
Etta James faleceu aos 73 anos no dia 20 de janeiro de 2012
Não gosto muito de escrever obituários: geralmente a mídia tradicional de música o faz isso muito bem, trazendo depoimentos de pessoas e músicos próximos de quem faleceu. Entretanto, não dava para ficar impune com a partida de uma cantora tão importante como Etta James, que morreu aos 73 anos vítima de uma leucemia no dia 20 de janeiro. Portanto, nada mais oportuno do que lembrar um de seus discos mais memoráveis: o debut At Last!, lançado em 1961 pela gravadora Argo.
Antes de cair nas graças dos irmãos Phil e Leonard Chess (donos da Chess Records), Etta James cantava em um grupo de doo-wop nos anos 50 chamado The Creolettes, notável pelo single “Roll With Me Henry”, com sua voz se sobressaindo aos backing vocals femininos. Quando foi contratada pela gravadora, em 1960, começava um período frutífero para a carreira de Etta.
At Last! é um disco breve, lançado para abraçar o pop. Em 28 minutos, os vocais de Etta tinham a singularidade de trafegar entre o R&B e o blues de forma íntima. Por mais que canções como “All I Could Do Was Cry”, “My Dearest Darling”, “At Last” e “Trust in Me” tivessem chegado às paradas da Billboard, o que imperava sobre as melodias que começavam a agradar o público naquela época era o seu lamento blueseiro, que inclusive deixou muitos bluesman chocados.
Ao ouvir “Anything to Say You’re Mine”, percebemos que essa necessidade do próximo tem tudo a ver com a sua vida que, tempos depois, se mostraria conturbada. Antes de ser cantora, Etta James (cujo nome real é Jamesetta Hawkins) foi abandonada pela mãe quando adolescente e teve que morar com os avós. Sua influência é enorme, mas dos anos 2000 pra cá houve um interesse maior em explorar as possibilidades já abertas por Etta. Algumas das principais cantoras pop que bebem da fonte do R&B certamente se deleitaram com At Last!. Entre elas: Beyoncé, Amy Winehouse e Adele.
“My Dearest Darling”
Em At Last!, o que se percebe também é um crescendo de lamentações: “My Dearest Darling” é cheia de falsetos e entra num doo-wop dançante, com uma sessão de sopros que pede as exclamações da cantora, que atinge seu ápice ao dizer: “Estarei lá do seu lado/Oh, eu garanto meu amor por você/Com Deus como nosso guia”.
Quando você cai nas graças de sua potência vocal, fica difícil não deixar-se dissolver pela sequência matadora de “Trust in Me” e a tristonha “A Sunday Kind of Love”, que já deve ter pairado nas mentes de todos os solteirões que percebem a chatice do domingo e lamentam a ausência de uma namorada, uma pessoa próxima que vai te confortar e te dar outras alternativas para fugir do Faustão e do Fantástico.
“Trust in Me”
A faixa-título, que até hoje permanece como uma das interpretações mais intensas de sua carreira, é uma balada levada pela estética blueseira, daquelas de arrancar lágrimas tanto nos momentos em que entram arranjos orquestrais, como, é claro, nos momentos em que a voz sólida de Etta torna-se enfática.
Outro ponto importante do disco: ele não é feito apenas de lamentações. Etta James tem voz para um rhytm’n blues animado (“Tough Mary”), um doo-wop que poderia ser entoado em qualquer prostíbulo (“I Just Want to Make Love to You”) e cai de forma serena para o jazz na releitura de “Girl of My Dreams”, escrita originalmente por Sunny Clapp.
Na versão remasterizada do disco, quatro faixas foram adicionadas: “My Heart Cries”, “Spoonful” (bem conhecida pelos vocais uivantes de Howlin’ Wolf), “It’s a Crying Shame” e “If I Can’t Have You”, todas em dueto com Harvey Fuqua (que faleceu em 2010).
Mais que tornar-se refém de uma diva, a audição de At Last! te faz entender o porquê do grande interesse em re-explorar o R&B confessional nos dias de hoje. Descanse em paz, Etta James.
