São Paulo como transfiguração. Entre ‘mil bandeiras’ e as mais de 50 estações de metrô da turbulenta capital, Caê Rolfsen acaba de lançar o disco Estação Sé, trabalhando composições MPB com uma estética sambista entremeada à música latina, africana e árabe, que habitam o ‘subconsciente’ do músico.
Ali também tem um pouco de cinema. Na faixa-título, por exemplo, percebemos algo como um ‘curta-canção’, onde o personagem tenta sair da mesmice ao tentar se aproximar de uma garota, mas não consegue quebrar uma rotina que se mostra inviolável – rotina que, nesse jogo imagético, é representada pelo trem que passa na estação. (Abaixo, ouça as faixas de Estação Sé.)
Membro da Gafieira São Paulo, Caê nasceu em Araraquara (interior de São Paulo) e iniciou sua carreira cedo como músico: começou a compor aos 13 anos, depois de tirar no violão sambas, reggaes e músicas de rock.
Veio para São Paulo em 2001 para estudar música e já dividiu palco com músicos do porte de Elza Soares e Paulo Moura, além de ter composições gravadas por Wilson Moreira, Dona Inah, Fabiana Cozza e outros mais.
Fica perceptível na música de Caê Rolfsen seu tato como compositor. Na faixa “Terra em Trânsito”, que abre o disco, ele cria um personagem que parece sonhar todos os dias ao levantar da cama para trabalhar, misturando samba com arranjos de carimbó mais o trompete de Paulinho Viveiro e a percussão em marcha de Bruno Prado.
Produzido pelo próprio Caê e Conrado Goys, Estação Sé reúne diversas participações: tem o cello de Bob Suetholz, o violino de Betina Stegman, o piano de Zé Godoy, o acordeom de Guilherme Riberio, o contrabaixo de Marcelo Cabral, o sax alto de Thiago França, e muitas outras colaborações. “Trabalho com meus melhores amigos”, disse Caê. “É uma das gratificações de ser músico”.
Em uma noite agradável, Caê Rolfsen recebeu o Na Mira e nos mostrou uma extensa coleção de livros, DVDs e CDs em uma prateleira que, naquele relance básico, destacou álbuns como Survival (Bob Marley) e Avante (Siba).
Assista a seguir ao vídeo em que Caê fala sobre como conseguiu catalisar suas influências (que vão de Paulinho da Viola a Slayer) no disco Estação Sé (produção Ogilsilva):
Abaixo, confira o bate-papo que o Na Mira teve com o músico:
Caê, você tem larga experiência com música, já tocou com Paulo Moura, Elza Soares etc. Como essa experiência fluiu na direção musical do seu disco solo?
Muito doido. Comecei a trabalhar profissionalmente escrevendo arranjos, acompanhando instrumentistas da galera do samba e tudo mais. Comecei compondo. Quando era moleque, comecei a tocar violão, guitarra, fazia rock’n roll. Sempre gostei muito de reggae.
Fui desenvolvendo essa linguagem como compositor, só que quando vim pra São Paulo, comecei a trabalhar como músico e deixei tudo isso de lado. Fui acumulando músicas e a coisa meio que se inverteu. Na verdade, acho que o lado do compositor sempre aconteceu mais no trabalho que levava pra quem escrevia arranjo. Sempre fui um compositor que deixou essa coisa de lado.
Mas é legal que no seu trabalho percebe-se muito esse lado compositor, por mais que tenha o swing do samba, música latina e a estética da MPB.
Legal saber isso, porque é uma coisa que me dedico muito, apesar de só agora estar lançando meu trabalho solo como compositor. Nunca fui de ficar estudando solos ou técnica, sempre pegava violão tirando música. Não desenvolvia como grande instrumentista, mas desenvolvi minha linguagem de composição, que é uma das coisas mais importantes que tenho.
Quando você compõe, puxa quais referências?
De áreas totalmente diferentes, é muito louco. Samba é uma referência muito forte de composição, vem de berço. Por exemplo, o Wilson Moreira e a Dona Ivone Lara sempre estão no meu consciente – como eu amo a melodia deles, cara! Outro músico que é muito forte na minha cabeça é o Bob Marley. Meu irmão adorava o Bob e não conseguia tirar as músicas. Eu tirava pra ele, então escutei muitas, toquei tudo. No disco não tem reggae, tem uns flertes de arranjo. Mas adoro! Ele é maravilhoso, genial.
Quem não é daqui [de São Paulo], percebe que não é moleza não! E você cresce muito com a solidão, aprende a viver com ela de maneira diferente. Canalizei tudo isso na minha música
Voltando ao seu som: ele também tem um pouco de Chico Buarque, não é?
Curto pra caramba. Toco muita coisa dele, talvez tenha também. Pra quem gosta de violão, ele tem uns caminhos harmônicos legais em samba, uma inversão de baixos, fora a genialidade da composição. É doido, porque nós compositores sempre tentamos fugir do que pode parecer com o que alguém fez. Mas carregamos essas impressões: vamos trazendo aquilo que vem de antes, para dar um passo à frente.
E essa influência ibérica que exala no seu som, é de alguma relação familiar?
A família do meu pai é espanhola, e eles vêm de Marrocos também. Tenho uma forte influência [do som] da Espanha e, ao mesmo tempo, a outra parte da minha família é árabe. Eu trago no subconsciente essas melodias – coisas que minha mãe contava das avós, danças com lenços etc. Quando moleque, a gente quebrava prato em festas de aniversário [segundo a cultura, isso representa o desapego aos bens materiais]. É muito forte essa cultura ibérica e arabesca na minha cabeça, ela mexe comigo de um jeito intenso, sabe?
Recentemente, entrei em contato pela internet com muita gente do cinema do Leste Europeu, Goran Bregovic, tem o Tony Gatlif que é um documentarista que escreve sobre as histórias dos êxodos dos ciganos. Eles trazem essa sonoridade que o sul da Espanha conservou.
Como o cinema interfere na sua música?
Penso na sonoridade dos compositores que fazem trilhas. Na faixa “Estação Sé” eu trabalhei uma espécie de ‘curta-canção’. E tem até uma programação com desenhos sonoros. Curto muito o Shinichiro Ikebe, que escreve pro Akira Kurosawa, o Bregovic, que escreve pro Kusturica.
Quando você compôs o disco Estação Sé, quis direcioná-lo bem à cidade de São Paulo?
A história do disco começa quando me mudei pra cá, em 2001, para estudar música. Aqui a minha composição mudou muito em função do que vivi na cidade. Quem não é daqui e vem pra cá, percebe que não é moleza não! E você cresce muito com a solidão, aprende a viver com ela de maneira diferente. Canalizei tudo isso na minha música, ainda mais com [a direção musical de] alguns parceiros, como o Manu Maltez, que tem uma linguagem de São Paulo muito forte e fez “Terra em Trânsito” comigo.
Muita gente que participa do seu disco tem projetos paralelos, como o Thiago França e o Marcelo Cabral, que tocam com uma porrada de músicos.
A gente vive assim: eu mesmo também trabalho com muitas pessoas, escrevo arranjo, estou produzindo disco. E cada um tem aquela coisa que dá prioridade. Existem as demandas de cada um, mas gravamos na camaradagem. Se não rola de ficar na banda, vem um parceiro pra tocar – é uma das gratificações de ser músico. O Conrado Goys, que produziu o disco comigo, foi um grande parceiro: somos amigões fora do trabalho e no trabalho. Trabalho com meus melhores amigos, e isso é muito legal.
Com o lançamento de Estação Sé, você pretende dar uma guinada na carreira solo?
Tenho muito amor à música como um todo. Adoro escrever arranjo, produzir. Se rolar de fazer show, pô, estamos aí! O lance é estar sempre na música, independente de estar fazendo o meu trabalho ou me dedicando a outros projetos, porque isso alimenta, abre portas. Temos o nosso momento de entrar no quarto, escrever, produzir, transpirar aquilo ali, mas a música é o objetivo. A música é coletiva, só conseguimos as coisas juntos.
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Créditos da Imagem: Ogilsilva.
