Marc Spitz não tem culpa de ser fã. Realmente é difícil passar impune a uma geração que cresceu ouvindo “Heroes”, “Golden Years” e “Let’s Dance” e não desenvolver um afeto imutável ao longo de décadas.
Você se torna profissional e tem orgulho de poder trabalhar explicando às pessoas o quanto o artista que idolatra é bom (e isso ele fez bem na SPIN, Vanity Fair e outras publicações).
Ele não é exemplo único disso, uma vez que larga porcentagem dos biógrafos está passível a ser conivente com os biografados – ainda mais quando se é parente.
No entanto, algumas observações desnecessárias e anotações que causam vergonha alheia revelam um seminal… coxinha.
Porque é realmente essa a impressão que Spitz passa sem ter vergonha alguma no livro Bowie – A Biografia, que por aqui recebeu uma edição da Benvirá que beira o horripilante, com traduções duvidosas e incontáveis erros de português que estampam deslizes de digitação que blogs adolescentes corrigiriam facilmente. (Infelizmente, o impresso não tem o botão ‘Edit’, e tal erro compromete e muito a edição final do livro.)
Há muitos depoimentos valiosos, incluindo falas de Angie Bowie que vão além daquele rumor típico de NME sobre o fato do ex-marido ter dormido com Mick Jagger; a versão, ainda que bem ofuscada, de Tony Defries, o produtor que supostamente impulsionou a carreira do camaleão e depois foi jogado aos leões acusado de ter arrancado boa parte da grana do músico; além de músicos como Mick Ronson, Gary Numan e até Iggy Pop e Lou Reed, que participaram de (e foram beneficiados pelas) grandes conquistas artísticas de Bowie.
Que o criador de alter-egos como Ziggy Stardust e Thin White Duke cometeu deslizes, a maioria já sabe – e Spitz não cai no erro de defender alguns deles, como o uso exagerado de cocaína nos anos 1970 ou a excessiva megalomania que prejudicou algumas de suas turnês nos anos 1980.
A obra bem que poderia conter maior teor crítico – como, por exemplo, subverter os elogios direcionados a “Rebel, Rebel”, cópia deslavada do que os Rolling Stones já fizeram, e detalhar melhor sobre como o aparentemente ingênuo que não conseguia vender nada até o final dos anos 1960 se tornou um sábio marqueteiro que revolucionou a cultura pop na década seguinte.
Os depoimentos do próprio Marc Spitz que permeiam boa parte dos encerramentos de capítulos são sinceros, curiosos e bem pessoais. Às vezes até parece que Spitz limparia a bunda de Bowie e esfregaria na cara para provar sua devoção (o que soaria mais esquisito que qualquer composição de Low, falemos a verdade).
Jogadas as pedras, Bowie – A Biografia não é um livro ruim. É a obra literária que melhor aproxima neófitos à obra de David Bowie
Essas barreiras podem parecer intransponíveis para salvar o livro do desastre, mas Bowie – A Biografia funciona, sim, como ótimo contato para ter dimensão do maior superstar britânico depois dos Beatles e Stones.
Spitz é um jornalista de perspicácia e soube contextualizar a rivalidade existente entre o camaleão e Marc Bolan (T. Rex) como ponto de partida para o que se tornaria um axioma em sua carreira: procurar se situar em um pedestal diante daqueles que tinha como ‘rival artístico’, onde o maior exemplo é o próprio Jagger – que, como o próprio autor revela, deve ter ficado puto após perceber que Bowie pegou algumas de suas ideias emprestadas para fazer Diamond Dogs (1974).
O autor do livro bem que tenta escapar do ‘chapabranquismo’ ao relatar que a estabilidade financeira e pessoal acabaram acomodando o artista na segunda metade dos anos 1980, quando já não conseguia entregar um álbum potencial desde o sucesso de Let’s Dance (1983), seu disco mais vendido.
Mas força a barra ao empenhar esforços para defender fracassos como Heathen (2002) e Reality (2003).
Não que os discos necessariamente tenham que ser achincalhados; é que não dá para aguentar achismos infundados utilizando termos como ‘na minha opinião não deve a tal obra’ sem apresentar argumentos consistentes. Spitz deve acreditar que a imensa contribuição do ídolo para as artes em geral é maior que os contra-argumentos e se equivoca ao transparecer que é perda de tempo ‘caçar pelo em ovo’. Isso só o torna ainda mais coxinha.
Jogadas as pedras, Bowie – A Biografia não é um livro ruim. É a obra literária que melhor aproxima neófitos à obra de David Bowie pela facilidade de escrita e por compartilhar de memórias com o devido apelo para instigar o desbravador a conhecer a força desse artista tão iconoclasta.
Em tempos atuais, onde a dislexia na era da internet impera sobre a curiosidade de conhecer obras literárias, é quase um erro disparar críticas contra um livro.
Apesar de tudo o que (contra-)argumentei, Bowie – A Biografia merece e deve ser lido, principalmente para se descobrir como um ser vivo foi capaz de se autoreinventar constantemente para entregar obras divinas como Hunky Dory (1971), Aladdin Sane (1973), Young Americans (1975), ‘Heroes’ (1977) ou Scary Monsters (1980), além de influenciar o comportamento e os gostos musicais de uma geração extensa que até hoje sente sua ausência criativa (levemente rompida dia desses com The Next Day).
David Bowie é grandioso, sim, um dos maiores de todos. Mas nem tudo que escrevem sobre ele também o é.
