E lá vai o Na Mira do Groove se arriscar mais uma vez a fazer uma lista de melhores músicas. Tudo bem que João Gilberto completou 80 anos de vida há quase 6 meses atrás. Mas, para um artista de importância atemporal, me sinto a vontade para destrinchar um pouco mais de sua obra a qualquer hora que der na telha. Não há tempo certo para se ouvir João Gilberto: todo o tempo é tempo. Quanto mais cedo, melhor. A vida anda.
(Quem já acompanha este blog há um tempo e conferiu o ESPECIAL Bob Marley, provavelmente já esperaria uma lista como esta.)
Algumas faixas óbvias como “Chega de Saudade” e “Desafinado” obviamente estariam nesta lista, mas acho que vocês irão se surpreender com o primeiro lugar e algumas outras que estão por aqui.
Confira as 20 melhores músicas de João Gilberto (dá para ouvir todas em uma playlist ao clicar na setinha abaixo da descrição de cada faixa):
20. “Triste”
Composição: Tom Jobim
Álbum: Amoroso
Ano: 1977
Ninguém gosta de viver na solidão, e João Gilberto é um cantor melhor do que ninguém para afirmar isso com propriedade. Afinal, a partir de 1962, João sumiu do Brasil por uns tempos e passou a viver fora do país. Essa canção figura aqui exatamente por denotar o tom sincero de um músico que sempre fugiu dos holofotes.
“Triste”
19. “O Sapo”
Composição: João Donato
Álbum: João Gilberto En Mexico
Ano: 1970
Esta canção não tem nada a ver com a clássica “The Frog”, de A Bad Donato. Quer dizer, mais ou menos. João Gilberto puxa o groove com seus vocais contidos, enquanto vai levando na batida da bossa. Soa como um assovio jovial enquanto se anda pelas ruas. A síncope e o compasso são pura beleza. Quando entra os metais – ainda que de forma sutil – aí percebemos uma riqueza ainda maior da canção.
“O Sapo”
18. “Wave”
Composição: Tom Jobim
Álbum: Amoroso
Ano: 1977
Uma das músicas mais conhecidas e admiradas de Tom Jobim ganha um ar autoral com João Gilberto – como a maioria das canções que ele costuma gravar. A batida do violão fica a frente do tom orquestral que garante a beleza da canção. Se os olhos já não podem ver, só nos resta escutar. Lindeza.
“Wave”
17. “Águas de Março”
Composição: Tom Jobim
Álbum: João Gilberto
Ano: 1973
Mais uma do maestro Tom Jobim. Provavelmente você já deve conhecer o belo dueto de Tom com Elis, onde esta faixa é um dos principais destaques do disco Elis & Tom. Mas o suspiro de João também é uma beleza à parte. Ele tem um tempo muito peculiar para levar a canção que intercala lentidão com rapidez. Ninguém conseguiu (ou tentou) gravar “Águas de Março” no mesmo tom que João. É diferente de qualquer outra versão.
“Águas de Março”
16. “Pra Machucar Meu Coração”
Composição: Ary Barroso
Álbum: Getz/Gilberto
Ano: 1964
Nos primeiros minutos da canção, quem domina é João Gilberto. O piano de Tom Jobim dá uma beleza unívoca à canção, e os dois aparecem como autoridades que jamais deveriam ser interrompidas. O sax de Stan Getz entra depois, como um capítulo à parte da faixa. De início, ficamos chocados. Mas depois, interliga-se tudo. E começamos a perceber os verdadeiros motivos que levaram os gringos a gostarem tanto da bossa nova.
“Pra Machucar Meu Coração”
15. “Outra Vez”
Composição: Tom Jobim
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
Outra vez Tom Jobim. Outra vez vemos João Gilberto selar a vitalidade da bossa. Outra vez aquela batida. Outra vez João fala de tristeza, de amor, de Sol, chuvas e muitos outros elementos que dão ritmo e poesia a uma história de amor. E outra vez ficamos maravilhados com o dom de João em tocar nossos âmagos com canções intimistas.
“Outra Vez”
14. “Doralice”
Composição: Tom Jobim
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
Começa como um samba-canção lúgubre e João Gilberto diz que só pode ser feliz nos braços de Doralice. Ele chegou a regravar essa canção em Getz/Gilberto, mas é a brevidade e o fator ‘novidade bossa nova’ que dão um tom mais efêmero pelo tempo (1m48s) e, também, ao mesmo tempo, mais sincero e profundo, registrado em O Amor, o Sorriso e a Flor.
“Doralice”
13. “Undiú”
Composição: João Gilberto e Jorge Amado
Álbum: João Gilberto
Ano: 1973
Canção originalmente composta por João e seu padrinho Jorge Amado, ela foi preparada originalmente para integrar o filme ‘Seara Vermelha’, nos anos 1950. Na verdade, João adaptou essa canção, que originalmente tinha o título de “Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco, em Juazeiro”. Não sabemos por que raios ele gostou tanto da palavra undiú. E usou apenas esse termo para compor a música, num lindo flerte com a natureza íntima e externa. Lembra bastante algum trabalho de Hermeto Pascoal.
“Undiú”
12. “Se é Tarde Me Perdoa”
Composição: Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
Essa canção tem um paralelo interessante com a vida ‘errante’ de João quando ele era mais novo, e estava tentando a vida no Rio de Janeiro. Ele costumava trocar a noite pelo dia e, quando vivia de favor em kitnets, tocava violão e começava a cantar, sendo que os outros hóspedes precisavam dormir para poder trabalhar (quem conta essa história é Roberto Menescal). Tudo bem, João, eles te perdoaram.
“Se é Tarde Me Perdoa”
11. “O Barquinho”
Composição: Roberto Menescal
Álbum: João Gilberto
Ano: 1961
João Gilberto tinha um gosto enorme por canções minimalistas, que até podem ser consideradas ‘bobas’. A simplicidade, a calma e a beleza de inspiração são aspectos fascinantes da música de João Gilberto, e Menescal provavelmente deve ter ficado muito orgulhoso com a gravação de “O Barquinho”, que fala de tardinha e dias tão azuis. ‘O barquinho a deslizar, e a vontade de cantar’. Novamente vemos a dicção e o ritmo único – rápido, lento, médio, quase anacrônico – que altera todo o tempo da canção. Pra poucos.
“O Barquinho”
10. “Meditação”
Composição: Tom Jobim e Newton Mendonça
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
“O amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais”. Infelizmente, Newton Mendonça não foi devidamente creditado como um dos maiores compositores da bossa nova e da nossa música, talvez porque tenha falecido (aos 33 anos) antes mesmo de se tornar conhecido pelo grande público. “Meditação” é apenas mais um dos muitos pontos altos da excelente parceria com o maior músico de nosso país. É breve, direta e reflexiva.
“Meditação”
9. “Rosa Morena”
Composição: Dorival Caymmi
Álbum: Chega de Saudade
Ano: 1959
Dorival Caymmi sempre foi prestigiado por ser um excelente vocalista e violonista. João Gilberto gozava da mesma virtuosidade, mas era quase uma antítese de Dorival, por representar a tal ‘música jovem’ do final da década de 1950. Ambos tinham tudo a ver com praia, e ambos eram baianos. Mas eram absolutamente diferentes, mesmo que tivessem quesitos parecidos. Nesta música, João também trouxe uma versão muito diferente da de Dorival. Nem melhor, nem pior. Mas, qualitativamente, no mesmo patamar (excelente).
“Rosa Morena”
8. “Bahia com H”, com Caetano Veloso e Gilberto Gil
Composição: Denis Brean
Álbum: Brasil
Ano: 1981
João Gilberto não gostou nada nada do resultado deste histórico encontro com Caetano, Gil e Maria Bethânia (mais uma de suas muitas birras com a produção musical). Só que o disco é muito bom, e esse é um dos grandes pontos altos. Afinal, a Bahia é a terra de todos os músicos envolvidos, e essa ode só ganha força com a devoção de cada um dos músicos para enaltecer as muitas grandiosidades dessa terra. Viva a Bahia!
“Bahia com H”
7. “Amor Certinho”
Composição: Roberto Guimarães
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
“O nosso amor já tem patente/tem marca registrada/é amor que a gente sente”, e aí ele rima depois ‘carinho’ com ‘amor certinho’. Parece coisa de criança, mas foi estrategicamente ‘bolado direitinho’ para que João fale com liberdade e de forma despojada de sentimentalismo. Não sei como, mas João Gilberto tem a magia de te agradar mesmo com canções como esta.
“Amor Certinho”
6. “Samba da Minha Terra”
Composição: Dorival Caymmi
Álbum: João Gilberto
Ano: 1961
Nem mesmo um músico tão revolucionário como João Gilberto seria ‘ruim da cabeça’ para negar a importância do samba. ‘Do danado do samba, nunca me separei’. Aqueles ruídos ‘tcha-cun-dingu-den’ remetem ao ritmo secular de nossa música, e percebemos o quanto João esbanja maestria em qualquer ritmo em que põe a mão. Não precisa de pandeiro. A síncope vem do próprio violão, e os vocais de João suprem a ausência de qualquer outro instrumento.
“Samba da Minha Terra”
5. “O Pato”
Composição: João Gilberto
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
Repertório dos tempos antigos do Garotos da Lua (grupo baiano que integrava quando foi ao Rio pela primeira vez), João Gilberto quis fazer um teste para encaixá-la em sua nova batida. Para tanto, chamou Ronaldo Bôscoli no apartamento dele e foi até o final do corredor. Cantou: ‘O pa-to’, o mais baixo que podia. “Você me ouve, Ronaldo?”. “Ele usava o corredor como uma espécie de megafone”, afirmou Ruy Castro no livro Chega de Saudade. Bôscoli não pode deixar de comentar, depois de tanta insistência de João nessa música: “Se esse pato não for gravado logo, vai morrer de velhice”.
“O Pato”
4. “Samba de Uma Nota Só”
Composição: Tom Jobim e Newton Mendonça
Álbum: O Amor, o Sorriso e a Flor
Ano: 1960
Esta canção é o ápice da parceria entre Tom e Newton. Mas ninguém a gravou de forma tão perfeita e registrou aquela que, para o musicólogo Zuza Homem de Mello, é a música mais perfeita da bossa nova, como João. O piano do maestro entra numa sincronia absolutamente perfeita com os arranjos orquestrais e a levada do samba. “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”: esta é a frase que resume e define perfeitamente os preceitos da bossa nova. “E voltei pra minha nota, como eu volto pra você”. Isto é bossa nova.
“Samba de Uma Nota Só”
3. “Chega de Saudade”
Composição: Tom Jobim e Vinicius de Moraes
Álbum: Chega de Saudade
Ano: 1959
Eis o grande choque da música popular naquele longínquo ano de 1958. Primeiramente, ela foi gravada por Elizeth Cardoso no disco inaugural da bossa, Canção do Amor Demais. Foi João quem tocou aquele violão com acordes soltos na gravação de Elizeth, mas ele se apropriou da música como se fosse dele. E fez bem melhor no seu primeiro disco, Chega de Saudade. Como muitos teóricos musicais repetem: 1 minuto e 59 segundos que mudou tudo.
“Chega de Saudade”
2. “Desafinado”
Composição: Tom Jobim e Newton Mendonça
Álbum: Chega de Saudade
Ano: 1959
“No peito do desafinado/no fundo do peito/bate calado”. Inúmeros aspectos pairam por aqui: como disse Zuza Homem de Mello, a faixa é uma contradição porque “leva as pessoas a induzirem que desafinado é expresso através daquela canção. E ela é exatamente o contrário”. Muito pelo choque estético, provavelmente. “Não perceberam que “Desafinado” é só o título de uma maneira absolutamente irretocável em termos de afinação”, complementou Zuza. A orquestra se encaixa no balanço do violão de múltiplas notas de João. Se você insiste em classificar o comportamento de João Gilberto de anti-musical, meu amigo, reveja seus conceitos de música.
“Desafinado”
1. “Bim Bom”
Composição: João Gilberto
Álbum: Chega de Saudade
Ano: 1959
Ok, antes de me xingar, deixe-me explicar. Você pode se perguntar: ‘por que raios uma música de pouco mais de um minuto, em que João fala ‘bim bom’ sem parar, é considerada a melhor música de um artista tão complexo?’ João Gilberto subtraiu todas as notas possíveis e, ao contrário do que Ruy Castro afirmou em Chega de Saudade, não tem nada a ver com o som de lavadeiras. É que, aqui, o termo ‘é só isso o meu baião’ tem um tom pejorativo de ‘treco’, alguma coisa que nem ele sabe o que é. Para explicar melhor, recorro a um especialista respeitado: Mario Sérgio Conti, que afirma que “”Bim Bom” seria então o espaço entre a sua “coisa” e o coração, entre a realidade e a afetividade, entre o objetivo e o subjetivo: a canção, o som, a arte”. Inclusive, o nome da canção serviu de inspiração para que o acadêmico Walter Garcia dedicasse um livro inteiro para destrinchar a complexidade da música de João Gilberto. Tudo isso a partir da música mais minimalista que você ouvirá na sua vida. É só isso mesmo, e não tem mais nada não. Quer dizer – tem sim. Muita coisa.
“Bim Bom”
Errata:
• Quem compôs a música “Desafinado” foi Tom Jobim com Newton Mendonça, e não Vinicius de Moraes, como estava anteriormente.
