Black Tie White Noise

Data de Lançamento: 5 de abril de 1993
Gravadora: Arista/BMG
Avaliação: 9/10

Se tem um disco que mostra como a música eletrônica tem tudo a ver com música negra, o disco é este. É um trabalho de transição de David Bowie, que vejo como um clássico perdido. Novamente com Nile Rodgers, o Camaleão explorou o aspecto mais ‘livre’ da disco music e foi para terrenos longevos, transfigurando jazz e soul com um tempero musical farto. Novamente ele empunhou seu sax, numa procura de intersecções esparsas (naquele momento, ele disse que a última coisa que queria era a zona de conforto). E aí ele dialoga com o funk espacial em “Looking For Lester”, com trompete de Lester Bowie (que não é parente do Camaleão, e sim um renomado jazzista do Art Ensemble of Chicago) a partir do prenúncio da faixa-título, em que diz que sua nova face não tem nada a ver com raça, citando até What’s Going On (1971), de Marvin Gaye. Apesar do disco não ter nenhuma letra expressiva como seus clássicos, os achados estéticos são bem valiosos. O que é aquela linha trêmula de baixo em “The Wedding”? E aqueles efeitos que voam no interlúdio de “Nite Flights” (cover de um clássico dos Walker Brothers)? Ou o atraso vocal em contraponto ao space-funk na transfiguração de “I Feel Free” (do Cream)? Aos poucos, Bowie estava pavimentando seu novo terreno musical naquele momento: a eletrônica. Um disco que merece ser ouvido com mais atenção.

Ouça: “The Wedding”

The Buddha of Suburbia

Data de Lançamento: 8 de novembro de 1993
Gravadora: Virgin/EMI
Avaliação: 6.5/10

Em 1993, a BBC preparou um documentário de quatro episódios inspirado na novela The Buddha of Suburbia, escrita por Hanif Kureishi três anos antes. O enredo é centrado na história de Karim, filho de mãe inglesa e pai indiano que sofre preconceito na Grã-Bretanha quando tenta a carreira de ator. Ao chamar David Bowie para musicar a trilha, provavelmente a ideia da emissora não era a busca de uma música tipicamente britânica, tampouco indiana. Certamente Bowie exerceu sua liberdade criativa para entregar uma sonoridade experimental, que liga a música clássica à eletrônica (vide os pianos de câmara em choque com batidas pré-programadas em “South Horizon” e “Bleed Like a Craze, Dad”). Por ser uma trilha sonora, o disco trabalha com ações, momentos, takes, cenários. Ou seja: procurar uma unidade musical no álbum pode ser o caminho errado para tentar entendê-lo. Isso porque há alterações de tempo e ritmo que tornam a audição completa uma experiência exaustiva (não por menos: são 55 minutos). Se levarmos em consideração o êxito artístico de Labyrinth, dava pra esperar mais. Mas é legal perceber que uma música como “Strangers When We Meet” se encaixaria muito bem num Scary Monsters, ou contemplar um David Bowie partindo levemente para o intimismo na faixa-título – que ganhou outra versão com Lenny Kravitz na guitarra. Ou mesmo ver o Camaleão mais maduro na sua incursão pela eletrônica com “Dead Against It”.

Ouça: “Dead Against It”

Outside

Data de Lançamento: 26 de setembro de 1995
Gravadora: RCA
Avaliação: 8/10

Um total de 19 músicas pode assustar o primeiro ouvinte – principalmente aquele que se depara de primeira com a versão deluxe, que conta com mais 12 remixes e duas faixas inéditas: a acelerada “Get Real” e o space-rock que distorce o gospel de “Nothing to Be Desired”. Mais ou menos como uma jornada por um interior desconhecido, Outside revela um David Bowie tão longínquo quanto a obscura fase de Station To Station (e que perdurou até a Trilogia de Berlim). Se por um lado não há nenhuma persona excêntrica por trás do disco, por outro vemos Bowie debruçar-se em experimentalismos melancólicos, seja no temor de “Wishful Beginnings” ou na intensa musicalidade de “A Small Plot of Land”, contrapondo linhas de piano virtuosas que nos remetem a Aladdin Sane com vocais que sugerem incertezas daqui pro futuro: ‘O falatório de suas vidas/Permanece tão perto’. Com sucessivos lançamentos de Bowie desde Let’s Dance que torceram o nariz da crítica, até hoje esse disco sofre com a preguiça de séquitos que preferem acreditar naqueles argumentos que o detratam como um álbum irregular e arrastado. O trabalho de Brian Eno na produção e as guitarras excepcionais de Carlos Alomar são apenas um adendo nas várias facetas que Bowie nos mostra em faixas como “We Prick You”, “Hallo Spaceboy” (uma de suas melhores músicas de todos os tempos) e “Strangers When We Meet”, encerramento em que o Camaleão parece desabrochar de tal distanciamento criado ao longo do disco. Ele diz ter uma ‘pobre alma passivamente machucada’ e agradece ao fato de se manter ‘estranho quando nos conhecemos’. Não haveria conclusão mais adequada num dos raros casos em que o intimismo revela mais perguntas do que respostas óbvias.

Ouça: “Hallo Spaceboy”

Earthling

Data de Lançamento: 3 de fevereiro de 1997
Gravadora: RCA
Avaliação: 5/10

Na primeira metade dos anos 1990, gêneros como drum’n bass, jungle e dancehall invadiram as pistas com seus ritmos tão acelerados quanto quebrados. Desbravador da cena eletrônica há muito tempo, David Bowie não deixaria de dar um alô a esses gêneros – algo que faz de um jeito estranho neste álbum. Na verdade, os gêneros citados são apenas influência na estética diversificada que o músico escolheu. Quem gosta de rock’n roll ficará muito satisfeito com o que Reeves Gabrels toca em “Looking For Satellites” (uma das melhores). Mas a grande novidade é ver como Bowie trabalha com o drum’n bass em “Telling Lies”, condensando a repetição de refrão com algo um tanto cinemático. “Battle For Britain (The Letter)” é ainda mais incendiária nessa proposta, com admiráveis loops de bateria de Zachary Alford. O ponto em comum deste disco com o que o Camaleão faz de melhor está em “I’m Afraid of Americans”, com vocais robóticos distorcidos que adentram em um industrial poderoso. A música muito se assemelha ao que o Nine Inch Nails explorou em The Downward Spiral (1994).

Ouça: “I’m Afraid of Americans”

Hours…

Data de Lançamento: 4 de outubro de 1999
Gravadora: Virgin
Avaliação: 5/10

David Bowie decidiu seguir uma linha bem inventiva durante toda a década de 1990, mas no final dela quis dar um breque. Eletrônica, space-rock, ambient? Que nada: “Thursday’s Child”, de início, mostra que o Camaleão queria fazer as pazes com a música pop. Os arranjos orquestrais e o auxílio dos backing vocals de Holly Palmer mostram a verdadeira cara de quem um dia criou Ziggy Stardust. “Something in the Air” e “Survive” seguem a mesma linha acústica de Hunky Dory. E isso não é um elogio: a impressão é de que Bowie aponta os mesmos clichês nostálgicos – como se deparasse, por exemplo, com o colégio que estudou décadas antes. “If I’m Dreaming My Life” sugere um rumo mais interessante, talvez pela linha de guitarra de Reeves Gabrels, tão protagonista quanto (e melhor nesse aspecto que) Bowie no disco. Este é um dos poucos indícios de que o cantor está assumindo sua velhice – que continua exposta no clima saudade da família em “Seven”. Quem gosta do Bowie fase Berlim pode se empolgar com o disco a partir de “What’s Really Happening”, adornado por efeitos massivos. A coisa fica mais excitante em “The Pretty Things Are Going To Hell” e, mesmo com a dupla incongruência de “New Angels of Promise” e “Brilliant Adventure”, Hours… finaliza com a melhor faixa: “The Dreamers”, um olhar distópico sobre o sonho da juventude. A versão japonesa ainda conta com um bônus track: “We All Go Through”, que só deve interessar aos fãs devotos do Bowie. Simples canção descartável.

Ouça: “The Dreamers”

Heathen

Data de Lançamento: 11 de junho de 2002
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 5/10

Há quem defenda Heathen como o disco que colocou as ideias de David Bowie nos eixos. Não partilho dessa opinião. Não é só porque o produtor de longa data Tony Visconti retornou que houve uma espécie de ‘salvação’. Porque Bowie não precisava. Acredita nisso quem vê álbuns como Black Tie White Noise e Outside como passos errados – quando, na verdade, mostravam que o Camaleão sabia aproveitar o novo momento de sua carreira. O clima de incerteza misteriosa é acionado em “Sunday” para, na seguinte “Cactus” (do Pixies), revelar uma paixão avassaladora que não se desvaneceu com o passar dos anos. Faixas como “Slow Burn” e “I’ve Been Waiting For You” são provas cabais de que o músico ainda detém o poder de fazer música pop de qualidade, mas, convenhamos, falta um pouco de tempero. “I Took A Trip On a Gemini Spaceship” pode ser mais uma de suas manifestações obsessivas pelo espaço, mas o appeal trazido pela eletrônica é irresistível. Numa época em que reinava o rock ingênuo e setentista de The Strokes e The White Stripes, “I Would Be Your Slave” e “Everyone Says Hi” soavam como um bom respiro, mas estavam bem longe do páreo de conquistar novas audiências. Sim, Bowie reatou com as paradas norte-americanas, entregando seu trabalho comercialmente mais bem-sucedido desde Tonight (1984). O que me leva a uma teoria: discos ruins de Bowie têm uma curiosa relação de proximidade com o mercado.

Ouça: “Slow Burn”

Reality

Data de Lançamento: 16 de setembro de 2003
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 5.5/10

Convenhamos: David Bowie nunca precisou entrar em eixo algum. Então, se Heathen fez isso para quem gosta de ligá-lo ao passado, Reality faz melhor. Melhor ajustado, o álbum revelou um Bowie mais autoconfiante e ousado. Por mais que houvesse uma tentativa de criar novos hits no álbum anterior, em Reality o músico justifica o título sem forçar a barra na tentativa de cravar canções emblemáticas. As iniciais “New Killer Star” e “Never Get Old” são incumbidas de perceptível espontaneidade. Bowie delineia sua voz em terrenos já visitados em clássicos como Scary Monsters e The Man Who Sold The World – provavelmente o álbum que mais estrala ao ouvir este trabalho. No conceito e na forma, “Pablo Picasso” é a apropriação da composição do Modern Lovers, como se fosse uma de suas odes estranhas (‘Pablo Picasso nunca foi chamado de imbecil/Não como você, wow’), como fez em “Andy Warhol” ou “Song For Bob Dylan”, só que com uma pitada mais Outside. Os temperamentos das canções estão bem extremados: ele soa vigoroso na faixa-título e rememora o clima ressaca de forma ainda melhor que Tonight no encerramento “Bring Me The Disco King”, com mais um uso espertíssimo do piano (crédito de quem? Óbvio, o genioso Mike Garson). Ah, e se a balada “Where Are We Now?” causou impacto no início deste ano, é bom constatar que o embrião veio de “The Loneliest Guy”, uma das músicas mais tristes de toda a carreira do Camaleão.

Ouça: “Never Get Old”

The Next Day

Data de Lançamento: 8 de março de 2013
Gravadora: ISO/Columbia
Avaliação: 7/10

Quem escuta The Next Day hoje pode achar que é O disco de David Bowie depois de décadas, mas não é bem assim. Reality (2003) prova que o Camaleão estava se adequando novamente ao hype, mas o hiato mais longo de sua carreira lhe deu o frescor necessário para compilar experimentações bem-sucedidas de seus trabalhos mais elogiados. A capa é de ‘Heroes’ (1977), e assim como o disco da trilogia de Berlim, começa de forma explosiva com a faixa-título – bem mais festiva, otimista e ágil que “Beauty and the Beast”, vale frisar. O álbum tem muitos bons momentos: “Dirty Boys”, “The Stars (Are Out Tonight)”, “Valentine’s Day”, “I’d Rather Be High”… Finalmente os fãs, novos e antigos, têm um disco novo e de indubitável qualidade de Bowie para poder cantar junto. Mais assimilável e bem melhor burilado que os outros trabalhos do músico pós-anos 2000, The Next Day faz da nostalgia algo para se celebrar. Nele, temos o Bowie de Low (“If You Can See Me”), o Bowie que novamente menciona o espaço sidereal (“Dancing Out of Space”), o Bowie de arena (“(You Will) Set the World On Fire”)… Quem não torcia para que o músico voltasse? Ora pois, se essa era a expectativa, The Next Day é o melhor que Bowie poderia oferecer. Apesar de carecer do fator inovação, sempre presente nos seus melhores registros, The Next Day surgiu como um trabalho potente e consistente. Caso o músico queira encerrar a carreira o quanto antes, pode-se dizer que fechou da melhor forma possível.

Ouça: “The Stars (Are Out Tonight)”

Atualização: para conferir a avaliação de ★ Blackstar, álbum derradeiro de David Bowie, clique aqui.

ERRATA:

• A música “Pablo Picasso” (do álbum Reality), como o comentarista Vitor Brito mencionou, é de autoria dos Modern Lovers.