Gravadora: United Artists/Blue Note
Data de Lançamento: Fevereiro de 1963
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O produtor Alan Douglas não esquece a cena: Charles Mingus sai emputecido do estúdio e Duke Ellington corre atrás dele no meio das ruas de Manhattan (EUA), pedindo para que volte. Enquanto isso, o baterista Max Roach ficou esperando no Sound Makers. Era 17 de setembro de 1962 e eles estavam gravando o disco Money Jungle, até que Roach reclamou da forma agressiva com que o baixista tocou e disse alguma coisa que o fez sair em disparada.
Foi o próprio Mingus quem fez questão que o baterista das sessões deste disco fosse Max Roach. Suas credenciais eram impecáveis – Roach foi um dos principais arquitetos sonoros do bebop na bateria e tocou ao lado de gigantes, como Bud Powell, Thelonious Monk, Charlie Parker e até mesmo Duke Ellington (numa única performance que remonta ao início dos anos 1940).
‘Contrapontisticamente interativo’, Money Jungle é imbuído de um groove imperfeito, pouco amarrado, quase perdido, para criar tensão
Com Charles Mingus, Roach fundou a gravadora Debut Records, que, apesar da curta duração, revelou músicos do porte de Paul Bley e Thad Jones.
Quando o contrabaixista recebeu a proposta de Douglas para que gravasse um disco com seu ídolo, Duke Ellington, ele insistiu que o único baterista para esta sessão só poderia ser Max.
Ficou combinado o seguinte: não haveria ensaios de gravação. Iriam para o estúdio pra ver no que daria.
E o resultado surpreende não só pelo virtuosismo técnico. A personalidade de cada instrumentista é levada ao extremo. Money Jungle é um arregaço jazzístico que motivou Charles, Max e até o experiente Duke, então com 63 anos, a radicalizar suas formas de tocar.
A faixa-título, que abre o disco, é impulsionado por um baixo insistente. Em contraponto a ele, Duke oferece notas em descompasso, com clusters e pancadas percussivas que remontam ao estilo de Monk e Cecil Taylor. Essa forma de interação entre os músicos oferece uma complexidade rítmica que põe em xeque o peso de cada músico. Eles também são bandleaders, e tocam como três bandleaders em ação.

G. Álbuns: Charles Mingus | The Black Saint and the Sinner Lady (1963)
As escalas de piano em “Very Special” são construídas a partir de uma base fortalecedora de Mingus, o grande domador rítmico do disco. Roach marca a ponte entre um e outro, com envergadura habilidosa ao manter a velocidade sem descaracterizar as quebradas de Duke. “Há algo tão integral sobre tempo-espaço criado por ele”, celebrou Matthew Shipp, um dos principais representantes atuais do free-jazz no piano. “Cada pequeno detalhe arquitetônico é esculpido ao mais alto degrau. É um dos maiores exemplos de tocar piano que já ouvi”.
Na releitura de “Caravan” (de Juan Tizol e muito tocada por Ellington no início de carreira), a demarcação rítmica da bateria parece extraída de um ritual vodu. Duke desenvolve notas esplendorosas, como se elas antecipassem um temporal carregado. E a presença de Mingus continua firme: ele entra a partir do momento que Roach faz a virada. E, ao invés de seguir a linha do piano, aponta outros caminhos em seu groove quase anti-groove. Essa simbiose chegou a virar jargão: o baixista Chris Wood, do trio Medeski, Martin & Wood, designa ‘faça aquela coisa Money Jungle‘ quando se refere a um groove imperfeito, pouco amarrado, quase perdido, para criar tensão. “É contrapontisticamente interativo”, complementou o parceiro, John Medeski.
Há muitas controvérsias sobre a classificação de Money Jungle. Uns veem como parte da fase bebop, talvez por influência de Max Roach ou pela proximidade que Ellington tinha com a obra de John Coltrane (9 dias após gravar Money Jungle, ele deu início às sessões de Duke Ellington & John Coltrane). A Wikipedia usa o termo post-bop como definição, talvez pelas explorações ligadas a Charles Mingus. Pela liberdade criativa do grupo, e até pelo contexto, dá pra assinalar um traço free-jazz, já que a obra inaugural de Ornette Coleman, lançada em 1961, começava a alastrar seu alcance.
Parte do appeal de Money Jungle também está nas baladas. Charles Mingus treme o baixo deixando-o sincopado, mas em “Fleurette Africaine” o piano busca o lamento com notas pausadas. Nesse caso, a ausência das pratadas de Roach, que fica na percussão, é determinante. Em “Solitude”, por exemplo, Roach e Mingus saem de cena, para que Duke dê outra cara a um de seus grandes clássicos dos anos 1940.
A versão lançada em CD pela gravadora Blue Note trouxe outros takes valiosos, que evidenciam a dinâmica personalista de cada um
“Warm Valley”, também um standard de Ellington, ganha uma nova cara com os slaps espirituosos (e longos) de baixo. É como se Mingus entendesse a dor do protagonista e desse um empurrão, o acalanto que ele precisa para superar um momento dramático. E esse drama se intensifica, mas logo cede a um encanto nostálgico. É tristeza e alegria.
A versão lançada em CD pela gravadora Blue Note trouxe outros takes valiosos, que mostram como essa dinâmica personalista de cada um ainda guardava muitas pérolas. Um bom exemplo é “Switch Blade”, com entrecortes rascantes da parceria Ellington/Mingus, que mais parece um duelo.
“A Little Max (Parfait)” é dotada das linhas de hard-bop, talvez por influência de Art Blakey & The Jazz Messengers. É em estrutura rígida que também segue “REM Blues”, que dá a impressão de fragmentar-se num jazz catártico, até revelar-se mais aprazível justamente por sua manutenção rítmica. Pra fechar a lista de canções não contidas no LP original, “Backward Country Boy Blues” é um dos poucos exemplos de consistência por parte dos integrantes – mas é no escorregar das estruturas que os melhores momentos são fixados, como no arpeggio do piano e nos solavancos do baixo.
Apesar de Duke ter dito que não queria tocar suas obras, todas as composições de Money Jungle são de sua autoria (com exceção de “Caravan”, de Tizol, que é quase de sua propriedade, visto que tocou inúmeras vezes). Em depoimento a Rick Mattingly, autor do livro The Drummer’s Time: Conversations With Great Drummers of Jazz, Max Roach lembrou das palavras do pianista sobre o álbum:
“Pense em uma cidade como Nova York e todos os seus arranha-céus como troncos de árvores. Mas esses troncos são todos visíveis por conta de todo dinheiro que se espalha nas laterais dos edifícios, como se fossem folhagens. Isso é o ‘money jungle’. Rastejando pelas ruas estão as serpentes, que se mantêm atentas. São todos agentes e pessoas que costumam explorar artistas. Toquem como se essa fosse a música a ser tocada”.
Entre os distintos temperamentos musicais de Duke Ellington (menos brando e mais ousado) e Charles Mingus (oblíquo e intenso), Max Roach conta que portou-se como “âncora” no trio. “Aquele foi um grande momento para mim em estúdio”, disse, deixando pra trás a briga que quase impediu o disco de ser concluído.
