Já que estamos praticamente na Semana do Samba, que tal relembrar um dos discos mais sincréticos do ritmo? Depois de ver suas composições “Pérola Negra” e “Estácio Holly Estácio” estourarem no início dos anos 70 nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia, duas remanescentes do tropicalismo, Luiz Melodia gravou em 1973 seu debut Pérola Negra, unindo guitarras elétricas, a suavidade da música popular brasileira e uma interpretação única, que provou ser insuperável diante das várias versões que já foram gravadas.

Mesmo com todas essas referências, o som do Luiz Melodia tem uma raiz firme no samba. Afinal, (¿)o que esperar de alguém filho de um sambista da estirpe de Oswaldo Melodia, criado em um morro próximo ao Estácio, no Rio de Janeiro, e com uma aparente habilidade para a música logo aos 20 anos?

Fato é que Melodia deu modernidade ao samba. Ele estava entrando na vida adulta quando viu a Tropicália estourar, e acabou trazendo um pouco daquele tipo de alegoria para seus arranjos musicais.

“Pra Aquietar” começa com uma guitarra Jovem Guarda, inspirado pela cena musical de Roberto e Erasmo Carlos, e é um grande fruto dessa influência. Além dela, “Farrapo Humano” condensa jazz e funk com uma serenidade admirável na voz de Melodia.

Todas as músicas de Pérola Negra foram compostas por Luiz Melodia e se diferem uma da outra. Por exemplo, é difícil interligar “Objeto H” e “Abundantemente Morte” pela sonoridade: enquanto a primeira é um samba quarentista agitado pelo contrabaixo, a segunda é mais densa e ganha ares melancólicos com o violão de pano de fundo.

Apesar de Melodia libertar-se de qualquer rotulação musical, Pérola Negra pode ser considerado samba pela estética, a variação de temas e um descompromisso que expõe o ensinamento musical herdado de seu pai.

Luiz Melodia: “Estácio, Holly Estácio”

“Vale Quanto Pesa” se destaca pelas percussões e um compasso pausado que introduz uma espécie de valsa dançante, ótimo para ser ouvida ao lado de uma companheira.

A faixa-título é munida de um dom poético que relata a tristeza de um amor impossibilitado de seguir adiante pela diferença não só de classe social, mas de ritmos de vida diferentes: “Tente usar a roupa que estou usando/Tente esquecer em que ano estamos” ou “Tente entender muito mais sobre o sexo/Peça-me o livro/Querendo, te empresto”.

Luiz Melodia: “Pérola Negra”

Como se Tropicália, Bossa Nova, MPB e Jovem Guarda já não fossem suficientes, Luiz Melodia também faz questão de reverenciar o baião de forma excêntrica em “Forró de Janeiro”. Sem falar das incursões no R&B com a clássica “Magrelinha” e o samba-raiz de “Estácio, Eu e Você”.

Afinal, Luiz Melodia tem como cerne o ritmo mais brasileiro de todos: o samba, em sua forma mais profunda e diversa possível. Motivos de sobra para que Pérola Negra seja considerado um dos melhores álbuns da nossa terra.

Luiz Melodia: “Magrelinha”