
Confira na íntegra a reportagem que fiz para a Revista da Livraria Cultura de novembro/2011. Lembrando que a revista pode ser adquirida gratuitamente em qualquer unidade da Livraria Cultura.
Longe dos holofotes, como é típico de sua personalidade, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, ou, simplesmente, João Gilberto, completou em 10 de junho passado exatas oito décadas de vida. Comemoração que se soma a outra: a confirmação da turnê – se não houver nenhum contratempo – que ele realizará em dezembro, com apresentações agendadas em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília.
Apontado como o criador do ritmo que ganhou o nome de bossa nova, mais especificamente após o lançamento do seu primeiro álbum, Chega de Saudade, em 1958, a carreira do músico baiano, incluindo as alegrias e os contratempos, começaria pelo menos uma década antes de ele eternizar a típica batida no violão.
Nas andanças pela Cidade Maravilhosa, João conheceu Tom Jobim, João Donato, Tito Madi e, sua maior influência, Johnny Alf, músico que conseguia extrair uma sonoridade diferente de seu piano
Nos anos 1950, a música brasileira ainda colhia frutos da época de ouro das duas décadas anteriores, quando a música nacional era tipicamente marcada pelo samba-canção. Por isso mesmo, e com o receio de os produtores não verem com bons olhos as inovações musicais, João Gilberto, em sua primeira ida ao Rio de Janeiro, com 20 anos, se valeu de algumas características de Orlando Silva, o cantor das multidões, para se apresentar como crooner do conjunto Garotos da Lua. A tentativa de agradar rádios e gravadoras, no entanto, não foi das mais bem-sucedidas, embora eles tenham conseguido emplacar no ano seguinte dois compactos: o primeiro com as músicas “Quando Você Recordar” e “Amar é Bom”; o segundo com “Anjo Cruel” e “Sem Ela”. Em 1952, já em carreira solo, uma vez que havia sido expulso do grupo devido aos atrasos constantes, João gravou um compacto solo com “Quando Ela Sai” e “Meia Luz”.
Foi por essas andanças pela Cidade Maravilhosa que João conheceu Tom Jobim, João Donato, Tito Madi e, sua maior influência, Johnny Alf, músico que conseguia extrair uma sonoridade diferente de seu piano. “Os acordes soltos de Alf induzem muito nitidamente ao que João Gilberto faria depois”, explica o musicólogo Zuza Homem de Mello no livro João Gilberto. “Ao invés de fazer aquela figuração típica do violão, que vinha do samba, ele trabalhava com acordes soltos – a mesma coisa que o Johnny Alf fazia no piano com a mão esquerda.”
Ou seja, quando João retornou para sua cidade natal, Juazeiro, por conta de problemas financeiros – mas não sem antes ter passado ainda em Porto Alegre e na mineira Diamantina, nas quais vivia de favor –, já levava junto uma boa bagagem musical. Passando boa parte do dia dedicado aos experimentos sonoros, realizaria o intento de criar algo inédito, mas não sem causar questionamentos entre os familiares, incluindo seu pai, Juveniano, que não aceitava a insistência do filho nesse som que ele chamava de ‘nhém-nhém-nhém’.
Chega de Saudade
De volta ao Rio, em 1957, João logo reencontrou Tom Jobim. Impressionado com o ritmo criado pelo compositor baiano e pela liberdade que ele propunha, o maestro teve uma ideia: passar-lhe uma canção escrita com o poeta Vinicius de Moraes um ano antes e na gaveta desde então. Seu título? Chega de Saudade.
A primeira gravação desta música com a batida inovadora de João foi no LP Canção do Amor Demais (1958), de Elizete Cardoso. Pouco tempo depois, o músico caiu nas graças de André Midani. Chefe, naquela época, do departamento de repertório internacional da Gravadora Odeon, o executivo o chamou para gravar um disco de 78 rotações com as faixas “Chega de Saudade” e “Bim Bom”.
“João Gilberto não foi somente um revolucionário na arte musical, mas também na postura do artista perante a gravadora”, define Midani. “Ele foi o primeiro a peitar a todos no sentido de dizer: ‘Quem vai aprovar a gravação sou eu, não o diretor artístico ou a gravadora’”.
Desse jeito, já dava para perceber como eram os momentos de gravação: João queria meter o bedelho em tudo, além de ser excessivamente perfeccionista. Tanto que o seu LP Chega de Saudade, com clássicos como “Ho-bá-lá-lá”, “Desafinado” e “Rosa Morena”, custou a ser finalizado – talvez só tenha saído mesmo por conta da placidez de Tom Jobim. Em uma das brigas, João chegaria a dizer: “Tom, você é preguiçoso porque é brasileiro”. O maestro riu.
Fama Internacional
Entre os anos de 1958 e 1961, João Gilberto gravou os discos que se tornariam a tríade da bossa nova: Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e a Flor (1960) e João Gilberto (1961, esgotado). Por essa época, participou de muitos festivais, até que surgiu a oportunidade de fazer um concerto no grandioso Carnegie Hall, nos Estados Unidos. O público americano já conhecia a bossa nova, apresentada a eles em 1962 com o disco Jazz Samba, fruto da parceria do saxofonista Stan Getz com o violonista Charlie Byrd.
De lá, o dono da gravadora Verve, Creed Taylor, arrastou Getz, Tom Jobim e João para gravar o clássico Getz/Gilberto (esgotado), um dos discos de jazz mais vendidos de todos os tempos.
Embora seja um clássico, as oito belíssimas faixas do álbum escondem as conturbações durante as gravações. Na versão final, por exemplo, cortaram a voz de João Gilberto em algumas músicas e o saxofonista fez questão de aumentar o volume de seu instrumento na masterização, o que deixou João irritado.
Apropriação
Apesar do temperamento forte, João Gilberto despertava um grande fascínio nas pessoas ao seu redor. Mas isso não evitou uma série de episódios que hoje provocam risos ao serem contados. Certa vez, ele pegou emprestado o violão de Tito Madi por achá-lo bem afinado. Só que Tito precisava do instrumento para fazer o show e João o queria mesmo assim. O músico Roberto Menescal resume: “O João falou: ‘Sacanagem, tenho que tocar também’. E Tito respondeu: ‘Mas o violão é meu’. E o João foi e quebrou o violão na cabeça do Tito”.
Além de tomar violões, o compositor também tinha uma habilidade excepcional de pegar as composições alheias e dar um tratamento próprio, como fez, por exemplo, com “Desafinado”, de Tom Jobim e Newton Mendonça. De acordo com Homem de Mello, a canção era uma contradição, porque exibia uma “maneira absolutamente irretocável em termos de afinação. Não tem nenhum desvio sequer da pureza de cada nota que ele emite”.
No Silêncio
Depois do estouro de Getz/Gilberto (esgotado), João se casou com Miúcha, os dois tiveram a filha Bebel Gilberto, e ele só foi gravar um disco solo estrangeiro em 1970, no México. No ano seguinte, voltou para o Brasil e gravou um especial para a TV Tupi com Caetano Veloso. Em 1973, gravou João Gilberto (esgotado), interpretando “Águas de Março” (de Tom Jobim) e suas composições “Undiú” e “Valsa”. Chegou a gravar mais um álbum com Stan Getz, The Best of Two Worlds, até entregar um de seus melhores discos em 1977, Amoroso, com belas versões de “Wave” (Tom Jobim) e “Bésame Mucho” (Consuelo Velázquez).
Em 1981, ficou bravo com o resultado final do disco Brasil (esgotado), que trazia um histórico encontro dele com seus discípulos assumidos Caetano, Gil e Bethânia – o encontro com Caetano em um disco, desta vez como produtor, aconteceria novamente em João Voz e Violão, lançado em 2000.
Durante as últimas três décadas, João Gilberto viveu no silêncio com apresentações esporádicas, se escondendo de tudo e de todos. Em seu último show no Brasil, na comemoração dos 50 anos da bossa nova, em 2008, demonstrou simpatia e encantou o público.
O mito continua vivo.
