Gravadora: Gold Mind
Data de Lançamento: 22 de junho de 1999
***
Missy Elliott considera seu segundo disco, Da Real World (1999), seu trabalho mais difícil por conta daquele velho estigma: ela tinha que provar que realmente era capaz de superar a estreia, Supa Dupa Fly (1997), que deu enorme projeção às suas letras sagazes e à subversão entre hip hop e R&B.
Com exceção do single “She’s a Bitch”, Da Real World não brindou o público com hits que se tornaram virais ao longo dos anos – tipo “Get Ur Freak On” e “Lose Control”, que reforçaram sua característica amalucada que, com o tempo, tornou-se pecha indissociável de suas músicas.
Fazendo um retrospecto videográfico, este é o disco menos marcante de sua carreira. Por outro lado, foi a partir daqui que a personalidade de Missy Elliott se fortaleceu a ponto de fazer com que a criatividade de sua obra se tornasse o epicentro de sua produção.
Da Real World confronta os valores sociais, mas só porque esses valores confrontam com Missy Elliott. Acima de tudo, ela enfatiza suas preferências
Hã? Explico: todos conhecem a Missy Elliott que dança loucamente, protagoniza clipes coloridos de enredos fantásticos e está sempre em torno de uma produção afro-funk-percussiva, fruto de sua bem-sucedida parceria com Timbaland, que ficou mais requisitado que nunca.
A figura feminina que desobedece a padrões de beleza e normas de etiqueta mostrou, em Da Real World, que tinha força pra bater de frente com o machismo do rap e os preceitos de um establishment que só aceitava mulheres negras com corpões no cenário pop.
Missy Elliott estilhaçou esses paradigmas dizendo: ‘Vocês nos odeiam/Mas não podem resistir/Se você quer ser durão, melhor ser legítimo/Nós vamos falar merda porque somos confiantes/Se não acha, então será obrigado a ficar sentadinho’. (O verso em questão é de “U Can’t Resist”, um R&B de contornos sexuais, com participações dos rappers B.G. e Juvenille.)
Ao lado de Lil’ Mo, Missy manda, em “You Don’t Know”, um recado aos machistoides que se acham no direito de assediar mulheres. O verso inicial deixa bem claro a separação sexista que se manifesta nos cotidianos: ‘O que gosto nesses caras/É que podem confessar aos seus garotos que dormiram com a mesma garota e rir delas/Mas, veja bem, uma mulher jamais poderia admitir a outra mulher/Que dormiu com o homem dela’. Isso não afasta a personagem de Missy dos homens, que diz, em tom lamurioso: ‘Não acredito que você fez isso/Não poderia me mostrar um pouco mais de respeito?’. Então, a entrada de Lil’ Mo prenuncia o momento de virada, que representa a superação da mulher diante de um acontecimento em que se sentiu ferrada.
Da Real World confronta os valores sociais, mas só porque esses valores confrontam com Missy Elliott. Acima de tudo, ela enfatiza suas preferências, algo que, após este disco, foi executado com mais veemência.
Este é o disco que simboliza a construção da postura de Missy, a escalada para a imposição de uma persona que vem à frente antes de qualquer uma de suas obras. Afinal, você não espera que a música de Missy surpreenda tanto quanto a sua postura diante daquela canção. Este é um dos passos que o jornalista Kelefa Sanneh descreveu bem no artigo Como ser pop star pelos métodos de Missy Elliott, ao jornal New York Times:
“Passo 3: Seja desagradável – Quem disse que você não pode construir uma carreira de primeira a partir de piadas sujas? Como diversas artistas femininas, ela vê ligação entre independência e assertividade sexual. Mas ela também é suficientemente imbuída de uma postura de flerte sexual.”
O ‘desagradável’ está justamente em fazer uso dos mesmos clichês masculinos do rap: falar de sexo com palavrões e com a mesma atitude de ousadia que os caras de calças largas. Ela faz isso de forma provocante em “Checkin’ For You”, com Lil Kim, mas convence mesmo em sua sensualidade quando canta, ao lado da parceira Aaliyah, em “Stickin’ Chickens”: ‘Sou besta por você/Mas você parece achar que meu amor é uma piada’.
Na música de Missy Elliott, as características masculinas deram nova perspectiva ao que poderia ser o feminino na cultura hip hop: tem que ser de igual para igual. Por isso mesmo, ela se certificou em cantar ao lado de outros rappers, como Eminem, em “Bus a Rhyme”: “Tinha escutado algo dele e disse ao Timbaland: ‘Preciso desse cara no meu álbum’”, contou à Billboard. “Imediatamente, quando vi esse cara fazendo rap, pensei ‘ele é especial’”. Então, ela entrou em contato com a Aftermath, gravadora de Dr. Dre, e o convidou – antes mesmo de seu primeiro sucesso, “My Name Is”.
Nas seguintes “All n My Girl” e “Dangerous Mouths” ela tem como parceiros, respectivamente, Big Boi e Redman. A primeira é uma mescla de R&B com batidas híbridas em que Timbaland brinca com um crescendo de cordas em repetição, enquanto a próxima é mais pesadona, gangsta, crua e perigosa. Missy parte desse mesmo peso para pedir que o DJ toque o que ela bem quer em “Mr. DJ”, ao lado da aclamada cantora de dancehall jamaicana Lady Saw. A rapper canta: ‘vamos festejar como nenhuma outra festa’. Foi o mote para que Missy criasse seu opus.
