
01 Liquid Swords02 Duel of the Iron Mic03 Living in the World Today04 Gold05 Cold World06 Labels07 4th Chamber08 Shadowboxin’09 Killah Hills 1030410 Investigative Reports11 Swordsman12 I Gotcha Back
13 B.I.B.L.E. (Basic Instructions Before Leaving Earth)
Gravadora: Geffen/MCA
Data de Lançamento: 7 de novembro de 1995
Recorrente que se coloque o segundo disco solo de GZA como o melhor de qualquer membro do Wu-Tang Clan.
Por mais que pudesse soar limitado associar um disco inteiro aos diálogos do filme Shogun Assassin, Liquid Swords foi audacioso ao unir as habilidades de xadrez do rapper, contida nas letras, com análises clínicas do que acontecia nas ruas naquele momento. Momento perfeito em que a inteligência encontra os fatos.
Não que os discos do Wu fossem desprovidos disso. Mas, enquanto o coletivo tem na agressividade dos mics o efeito recalcitrante de impactar toda a sociedade sobre temas como violência, criminalidade e a crua realidade das ruas, GZA endossou uma personalidade firmada ali no meio-termo entre o observador analítico e o engajado – cantando sobre todos esses temas, obviamente.
O maior exemplo disso está no single “Cold World”, com participação de seu primo Life e do parceiro Inspectah Deck. Como bem definiu o site Rap Genius, a canção “pincela um imaginário dos problemas sociais com todos os capuzes do gueto”.
Inicia com a fala de uma criança de 3 anos, dizendo ter ‘um sonho ruim’. Ele é acalentado pelo pai (‘Sonhos ruins são apenas sonhos’). O que prossegue é uma sucessão de personagens cuja vida é resumida em versos únicos – todos eles em situações apertadas: ‘Um trabalhador da construção, pego pelo granadeiro/Não houve tempo para balançar o martelo pendurado de seu agricultor’. Ou: ‘Largue esses caras que fumam crack como se fossem tacos mexicanos’.
Mas, voltemos ao começo. O diálogo da faixa-título é extraído do início do filme Shogun Assassin. A criança conta que seu pai vivia ameaçado por ninjas, por ter derrotado alguns deles. Termina assim: ‘essa foi a noite em que tudo mudou’. Então, somos transportados ao palco de GZA.
A produção de RZA impressiona logo de cara: teclados monocromáticos que sugerem ação ininterrupta. De cara, o verso é bombástico: ‘Agora no plano mental, para eletrizar o cérebro’. Visshhh!!
Liquid Swords surgiu em um momento de grande produtividade para RZA. Depois de trabalhar com a celebrada estreia de Raekwon em Only Built 4 Cuban Linx (1995), as batidas já estavam frescas, assim como a abordagem de GZA.
A perspectiva que Liquid Swords aguçou rendeu ao rapper status de virtuoso. Não que isso deva ser isolado do Wu-Tang Clan
Tudo foi gravado na casa de RZA. A própria associação com o filme Shogun foi repentina: “Enquanto estávamos masterizando o disco, eu e RZA pedimos ao engenheiro de som [Chris Gehringer] para dar uma volta e trazer algo pra gente. Foi quando assisti. Adorei de imediato e achei que se encaixava na proposta do álbum”, disse GZA em entrevista à Wax Poetics.
A associação com o xadrez também não foi algo duramente pensado. GZA é um grande jogador, portanto, inevitável que sua lógica de composição seguisse as artimanhas do jogo. Vide “Gold”: a batida traz a aglomeração das ruas; a construção das frases inicia semelhante uma a outra e as diferenciações vão se mostrando aos poucos, como se as letras formassem um sampler mecânico (no refrão, rima rough enough e prossegue: I can’t fold/I need gold/I re-up and reload’). Sucessivamente, em termos fonéticos, o objeto da rima afasta-se um pouco do sugerido no verso anterior.
Todas essas características já são intrínsecas de GZA quando ele canta no Wu-Tang Clan. Mas a perspectiva que Liquid Swords aguçou rendeu ao rapper status de virtuoso. Não que isso deva ser isolado do coletivo Wu: em “4th Chamber”, por exemplo, ele tinha o grupo em mente quando foi compor. As participações de Ghostface Killah e Killah Priest deram uma dinâmica cortante que não ficaria estranha se integrasse o clássico Enter the 36 Chambers (1993).
Nas últimas faixas, GZA cita Deus de diferentes maneiras. Em “Swordsman”, para se referir que cada homem tenta se aproximar a ele em grandeza toda vez que se acha invencível. Ainda sem se entregar à conotação religiosa, em “B.I.B.L.E. (Basic Instructions Before Leaving Earth)”, que muito se aproxima ao que um Tupac Shakur faria, GZA deixa que o parceiro Killah Priest conduza a canção, separando suas crenças pessoais das religiões: ‘Por anos a religião não fez nada, a não ser dividir’.
Depois deste registro, GZA gravou mais quatro discos solo. Nenhum deles lhe garantiu o prestígio ou a popularidade de Liquid Swords. Todos os bons adjetivos associados ao rapper – como 2º melhor vocabulário no gênero (atrás apenas de Aesop Rock), além de firmá-lo como um dos melhores MCs de todos os tempos – partiram deste grande clássico, prestes a completar duas décadas com um vigor flamejante.
