Iggy Pop (nos vocais) e David Bowie (nos teclados) estavam em turnê quando projetaram Lust For Life

Ninguém esperava um retorno tão triunfal de Iggy Pop como aconteceu com o lançamento de Lust For Life. Depois de passar maus bocados que culminaram com o fim dos Stooges por volta de 1975, o iguana contou com o apoio mais que bem-vindo de David Bowie (que, por sorte dele, o admirava muito) para reerguer sua carreira musical. Bowie foi persistente: praticamente tirou o cara do limbo e da sarjeta e investiu na habilidade musical de um dos roqueiros mais insípidos de todos os tempos.

Mas o retorno de Iggy foi um processo longo. Ele foi internado para largar de vez o vício em heroína, e chegou a gravar Kill City em 1977, ano considerado turbulento não só na vida dele, como para a música em todo o mundo. O punk florescia, mas um de seus principais precursores não estava em condições de revogar sua liderança no movimento. Nem podia.

Lust For Life impressionou bastante, principalmente, porque foi lançado pouco tempo após um disco considerado conturbado na discografia de Iggy – mas que ainda assim tem sua importância inconteste por mostrar que o punk também pode trilhar o caminho da obscuridade. O disco era The Idiot (muito bom também!), inspirado na obra autoflagelada de mesmo nome do escritor russo Dostoiévski, que tratou a fundo o problema da epilepsia através da trajetória de um príncipe inspirado nas ideias de Dom Quixote. (Com Iggy, no caso, o problema realmente era largar as drogas. Ele próprio já confessou que Dostoiévski é um dos seus escritores favoritos, além de grande influência.)

Foi durante a turnê de The Idiot que Bowie e Iggy escreveram as primeiras letras do disco. Rápido como um raio, como Lust For Life (canção e álbum) sugere, o melhor disco do Iguana reúne em pouco mais de 40 minutos o que de melhor o punk rock tinha: garra e atitude. As melhores canções, a faixa-título, “Some Weird Sin” e “Tonight”, foram escritas por David Bowie – que também ajudou na produção e foi o grande responsável por moldar a carreira solo de Iggy Pop.

Iggy precisava mostrar que o vigor não havia esmorecido durante os tempos em que ficou fora dos palcos, e Lust For Life veio exatamente para exterminar qualquer espécie de subjugo feito ao artista. A faixa-título exibe o grave da voz de Iggy com aquela pungência característica; “The Passenger”, uma das mais famosas, foi escrita pelo guitarrista Ricky Gardiner e mostra que os tempos melancólicos de The Idiot também podem ser munidos com as três cordas que revolucionaram o movimento punk.

Iggy Pop: “Success”

“Success” tem a cara de Bowie, com a inserção de metais e backing vocals que mais tarde marcariam aquele que seria seu disco mais experimental, Low. A canção também é o prelúdio da ascensão de um artista grandioso que quase foi derrotado pelos psicotrópicos.

Se Kill City foi o disco que reergueu Iggy, e The Idiot o reflexo de um difícil período existencial, Lust For Life é uma necessária volta às origens que colocou o iguana em seu devido lugar: nos palcos, enlouquecendo multidões.