
Roqueiro. Eletrônico. New Age. Conceitual. Ator. Iconoclasta. Compositor. Antiquado. Moderno. David Bowie já foi tudo isso e um pouco mais, e não é a toa que carrega consigo até hoje a aura de ‘camaleão da música’. Em tudo que ele toca, deixa seu lado particular, com uma maestria que ninguém ao longo dos anos conseguiu copiar – nem ao menos ousar tirá-lo de um trono cujo legado reside na habilidade de fazer música. Seja do jeito que for.
Portanto, nada mais justo do que uma homenagem à sua contribuição inquestionável. E com artistas que, se não são grandes destaques no cenário musical, ao menos são os mais adequados para interpretar algumas das várias facetas musicais que Bowie explorou. Cada um a seu modo, é claro, mas da forma mais marcante possível para o álbum We Were So Turned On: a Tribute to David Bowie, um tributo sincero e à altura de um dos maiores músicos vivos.
Quase todas as fases da carreira de Bowie estão contempladas no álbum. Das agradáveis garotas do Warpaint até os nostálgicos integrantes do Duran Duran, a seleção de intérpretes é versátil e acerta justamente por incluir artistas underground, não tão conhecidos – com exceção da charmosa Carla Bruni, obviamente.
Carla, inclusive, delicia os ouvidos com uma versão tocante, quase impecável, de “Absolute Begginers”. A primeira-dama francesa prova que a beleza é apenas um atributo complementar à sua excelente capacidade interpretativa no campo musical.
Oficialmente, foram gravadas 42 canções, com alguns bônus disponíveis na iTunes Store. O dinheiro arrecadado com as vendas do álbum será destinada à fundação War Child, instituição que trabalha em países como Uganda, Iraque, Afeganistão e Congo com o objetivo de auxiliar crianças que vivem em perigosas zonas de conflito.
Em resumo, o álbum é bom, viu! “Ashes To Ashes”, regravada pelo Warpaint, é pontuada pelo soul ameno e muito bem produzido, que retrata a vida de um subalterno que só quer encontrar a felicidade nas coisas mais pequenas. Desnecessário dizer que a letra dessa canção é magistral.
Um new age pós-punk do A Place To Bury Strangers, que chega a abusar das distorções, marca a releitura de “Suffragete City”. Ariana Delawari traz ares eruditos para “Ziggy Stardust” com um lirismo que dá ainda mais dramaticidade à história do alienígena mais conhecido do mundo da música.
A estranha e delirante “Sound And Vision” ganha uma versão fiel do Mechanical Bride ao clássico de Low, considerado o melhor álbum do camaleão. “Soul Love” (Genuflex) impacta por sua proximidade com a versão original e “Always Crashing in The Same Car” (Chairlift) resgata o clima nostálgico dos anos 70.
Também há releituras das músicas mais importantes da carreira de Bowie, como “Life On Mars?” (Karen Ann), “Changes” (Lewis and Clark), “Starman” (Caroline Weeks), “The Man Who Sold The World” (Amanda Jo Williams), “Fame” (All Leather) e muitos outros clássicos. Todas com um toque original de cada intérprete, sem pretensão de soar igual ao imutável artista, um dos que mais se reinventaram na história da música.
Mechanical Bride: “Sound And Vision”
Genuflex: “Soul Love”
