é esse? Tá, deixe-o de lado. Fixe na forma como Fiona entoa os versos: ritmo atemporal, ainda assim pop. A singela orquestração e a agrura rocker são meros detalhes. Fiona Apple deve querer agradar um ser inexistente, porque não vejo motivos pra não sair maravilhado depois dos 3 minutos desta canção.

Ouça: “Better Version of Me”

3. “Criminal”

Ano: 1996
Álbum: Tidal

Parecia ser a clemência de uma adolescente ingênua de seus posteriores sofrimentos. ‘Preciso de uma boa defesa/Porque estou me sentindo criminosa’ é o refrão mais entoado da cantora até hoje – e ainda será pelo restante de sua carreira que, queiramos todos, tem muito a durar. Esta canção tem significação ainda maior por conta dos rumos idiossincráticos da trajetória de Fiona Apple até os dias de hoje. Ela respeitou sua cabacice perante à vida e perante o hype – e respondeu ora com agressividade, ora com lascívia, ora com veemência a uma indústria que deve ter ficado desapontada com o fato de Fiona respeitar a própria biografia à risca – ou parecer fazer isso. Tudo começou aqui.

Ouça: “Criminal”

2. “Left Alone”

Ano: 2012
Álbum: The Idler Wheel…

As baterias de Charley Drayton prenunciam relâmpagos. Fiona Apple entra com o trovão nos pianos. Não deve ser um dia bom para uma mulher que se conforma em ‘não chorar quando está triste’: ‘Como posso pedir para alguém me amar/Quando tudo o que imploro é ser deixada só?’. Existe uma brecha ali, mas essa brecha pode fechar um poço essencial de Fiona. A resposta é essa: ‘nada, nada é gerenciável’. São escolhas – deixar de ser uma, pra tentar ser outra. Vale a pena? A dúvida corrói Fiona. E essa corrosão… ah, essa corrosão. Na voz de Fiona, uma chibatada que impressiona – no bom sentido (para nós), e também no mau sentido (talvez para ela).

Ouça: “Left Alone”

1. “Not About Love”

Ano: 2005
Álbum: Extraordinary Machine

Três pormenores norteiam a música de Fiona Apple: o senso rítmico, as composições e, por último – e provavelmente menos notado -, a forma de cantar. Em “Not About Love”, Fiona inova nestes três quesitos: 1º) guitarras fervem na explosão quando a cantora diz que ‘sente falta da estupidez’; 2º) por mais que mexa com as emoções, ela tenta se desvencilhar, diz ‘não estar apaixonada’, quando na verdade se engana na própria canção, tenta se valer de artimanhas quando o evidente está em sua entrega; 3º) o que mais impressiona: ela acelera, chega a flertar com o rap – quiçá anteceder Nicki Minaj? – foda-se também se não for, só exemplo. A velocidade é reflexo de sua tentativa fugaz de camuflar seus sentimentos, algo que não costuma fazer. Vergonha? Nada. Não dá pra assumir tudo em uma canção só, ainda mais numa em que confessa ‘não parar de desapaixonar’. Não dá pra assumir tudo – ‘mas gostaria de escolher o certo’, redime-se. Enquanto tudo estiver errado para Fiona – …foda dizer… – bom pra nós! Ou não. Ou…

Ouça: “Not About Love”

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